Orações ao alcance de um duvidar a céu aberto

Por Marcos Beccari

banner

Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol? Geração vai, e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar onde nasce de novo. […] Já não há lembranças das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas. – Eclesiastes, 1:3-11, Antigo Testamento da Bíblia judaico-cristã.

De minha infância ecoa aquele refrão pop sobre a “arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê”. Acho que não-saber-em-quê é o que sustenta qualquer fé, este lugar em que tanta gente passa os dias esperando para sair dele. E acho que não há para onde ir simplesmente porque já estamos desde sempre “indo”. Se somos isto, é porque nunca o fomos; se fomos aquilo, é porque já não o somos. Seremos reis desde que renunciemos a sê-lo, dizia algum poeta. Pouco me importa o que está muito adiante e que requer grande esforço. Pouco me importa o próximo passo, o próximo projeto, no fim chegamos sempre ao fim. Resta-nos continuar questionando como seria possível abdicar sem desistir, transformar indiferença em altivez.

Na cidade em que nasci, aquela do congestionamento sem fim, meu olhar fixava-se no chão, nas sombras apressadas de seres que, para se esquecerem de que existem, precipitavam-se a abandonar o que quer que seja antes de serem eles próprios abandonados. Mas como quem ergue castelos na areia para vê-los dissolverem-se, ninguém iludia ninguém. Ocupavam e desocupavam lugares aleatoriamente, antes que o dia retorne e tudo recomece. Era preciso pisar numa poça d’água suja para me lembrar de que havia um céu ali espelhado, embora o jargão do mundo adulto impunha-se quanto mais eu me dava conta disso. Era preciso me manter acordado.

Talvez seja isso o que todos procuram, manter-se acordado ou aderir a um sonho qualquer, não como dicotomia, mas um sendo a expressão do outro; e ainda sobra outra opção, é verdade, a de não resistir ao cansaço e deixar-se adormecer. De um lado, despir conceitos e expectativas para ficar com a nudez de um olhar em vigília; de outro, vestir o olhar de imagens para que o mesmo não se perca em abismos, mantendo-o na superfície e na multiplicidade das coisas singulares as quais vislumbra. Seja como for, calma e inquietude que não se confundem com uma simples fuga ou atitude insensível perante o mundo, pois fazem frente ao que nele nos é dado a ver, pensar e sentir: aparência como expressão de si mesma, dado do próprio dado.

Algo como não ter certeza mesmo quando nada se mostra incerto. Não resta imprecisão alguma no cansaço da telefonista do atendimento ao consumidor. Ou na perseverança do professor de ensino-médio público que apanha onze reais por hora/aula. Na sisudez do empresário bem sucedido e tão carente de um gesto solidário. Na aflição da médica divorciada em não conseguir dar atenção aos filhos. Nos filhos abortados para não propagarem nosso destino de morte. Nada disso é incerto e continuamos a viver sem uma certeza suficiente para abarcar tanta precisão.

Talvez viver não solicite outra explicação além do que os olhos veem. Mas insistimos em explicar, porque sabemos que muitas coisas não foram vistas. Precisamente é isso o que se denomina “fé”, uma ação abstrata que encobre sua própria abstração ao privilegiar o que está supostamente implícito, fora de vista. Seu poder ou promessa reside em transformar medo em esperança, um esperar que se confunde com aceitação de que ninguém é especial, nem mesmo por saber e aceitar isso; uma entrega à insignificância que, sem superá-la, ainda assim tira dela singularidade, destila força da angústia, exalta virtude da teimosia, desperta desejo de convivência no interior de recalques e disputas mundanas, conjuga potência no que foge do olhar imediato.

Nem sempre, claro, sobretudo quando o argumento-padrão religioso é evocado para desarmar descrentes: “apenas os que têm fé entendem o que significa fé”. Este qualquer coisa de “mistério” é como a garota que se faz de princesa, como o galã que se faz de cavalheiro, como disfarçar uma incontida insegurança sob a carcaça blasé do “tanto faz”. Bem diferente é a fé que se cultiva como dúvida crua e perene, num tipo de treino onde somos meros instrumentos à medida que só aprendemos a caçar sendo nós próprios a caça. Logo de início fomos avisados que ninguém precisava fazer isso. E que uma hora fatalmente iríamos perder. Escolhemos tentar assim mesmo.

Se existe fé, ao contrário do que geralmente se deduz, é porque há mais dúvidas que certezas. É um tanto dramático, um tanto romântico, mas não como paixão não correspondida e sim como aposta num sentimento inefável, aquele que independe do que o outro sinta. Não importa o que o outro sente ou deixa de sentir ou espera que eu sinta ou acha que eu espere que ele sinta. Aposta-se sem mistério nem adivinhação, como quem se põe inteiro em tudo que faz, ainda que esse tudo seja pouco, sem nada a perder justamente porque a perda é inevitável. O motivo? Nada mais que querer tornar mais bela e emocionante a própria vida, sabendo que esta nada vale.

Sim, acho que isso vale a pena. Não pelo que da fé se exprime, mas pelo que por ela não se diz: fatum ou destino, viver para morrer, indiferença máxima que não se explica e diante da qual não ficamos indiferentes. Não faz diferença colher ou não colher flores, usufruir ou não dos prazeres, se o destino de qualquer coisa é o mesmo: deixar de existir. Só que o modo de ser de cada coisa e de cada pessoa propicia diferentes formas de cumprir com o que jamais foi escolhido – e este espaço mínimo é o único das escolhas possíveis. Podemos agarrar e desagarrar o que desejamos e o que não desejamos e, em todo caso, sem que nos ensinem como fazê-lo, sem razão alguma para cada encontro, curamos feridas e ferimos uns aos outros, entregando-se ou contendo-se, como cadáveres adiados que procriam até que a morte os separe.

Rezamos em plena luz do dia tal como escolhemos um bom perfume para encobrir, não por muito tempo, os incontáveis orifícios que nos encobrem. A imposição de crenças é tida como barbárie ao passo que sua recusa absoluta é tida como esclarecida, ainda que o esclarecido não se isente de crenças que, no limite, aparecem na base do “homem não pode chorar”. Talvez neste sentido que a fé coloque em cheque até discussões sobre gênero e sexualidade, tolerância e preconceito. A crença hetero-machista não é tanto a de que o homem seja superior à mulher, mas antes a de que não é normal ou natural que o homem chore, seja sensível e carente. Pois no imaginário ocidental a violência associa-se ao masculino, o que poderia implicar tanto que a mulher seja oprimida quanto que o homem possa ser violentado sem constrangimentos. Logo, o que o machismo tira das mulheres é o mesmo que tira dos homens: a liberdade de depositarem fé em si mesmos.

Sem isso, sentimos apenas sono e nenhuma vontade. Acomodamo-nos ao desconforto e afeiçoamo-nos à indiferença como estratégia de poder, do tipo que só funciona quando há outra pessoa tentando fazer o mesmo jogo ao mesmo tempo. Nenhuma dúvida além de haver alguém que talvez se importasse; e novamente a fé se interpõe entre o que se esconde e o que se mostra. Pretende-se não sentir, mas “saber sentir” o que ainda não se sabe e, mais que isso, não se sente. Pela indiferença busca-se superar a fé; sempre em vão – sabemos da morte e não sabemos morrer, pois saber sentir não é o mesmo que sentir. Ou arriscamos sentir ou não nos arriscamos.

A negação é a diferença, mas a diferença vista do menor lado, vista de baixo. Ao contrário, endireitada, vista de cima para baixo, a diferença é afirmação. Mas esta proposição tem muitos sentidos; que a diferença é objeto de afirmação; que a afirmação mesma é múltipla; que ela é criação, mas que também deve ser criada, afirmando a diferença, sendo diferença em si mesma. – Gilles Deleuze, Diferença e repetição (Rio de Janeiro, Graal, 1998, p. 105).

Ante a indiferença do destino temos a diferença de cada momento que se repete. Dormimos, acordamos, coisas acontecem do dia para noite e deixamos muitos tabuleiros largados no meio da partida. Se tanta coisa é desperdiçada na redundância do mesmo e nunca sobra tanto tempo assim para pensar, seja antes ou depois, podemos somente negar ou afirmar às cegas o que de todo modo acontece, com todas as reviravoltas passadas e ainda possíveis. É na afirmação que se duvida e que, portanto, se cultiva uma fé ainda a ser inventada. O que dá no mesmo que parar de olhar pela janela um mundo distante, dar sozinho um primeiro passo no escuro e não mais esperar que alguém o faça por você – e talvez sentir passos ao seu lado sem nunca tê-los solicitado.

Procurar por algo ou alguém nunca significou esperar por algo ou alguém, como se disposição de viver pudesse cair do céu como prova, dádiva ou sina. Procurar é inverter a ordem da espera, como a curiosidade, o improviso e a sensibilidade de conseguir encontrar numa mesma coisa-pessoa-vida algo sempre diferente, inesperado e surpreendente. Por isso a fé não se pronuncia em nome do “ideal”, mas como vontade e abertura para algo mais impossível de se falar sobre: o real, o aqui e o agora, os acontecimentos que de todo modo acontecem. Qualquer expressão que diga que o real é real não passa de tradução baseada numa gramática prévia acerca de algo que já se sabe de antemão, mas cujo risco de estar errado é tão grande quanto o de estar certo. Por outro lado, a fé não se traduz por identificação ou estranhamento, por proximidade ou afastamento, mas por verbos intraduzíveis pelo segredo que trazem consigo, o de não haver o que esconder.

Só que assim como não adianta dar a cara à tapa sem uma força que a acerte, é preciso estar minimamente disposto a dar-se conta do acontecido, mesmo caso se queira esquecê-lo. Um verbo no infinitivo é tanto o sentido de uma proposição – “aconteceu de esquecer o acontecido” – como o atributo de um estado de coisas – “o esquecer de um acontecer”. No prazer de sentir-se desejado quando se está acostumado a ser rejeitado, algo é esquecido, mas nem sempre como um peixe que se deixa afogar dentro da água. Acreditar implica duvidar de que a água afoga. E este duvidar não implica ignorar o que se pretende esquecer, mas esquecê-lo por recordá-lo, pois o que se crê é também esforço de duvidar do que foi esquecido, do que teria sido desejado ou rejeitado.

Se por um lado podemos dizer “dancemos” e nem por isso ficamos alegres, podemos dizer, por outro, que nunca tivemos algo a perder se já nascemos morrendo, e nem por isso nos flagramos já dançando. Percepções conduzem-nos ao imperceptível e produzem o que elas mesmas percebem, donde decorre que as relações são exteriores aos seus termos. A quantidade de roupas que se tem no armário não determina elegância em se vestir; uma vida cheia de experiências diferentes não garante “experiência” para lidar com a vida. Assim como uma frase pode mudar sem que seus termos mudem, a diferença não pode estar entre o sensível e o inteligível, entre a experiência e o pensamento, entre as sensações e as ideias. A diferença existe apenas entre dois tipos de ideias, ou dois tipos de experiências, enfim, nas relações e não nos termos.

De modo análogo, talvez a fé apareça apenas como dúvida conjugada nas relações de crenças, como algo de intensivo, de instantâneo e de efêmero no desencadear tanto da dúvida quanto da crença. Em outros termos, digamos que todos os indivíduos afetam-se uns aos outros, sendo apenas “encontros” tudo o que existe. Podemos passar anos à espera do encontro ideal, projetando-o e dedicando-nos a ele de tal modo que não nos afetamos pelos encontros que de todo modo acontecem; portanto, distraindo-nos da existência e colocando-nos já em vias de não existir. Grosso modo, esta seria uma forma de seguir o primeiro princípio de Espinosa, o de que existe uma única Substância para todos os atributos possíveis. Esta seria uma pseudo-fé.

Inversamente, podemos entender que os encontros, incluindo «o» encontro, independem de nosso poder de afetar os outros, mas são de certo modo otimizados por nossa capacidade de sermos afetados. Neste caso, aquele mesmo princípio de Espinosa ganha outro sentido: existe uma só Substância que depende dos atributos, e não o inverso. Esta seria uma fé, se não verdadeira, mais eficaz que a primeira: aquilo que desencadeia um afeto, que vem efetuar um poder de ser afetado, é um espantar-se contínuo entre uma suposta causa e um suposto efeito, mais precisamente entre o que “é” e o que se “faz” com isso, portanto “fé”. Este tipo de espanto é eficaz por abraçar, ao invés de encobrir ou retocar, o que de todo modo acontece; não como sendo certo ou errado, desejável ou justo, mas como gratidão incondicional ao agora, este pouco que temos entre a vida e a morte, entre tudo e nada, que passa por nós sem maiores explicações.

Se não há duração além do distorcer bergsoniano de um infinito espelho de memória-esquecimento, o atributo já não é qualidade atribuível a um acontecimento; é um verbo qualquer no infinitivo que sai de um estado de coisas e o sobrevoa, percorrendo e traçando uma superfície sem substância no tênue e mínimo momento em que é pronunciado. Quem sabe não continue indefinida a Substância espinosista, dado que seus atributos não o são, atuando apenas como afeto-condutor de acontecimentos infinitivos que não são indiferenciados e sim complementares na medida em que nos deixamos afetar por eles. Quem sabe um acontecimento nada mais seja que a relação entre encontros, pelos afetos e pelas qualidades que se penetram aqui e agora.

É preciso esclarecer, neste ponto, que o acontecimento não ocorre em lugar algum. Ou melhor: perguntamos “onde está acontecendo?” enquanto se acontece no infinitivo: viver, amar, encontrar etc. Os combatentes se perguntavam “onde é a tomada da Bastilha?” da mesma forma que se questionavam quando é que morreriam, isto é, sem se darem conta da batalha que os sobrevoava e das foices que sobrevoavam a batalha. É quase como se nos faltasse um mínimo de agência, capacidade de agir, sobre o que nos acontece. Só que amar o acontecimento, amor fatti, nunca significou resignar-se a ele e muito menos assumir suas rédeas, mas encarná-lo feito corpo imaculado que se deixa encontrar e que se mostra digno de ter sido encontrado.

Em suma, transformar o desejo de ser amado numa potência de amar. Não na abjeta indiferença de amar qualquer um, qualquer coisa, como se o universo inteiro estivesse à espera de ser por nós aceito ou rejeitado – o que equivale, em última instância, à propaganda evangélica de eternidade instantânea, essa luz programada que jorra da televisão. Pelo contrário: fazer de um acontecimento, por pequeno que seja, a coisa mais importante e delicada do mundo. Entre conquistar o mundo e preparar um café, escolher a segunda opção como se fosse a primeira. Não por uma questão de princípios, como o racionalista que procura pelo princípio de tudo, mas para dar sentido ao arbitrário, como um empirista que desfaz causas em proveito dos efeitos.

É como se tudo contasse ao tempo, até porque tudo “conta tempo”, mas também o contrariasse ao mesmo tempo, sem com isso passar por contratempo. E como uma secreta cumplicidade sem segredos, nunca é fácil enxergar e ainda preservar tamanha sutileza. Não porque haja na fé uma espécie de raiz de todas as verdades, nem tampouco por alimentar ilusões; antes de tudo, porque não há nenhuma necessidade de fé – sobretudo de crer no contrário disso (necessidade baseada na crença de si mesma, contradição sui generis). Ela é forçosamente produzida lá onde as coisas foram sempre as mesmas coisas: apenas coisas que não representam seja o que for. E por mais que qualquer coisa possa ser objeto de fé, nem tudo passa por ela. Necessário é sair da fé, fazer não importa o quê para reinventá-la a partir dos afetos, das relações que unem num dado momento pessoas e coisas, pessoas e pessoas, pessoas e o mundo. Libertar no acontecimento o que não se deixa esgotar pelo acontecer, libertar na fé o que não se deixa fixar numa crença.

Se as ideias aqui dispostas, por fim, não estão suficientemente organizadas é porque nada me parece mais completo e inescapável do que acreditar ou duvidar do que quer que seja e o passar dos dias não diminuir nosso esforço em fazê-lo. Como não entendo o porquê, não me sobra tempo para explicar. Certa noite uma garota prestes a se suicidar me disse que, se eu quisesse salvá-la, aquele seria o momento ideal. Respondi que era mesmo, dei meia volta e fui embora. Claro que eu sabia que ela não o faria, e fiquei pensando em como as pessoas gostam de ser colhidas como se fossem flores. Talvez porque a fé lhes seja prontamente entregue numa bandeja.

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

Conteúdo relacionado

Comentários