Do flâneur ao voyeur: lenta coreografia de um grande enterro

Por Marcos Beccari

banner

…uma bela dama em branco e vermelho […] quer partilhar sua felicidade com o circo inteiro – uma vez que é assim que o espectador da galeria apoia o rosto sobre o parapeito e, afundando na marcha final como num sonho pesado, chora sem o saber. – Franz Kafka, Na galeria (Um médico rural, São Paulo, Cia. Das Letras, 1999, p. 23).

“Não foi a vida, foi você”, disse o analista à paciente, que não conseguia parar de rir da situação. “Foi você que fez a vida fazer isso com você, e você não é a vida”, continuou. E ela ria mais alto. Filha de mãe solteira, aprendeu cedo que os homens sempre lhe trairiam, o que não lhe impedia, contudo, de cultivar muitas relações ao mesmo tempo. Ria de uma liberdade que não apenas lhe garantia um estilo de vida de alto nível, mas também lhe dava a sensação de dominar o jogo, de estar por cima do recalque mundano. “O mundo é assim, a culpa não é minha”.

O analista nunca havia visto uma expressão tão independente e segura de si, uma facilidade tão grande de se relacionar. Por que não teríamos, afinal, o direito de viver para nos satisfazer acima de tudo? Se uma pessoa deseja não se prender a nenhuma outra e consegue manter várias relações simultâneas, a título de que nos oporíamos? Se alguém nos exibe explicitamente seus interesses, em nome do que os recusaríamos? Não havia nenhum tipo de princípio que impedia o analista de consentir com o riso de sua paciente, sobretudo fora do expediente.

Quando ele voltou para casa, sua esposa se queixava do horário, disse que ficou até agora o esperando, que tinham combinado de sair para jantar etc. O analista se desculpou, mas logo reforçou o acordo que haviam feito alguns anos atrás, uma proposta “nova e salvadora” por um casamento mais leve, mais justo, não regulado pelo ciúme. “Meu bem, você não precisa se preocupar com o que eu faço fora de casa, combinamos que cada um deve fazer o que tiver vontade de fazer”. A barreira da desaprovação social, segundo ele próprio, já não tinha força, de modo que só lhes faltava encontrar o que seria o “bom regime” de uma relação ainda conflituosa.

O que o analista não percebia é que esse “bom regime” alinha-se ao mesmo dispositivo que alimenta a atual economia de mercado: tudo deve girar em torno do objeto explícito de satisfação, o que caracteriza precisamente uma perversão. Quando Sócrates perguntava a algum amigo “com quem você transou ontem?”, ele estava inserido num contexto que nada tinha a ver com perversão – é preciso haver certo “pecado original” para que a operação perversa aconteça, a saber, alimentando-se deste pecado ao confrontar-se com ele direta e abertamente. Num contexto de expansão/crise econômica contínua, de consumidores ávidos de gozo público e sem limites, predomina a vontade de romper-se a timidez, os pudores, as barreiras morais e os interditos.

O que confere perversidade a este processo é a reiteração da velha ordem moral por meio da insidiosa recusa a esta ordem. É a mesma lógica que mantinha nosso analista num vai-e-vem extraconjugal: a alternância de mulheres garantia que sempre houvesse uma que possa “estar faltando”, que no caso era sua esposa, desejada por ele a partir da ausência dela. Neste tipo de relação, eficaz pelo distanciamento interno, o ser desejado deixa de ser reconhecido enquanto tal, instaurando via hábito uma banalização generalizada na esfera social como um todo: o outro é sempre colocado numa situação em que não poderia agir de outra maneira, ou pensar de outra forma, nem mesmo ser ou querer ser alguém diferente. Não há escolha, “o mundo é assim”.

O que os telejornais reforçam todos os dias não é somente violência e corrupção, mas antes nossa impotência de fazer frente a elas. É uma banalização da vida. Quando uma empregada doméstica volta do serviço e encontra a porta de casa arrombada e seus poucos pertences roubados, o melhor que ela consegue fazer é rir da situação. Ela não deve nada a ninguém, por isso ri. Assim como aquela alegre paciente de nosso analista liberal – voltemos rapidamente a esta garota, que desfrutava a recente vida adulta numa espécie de “clausura em liberdade”.

Era uma moça bonita, franca, sem nada que a denuncie nem nada a ser denunciado. Até porque não fazia nada, não se preocupava com coisa alguma, nem no que se refere a seu futuro pessoal ou profissional, mesmo no que se refere a seu presente ou passado. Morava numa quitinete apertada, na qual dormia durante o dia; à noite frequentava apartamentos nobres e festivos, onde consumia todo tipo de droga; às vezes passava por situações desagradáveis, mas nunca se queixava de nada. Foi numa dessas noites que conheceu o analista, contando-lhe uma falsa história de estupro para justificar-se do que dizia ser seu único defeito: frigidez.

Nem por isso, claro, deixava de entregar-se ao desejo alheio, topando qualquer tipo de proposta desde que não envolva compromisso. Diante de um mundo que não lhe oferecia nada de interessante, ela obtinha prazer ao se sentir usada ou agredida reciprocamente. Admirado, o analista dizia que ela se “autonomizou”. De fato, ela já não dependia de ninguém para continuar rindo à toa, solitária, mas nunca sozinha ou carente. Sem a menor necessidade de saber ou explicar qual é a graça, ela prosseguia rindo de forma cada vez mais leve e elegante, superando à sua maneira os obstáculos que o mundo adulto lhe impunha. Sentia-se como uma heroína errante que procura em meio aos mortos algum sinal de vida. E nunca encontra.

1. O olhar flâneur que perscrutava um mundo que não estava mais ali.

Antes do século XIX, as cidades europeias eram basicamente um acumulado de casas e o espaço público era sujo. O comércio limitava-se ao espaço privado, as ruas eram estreitas e não havia vitrines. Mas com a expansão sem precedência da economia industrial e a consequente explosão demográfica das cidades, em especial Londres e Paris, o espaço público passou a ser reformado, tornando-se um ambiente a ser frequentado e não mais um mero espaço de passagem.

A individualidade do homem moderno experimentava pela primeira vez o fenômeno da multidão urbana e, no seio desta multidão, o anonimato abria espaço à figura do flâneur. O fascínio pela indiferença, pelo efêmero, pelo acidental e pelo contraditório caracterizava este ambulante sem destino, sem casa, cidadão do mundo. A cidade era o templo do flâneur, o espaço sagrado de suas divagações, aventuras e perambulações. Nela ele vislumbrava com entusiasmo a solidão-em-conjunto.

Desapegado das velhas instituições e desvinculado da esfera privada, o flâneur encontrava na rua seu refúgio, onde acreditava que o sublime somente se deixava ver pelo olhar apático. Seus meios de vida eram invisíveis, restando somente a sugestão de uma riqueza particular escamoteada em seu comportamento marginal. Assim o flâneur diferenciava-se do dandy, o diletante aristocrata que fazia questão de ostentar mesmo aquilo que não possuía. O flâneur observava a multidão ao mesmo tempo em que nela se misturava – não se tratava, pois, de um olhar atento e distanciado, mas fragmentário, momentâneo, ocioso, sempre distraído e cambiante.

Nas palavras de Baudelaire, o flâneur “habitava o inconstante, o movimento, o fugitivo e o infinito, e nisso estava o seu imenso gozo”. Desnecessário apontar a evidente recusa romântica de Baudelaire, neste elogio à transitoriedade errante, aos valores modernos. Importa a suposta capacidade do flâneur de aderir ao mundo sem nunca se apegar ao mesmo. Para Walter Benjamin, este “flanar” somente era possível por conta de um efeito anestésico da multidão que, ao propiciar anonimato aos indivíduos, mantinha-os a uma distância segura dos horrores sociais.

De lá para cá, quanto mais se alastrava o processo industrial, mais o flâneur se rendia ao ritmo da moda e das mercadorias que embriagava a multidão. Seja como for, são muitos os sociólogos e teóricos da comunicação que atualmente recorrem à figura do flâneur para compreender nosso novo ambiente relacional calcado na internet e nos dispositivos móveis. Não é de hoje que nossa relação com o outro tem sido reorganizada por adventos tecnológicos – como o trem, o telégrafo, a fotografia etc. Mas explicar a “navegação” do indivíduo contemporâneo pelo espírito do flâneur parisiense, conforme Baudelaire e Benjamin o descreveram, parece-me pouco acurado.

2. Um ethos voyeur da vida pública: engane e deixe-se enganar.

Ao passo que o flâneur testemunhava o outro e o entorno como forma de testemunhar a si mesmo, o cosmopolita contemporâneo parece dissuadir o outro por meio da própria imagem de si amparada pelo outro, mantendo em dúvida qualquer forma de laço ou testemunho. “Apareça a todo custo” é a mais perfeita camuflagem: por meio dela, não se sabe o que se mostra e nem o que é visto. Se as pessoas buscam se entregar ao engajamento com o outro, preferencialmente desconhecido (Tinder), é porque já estão absolvidas de qualquer culpa em virtude do fato de que, em última instância, tudo pode ser desfeito e nada pode ser definitivamente testemunhado.

Não é somente um pacto interessado em manter intactas as “boas aparências”, deixando livre o espaço da permissividade desde que esta não ultrapasse os limites da privacidade. A questão é que este mesmo pacto é censurado na medida em que ele é praticado por todos e cujos inúmeros rastros estão à disposição de todos. O excesso de indícios dissolve qualquer prova contundente. Esta censura paradoxal, por meio da qual o conteúdo censurado torna-se acessível a todos, está constitucionalmente vinculada à perversão do voyeur.

Oriunda de indatáveis narrativas pornográficas, a figura do voyeur define-se pelo desejo de observar sem ser visto observando. É um segundo nível de anonimato: enquanto o flâneur aderia ao mundo sem se apegar a ele, o voyeur não adere a nada mas se apega a qualquer coisa. Ele até quer ser visto também, mas nunca “em flagrante” enquanto observa os outros. Pois observa como se roubasse algo, não tanto pelo que vale este algo, mas pelo puro prazer de roubar.

Tal como um cleptomaníaco, o voyeur nunca se contenta com o que vê/rouba e continua à procura do que a ele se oculta. Trata-se de uma fixação por aquilo que pode ser “outra coisa”, como um novo nível do ideal romântico de um mundo que nunca coincide consigo mesmo. A censura ao testemunho parte da premissa romântica de que é impossível capturar algo tal como é, capturar algo sem trocá-lo por outra coisa. A impossibilidade do afeto então prevalece no “encontro pelo desencontro”, na fuga/busca por uma espécie de segunda chance que nunca chega.

O preço que pagamos é que a fruição voyeurista somente se instaura como zombaria de si mesma, como piada interna do “qualquer lugar desde que em outro lugar” do flâneur: qualquer pessoa desde que seja outra pessoa, outro trabalho, outro perfume, outra tatuagem etc. Ao invés de contemplação, porém, o que resta é somente uma tediosa observação que não suporta ver a solidão e a melancolia que lhe são subjacentes. O jogo relacional e afetivo assim se estabelece, eficaz enquanto vigilância consentida: mais do que um “flanar” inconstante e invisível, o que se vive é um navegar compassado na repetição monótona dos mesmos shares e likes na timeline alheia.

O voyeur contemporâneo reivindica por privacidade ao mesmo tempo em que procura novas pessoas a serem desnudadas; comemora o que quer que seja e se angustia ao se flagrar angustiado. Ele regozija e sofre consigo mesmo. Conhece o preço de tudo e o valor de nada. Cumpre com o imperativo narcisista de parecer bem-sucedido na exata medida em que é incapaz de usufruir o que dispõe em sua frente, sobretudo a imagem que faz de si.

3. A ghost story about you looking at me and I watching myself being looked at.

O espaço público metropolitano, ao contrário do que parece, está se esvaziando. De um lado, há uma minoria crescente dos habitantes dos grandes centros urbanos que detém os meios de acesso ao deslocamento virtual: trata-se do yuppie workaholic, narcisista e bem sucedido, que combina euforia com a disciplina ascética da academia e da alimentação saudável, sempre portando seu smartphone e seus fones de ouvido.

De outro lado, subsiste a ainda esmagadora e catastrófica maioria walking dead que, sem dispor de nenhum ponto fixo, vaga por um ambiente urbano quase em ruínas: comerciantes, autônomos, estudantes, desempregados, artistas de rua, policiais, aposentados etc. O que todos compartilham neste espaço é uma sensação de indiferença ou até de exclusão. Mesmo no caso dos poucos entusiastas da praça, aparentemente capazes de assumir aquele espaço como “seu”, aos demais que ali circulam isso soa como engajamento desmedido, magnífico por enaltecer o absurdo do contexto.

O fato é que um espaço público indiferente àqueles que o frequentam é o cenário perfeito para o comportamento voyeur de uns para com os outros. Num mundo em que a obsessão pelo desempenho tem sua contraparte na busca por satisfação e visibilidade, em que os desregramentos se regulam por um cuidado médico intensivo e uma sexualidade domesticada, o gozo é balizado e banalizado pelo coito interrompido que secretamente se vê no outro. Não se trata apenas do sweet ass, este ancestral fazer-se de difícil por meio da falsa ingenuidade; pelo contrário, o encanto é dimensionado pela lascividade e desinibição, de modo que o prazer maior encontra-se paradoxalmente no ato impotente, cru, incapaz de realizar-se à altura da promessa. Longe de despertar compaixão, o que está em jogo é o agenciamento da frustração alheia como tentativa (fracassada) de anular a nossa.

Sob o viés psicanalítico, a presença do outro sempre foi tida como enigmática, equidistante e impenetrável – seja como externalização/projeção de aspectos negados em minha própria personalidade (abordagem jungiana), seja como ameaça insondável que determina meus desejos ao não saciá-los (abordagem lacaniana). Freud inventou a psicanálise quando o circuito do “coito interrompido” estava ainda em seus primórdios, quando a moral vitoriana da abstinência, da frugalidade e do trabalho dignificante se firmava concomitantemente à revolução industrial. Mas conforme o consumo parecia contrabalancear a rigidez do trabalho, sua tese do “tanto mais culpado quanto mais virtuosa a conduta social” teve de ser reformulada. Coube à Lacan perceber que da renúncia ao gozo descrita por Freud desenvolveu-se o gozo pela renúncia (ao gozo).

Dizem que o momento certo para uma prostituta se aposentar é quando ela começa a gozar com os clientes. Semelhante efeito colateral seria o da dura realidade (“o mundo é assim”) que justifica com virilidade todo tipo de subsunção gratuita, com a pequena diferença de que nossa “aposentadoria” só marca o início de toda uma carreira. Mas o fato de alguns homens e mulheres fantasiarem que estão sendo estuprados não justifica o estupro efetivo, pelo contrário, o torna ainda mais violento, humilhante, intolerável. E assim como o modo de produção capitalista gira em torno de um valor excedente, de um dispêndio fantasioso que não entra na contabilidade, o “querido-diário” visto por todos é movido por uma inesgotável carência que aparece sob a forma de prazer em excesso.

O casal mostra que se ama, os amigos reafirmam sua amizade, o intelectual mostra-se esclarecido mesmo quando finge ser ignorante. O gozo pela renúncia (ao gozo) ocorre como farsa consentida como tal: nada de inesperado, tudo muito previsível, mas continuamos ali, olhando e “curtindo” a uma distância segura. O que se renuncia, portanto, é a real empatia de uns pelos outros, ainda que isso estranhamente nos mantenha sempre “em sintonia”. Como? Gerenciando nossos desejos numa plataforma que desde o início se propunha como uma espécie de cardápio social e cujo enunciado retoma o imperativo moral do Admirável mundo novo de Huxley: não seja antissocial, conecte-se com o máximo de pessoas possíveis e se relacione com todas elas ao mesmo tempo.

4. Ecos e sombras: someone was looking for you on missed connections too.

O que Huxley não previa é que não seria preciso fabricar soma para despertar libido nas pessoas; basta imputar-lhes um mínimo distanciamento com aquilo que desejam. Tal efeito é garantido pelo tédio que se instaura nos dois lados da tela e para o qual se responde com o aumento de interação, o que também o alimenta. Temos então um círculo vicioso que gera simultaneamente engajamento e indiferença entre as pessoas, seguindo à risca o princípio ético do voyeur: apegar-se a tudo sem aderir-se a nada, criar e alimentar vínculos sem o risco de assumi-los.

A recordação daquelas pessoas que aparecem nas fotos apenas reforça a lembrança permanente de que já nos esquecemos delas. Como espectros, pois, elas nunca desaparecem. Ninguém será lembrado, mas o esquecimento encarnado no refresh mantém-se vivo e operante. É algo próximo daquilo que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro denomina quase-morte. Empiricamente, a morte não é um acontecimento, uma vez que ela sempre ocorre aos outros, jamais a nós mesmos – “quando você morre, você não existe mais para testemunhá-la”. Já a quase-morte é algo que só pode ocorrer a nós mesmos, quando testemunhamos que o fim poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Este “quase aconteceu”, diferente da morte em si, é vivenciado como acontecimento, ainda que restrito à subjetividade e à narrativa de si.

Ocorre que a solidão do voyeur não diz respeito a sua própria quase-morte, mas à quase-morte do outro, daquele que está sendo observado. Essa quase-morte não é mais capaz de sustentar uma narrativa, isto é, aquela sensação de continuidade e pertencimento que talvez o flâneur um dia experimentou. O quase-acontecer do voyeur reside em um sua constante vigília, tão mais atenta quanto nada vê acontecer de fato. Sua obsessão é conseguir capturar aquilo que não pode ser visto, então tudo o que lhe aparece nunca é o bastante. Que fique claro: não é apenas querer continuar olhando, mas também conseguir provocar tal obsessão no olhar alheio.

A vida passa a ser composta por uma sucessão de quase-mortes: alguma coisa “quase acontece” a cada notificação, quando tentamos testemunhar aquilo que não pode ser testemunhado. O que quer que seja só ocorre aos outros, nunca a nós mesmos, e somente num quase-acontecer regulado por uma indiferença mútua, via de regra perpetuada sob os auspícios de um eufórico engajamento em tempo real. A multidão assim (in)filtrada pelo instagram perde a força de produzir sentido na medida em que cada indivíduo simultaneamente intima e ignora o outro. A ordem é manter-se sempre disponível, autoconfiante, independente, sedutor, sempre pronto para conhecer diferentes pessoas, culturas e experiências sem se prender a nenhuma delas. Afinal, temos a tarefa economicamente rentável e inadiável de usufruir um mundo de possibilidades infinitas de satisfação, aprimorando nossa capacidade de consumir e ser consumido pelo outro, de forma aberta e democrática, uma vez que qualquer escolha é válida justamente por nunca ter sido escolhida de fato.

Que a prática social em sua totalidade não seja marcada por uma obsessão constante, que cada pessoa lida de um modo diferente com as demais, que a conduta relacional predominante ainda ancora-se em modelos tradicionais é fato visível e suficientemente difundido para ser negado, mas nem por isso dá para ignorar a força estruturante que uma perversão emergente pode exercer no tecido social. Se cada vez é maior a sensação de que tudo é possível, de que não há limites para expressar-se, para satisfazer-se, para escolher um modo de existir, de se relacionar e de se afirmar como sujeito, a questão que não se deve relevar é: mas a que custo?

Se há desemprego, fome e miséria no Terceiro Mundo, acredita-se que é porque a “educação” (esclarecimento vigente) ainda não foi aplicada integralmente. Se há preconceito e terrorismo, nunca tem a ver com a violência das condições que os geram; acredita-se que é porque a violência ainda não foi aplicada “corretamente” (para eliminar todos os preconceituosos e terroristas em potencial). Ou seja, tudo é possível desde que haja uma “limpeza” do que se julga intolerável, limpeza esta que nunca se situa como sintoma de uma perversão, mas justamente em sua (ainda) não total abrangência. Não se trata mais do sonho de ditadores do século XX, trata-se da lógica neoliberal de eficiência máxima do mercado que se sustenta na premissa de que “o mundo é assim”.

De fato o mundo é assim, mas a necessidade de justificar-se com isso indica que você não aceita que seja assim. Não aceita que as pessoas sejam preconceituosas, que sintam ciúmes, que recalquem seus desejos, que se frustrem umas com as outras, então você procura ser melhor que elas, por mais difícil que isso seja mediante a ralé ainda não tão evoluída quanto você. A culpa não é sua, o mundo é assim, resta destacar-se dos demais e satisfazer-se com isso. Quem não consegue fazê-lo não é problema seu, já que o mercado/natureza seleciona os melhores e elimina os menos capacitados.

É neste ponto que a perversão se põe em ato: o confronto com o status quo e a competição constante acendem o desejo de consumo e tornam obsoleto quem ainda não entendeu a piada da vez. A palestra mais subversiva e “salvadora” será aplaudida desde que seu enunciado dê lucro. Novos pensamentos e estilos de vida são literalmente “valorizados” para intensificar o potencial de lucro. Diversificam-se as modalidades (sexuais, culturais, espirituais etc.) para fazer proliferar a segmentação de produtos e serviços, tudo em nome do bem-estar e da autoestima. Novamente, o que menos importa é o que se escolhe: todas as opções se equivalem no acesso e na promessa.

Claro que ter consciência disso não significa, como apressadamente se poderia supor, que se está apto a libertar-se do mecanismo perverso (esta é inclusive a promessa dele). Só podemos escolher consentir com ele ou assumir seu blefe. A primeira opção implica agir como se nossa conduta em relação às pessoas e ao mundo devesse refletir e amparar um modelo ideal de sociedade e de ser humano (alimentando-se então de um “pecado original” previamente recusado). A segunda opção implica perceber que qualquer tipo de relação, tradicional ou vanguardista, em última análise não se justifica em nenhum princípio, pois toda e qualquer noção de natureza humana, amor, justiça ou necessidade moral não passa de uma mentira bem contada.

O mentiroso não pode deixar de saber que mente, mas em nenhum momento sabe tudo sobre aquilo que acredita ser verdade.

Lembremos que Hermes prometeu a Zeus, quando flagrado em mentira, nunca mais mentir; mas não prometeu dizer a verdade, inaugurando assim o dúbio, o ambíguo, a reversibilidade dos enunciados. Discurso sofístico, este é o blefe do flanar contemporâneo: afirmar por negativas e negar por concessões. A entrega como renúncia, conforme as regras do voyeurismo, demonstra como uma ambiguidade quase-morta pode nos persuadir e decretar a própria falência social. Por outro lado, em meio às ruínas da esperança pelo outro, ainda podemos recusar a “verdade” e acreditar em nossas pequenas mentiras. Fazer florescer um relacionamento sólido, seja de qual espécie for, é apostar no amor por escolha própria, é dançar sem medo no escuro e, dispensando qualquer razão de ser, desejar aquilo que é o que é sem precisar ser outra coisa.

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

Conteúdo relacionado

Comentários