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Construtivismo Russo e Design – Parte 1

Por Rob Batista

O Construtivismo Russo foi um movimento de vanguarda que abriu o século XX passando por cima (sem pedir licença) de uma série de concepções artísticas que duraram por muito tempo, e contribuiu, em muito, para a forma como pensamos e produzimos arte e design desde o século passado.

O início do século XX foi marcado por uma série de disputas territoriais na Europa que levaram a um desenvolvimento bélico intenso e culminaram na Primeira Guerra Mundial, na qual a Rússia foi peça importante. Com a maioria dos homens na guerra, as mulheres foram para as indústrias. Enquanto isso, a fome se espalhava, acompanhada por baixíssimos salários e cargas horárias de trabalho excessivas. Isso contribuiu para que os trabalhadores fossem às ruas em protesto, convocando greves gerais e aumentando a força do movimento, inclusive interrompendo o abastecimento de alimento e combustível por todo o país. Era o caos. Cercado pela população, em 1917, o Czar Nicolau II assina sua abdicação. A partir daí iniciou-se um governo provisório instável, fraco e que não tinha o apoio da massa trabalhadora, e que duraria somente até o fim daquele ano, quando operários, soldados e camponeses, liderados por Lênin e o Exército Vermelho, irromperiam a chamada Revolução Vermelha.

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Nosso dever é experimentar – Alexandr Rodchenko

Entender esse contexto é importante porque ele tem profunda relação com o caráter revolucionário do Construtivismo Russo. O cenário de caos e instabilidade induziam à uma reorganização da sociedade em questão, mas isso não era algo novo. A novidade aqui é que, baseadas em ideologias ligadas ao marxismo, anarquismo e outros movimentos, as pessoas passariam a pensar e projetar essa nova forma de organização, seu espaço e sua vidas deveriam ser reorganizadas de maneira racional e muito mais autônoma. A partir disso, os construtivistas viriam na arte muito mais o papel de criar, construir novas realidades, do que de representar realidades que se deveria jogar fora.

Estética e teoricamente, o Construtivismo encontra origens no Cubismo de Picasso e no Suprematismo de Malevich. Alinhadas aos ideiais emancipacionistas da Revolução Socialista, as idéias construtivistas pregaram uma autonomia maior do artista, o fim da arte da elite, e uma democratização radical da arte, significando sua morte no estado em que se encontrava para nascer de outra forma, uma arte democrática, popular e, acima de tudo, funcional. O principal defensor dessas ideias, e líder de uma importante ala do movimento, foi Alexandr Mikhailovich Rodchenko (1981 – 1956). Rodchenko foi um dos que defenderam com mais vontade que a arte deveria ter uma função social, cumprir um papel prático na vida das pessoas. Não é raro, e também não é exagero, ouvir dizer que que a arte não foi mais a mesma depois de Rodchenko.

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Ninguém havia pensado de forma tão enfática a produção artística como elemento político tão essencial à forma como nos organizamos socialmente e como entendemos a sociedade e o espaço em que vivemos. Sua maneira de criar era construindo a partir de propriedades formais e materiais, de maneira racional, estrutural e científica. Essa postura estava em ressonância com os ideiais da Revolução e de Lênin, que o integrou ao Departamento de Arte do Estado, onde ele enfatizaria a participação do artista como essencial para o suprimento material e intelectual da sociedade.

Rodchenko deixa de lado a arte de cavalete, alegando ser uma limitação antiquada à produção criativa, e parte para experimentar novas técnicas. Foi fotógrafo, escultor, pintor, designer. Ao lado dele, outros artistas promoveriam experimentações que revolucionaram o mundo da época e que explicam muito do mundo de hoje.

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Com o Construtivismo Russo, a defesa da morte da arte realista e a pregação de uma arte útil, vemos aparecer a principal abordagem do design que existe hoje: o design funcionalista. Os construtivistas acreditavam que o artista especial, iluminado, pertencia ao passado, e que em um futuro socialista regado pelo desenvolvimento tecnológico, as ferramentas artísticas e, consequentemente, a técnica, deveriam ser radicalmente democratizadas. Seguindo essa linha, vários artistas trabalharam, através de sua arte, o desenvolvimento da comunicação de massas, conseguindo transmitir ideias para uma população que nem sequer sabia ler (Lissitzky impulsiona a alfabetização a partir dessa ideia). São fundadas as Vkhutemas, escolas de tecnologia e arte aplicada, que deveriam preparar artistas para a indústria e para a transformação cultural do país e disseminação das ideias construtivistas e socialistas. Vemos, então, o que alguns consideram como o início do ensino formal de design.

Em 1934, através do Congresso dos Escritores, o Construtivismo é proibido na URSS, alguns artistas são expulsos ou constrangidos a se exilarem. A ala ligada a Stálin determina o retorno do realismo do período imperial, mas agora chamado realismo socialista. Mas, se por um lado, a arte construtivista perde espaço em um lugar que ela ajudou a construir, por outro lado, vemos sua transmutação no design e em movimentos artísticos pela Europa, influenciando muito em nossa vida até hoje.

 

Leituras Interessantes

  • MARGOLIN, Victor. The Struggle for Utopia. Chicago: The University of Chicago Press, 1997.
  • ALBERA, François. Eisenstein e o Construtivismo Russo. São Paulo, Cosac & Naify Edições, 2002.
  • RICKEY, George. Construtivismo. São Paulo, Cosac & Naify Edições, 2002
Rob Batista

Rob Batista

Rob Batista, aka Robin Hood, é paulista e estudante de Design Digital pela Universidade Anhembi Morumbi. Se encontra (e se perde) em Artes Visuais, Antropologia, Filosofia, Ficção Científica, entre outras coisas, e vê no design o poder de (des)construir o mundo. Suas pesquisas, observações e toda a bobagem que fala são muito menos o desejo de explicar e muito mais a tentativa de entender.

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