CAPAInfluencias Incomuns

O Design de Influências Incomuns

Por Eduardo Dario

Dentre as diversas vertentes do design, existem algumas que muitas vezes fogem do compreendimento simplesmente prático ou estético. São peças gráficas, produtos ou arquitetura que provém de influências intrigantes e que levantam discussões sobre arte, design e sociedade.

Nunca foi tão fácil expressar-se de maneira original e própria. Somos incentivados a fazer a diferença. No cenário contemporâneo das artes, a abertura para novas maneiras de produzir e ver design, traz simultaneamente a liberdade criativa e o desafio de não perder-se no caminho da expressão.

Os designers conviveram desde muito cedo com essa noção de impacto visual versus funcionalidade, aprendendo a medir e escolher sobre o peso de um trabalho altamente impactante mas que por vezes não atende ao seu propósito da forma. Isso nem sempre é algo ruim e muito menos algo que não possa ser contornado. Os designers de maior sucesso na atualidade tem a consciência disso e fazem de seus projetos os mais arrojados dentro do limite do aceitável e do compreensível.

Animal Lamp – Horse

O gosto pessoal e o repertório do observador influencia da percepção da mensagem. O que deve ser evitado é negar o que causa estranhamento. Prestar atenção apenas no que lhe parece “bonito” ou “correto” pode muitas vezes ocultar o teor da mensagem de alguma obra estranha que carrega consigo um refinado senso ideologico ou conceitual.

Philippe Starck, um dos grandes nomes do design, é um exemplo disso. Não há duvidas sobre a qualidade de seus projetos, porém percebemos em alguns de seus trabalhos mais famosos a clara intenção de valorizar a ideia e a sensação deixando a praticidade como coadjuvante.

Philippe Starck – Juicy Salif

Quem vê o icônico Jucicy Salif, espremedor de laranjas assinado por Starck, logo percebe a fascinante ideia do designer de reinventar um objeto tão simples e torná-lo um ícone moderno. Para quem não abre mão da praticidade, usar o espremedor
pode ser um pouco frustrante e aí entra novamente a discussão sobre o peso do impacto visual e a funcionalidade.

Nas artes gráficas as manifestações incomuns se mostram como ferramentas de grande utilidade, sejam elas empregadas por questões estéticas, funcionais ou até mesmo comerciais. Chamar a atenção do público em um mundo cada vez mais saturado de informação visual, se tornou uma qualidade, um sinônimo de êxito.

Nos casos mais comuns, muitas vezes o padrão de harmonia visual tido como “belo” é quebrado e o público é estimulado a pensar a peça gráfica de outra maneira, levando em consideração desde o sentido que o designer pretendeu passar através da mensagem até o efeito do estranhamento causado no observador.

Já em 1919, no Construtivismo Russo era presente a preocupação sobre o apelo visual das peças gráficas atravéz de soluções visuais inquietantes e agudas, com alto teor semiótico. Os produtores daquela arte sabiam do impacto sobre o público das cores e formas até então incomuns na produção gráfica mundial.

Cartaz produzido por El Lissitzky, como propaganda contra o exército branco da contra-revolução.

Em outros casos, percebemos uma influência que não necessariamente grita aos olhos mas provém de fontes incomuns e originais.

Em 2007 o designer gráfico australiano Stefan Sagmeister criou uma série de logotipos para a Casa da Musica da cidade do Porto em Portugal. Ele usou a forma da ousada arquitetura do local e aplicou cores retiradas de imagens dos artistas que se apresentam ou tem suas obras apresentadas no local. Essa criação possibilitou ao teatro, ter uma identidade visual que se renova simultaneamente com as atrações do espaço cultural. Uma ideia que quebra os conceitos de originalidade ligada ao estranhamento, com uma solução visual simples.

Stefan Sagmeister – Casa da Música

As influências podem surgir das situações cotidianas, da materialização do estado de espírito do criador ou da canalização de algum estímulo externo. O importante é ter em mente que a influência, a ideia e o projeto fazem parte do resultado final e
devem ser levados em consideração no momento de fazer a leitura de alguma obra ou peça gráfica.

A liberdade de expressão presente atualmente, conquistada e evoluída através do tempo, não deve ser tida como mero capricho artístico ou o tempero para dar gosto a um projeto. Ousar é uma ferramenta, e os frutos que podem ser colhidos de uma ousadia estética, funcional ou de sentido podem ir desde causar surpresa e comoção no observador até conferir uma originalidade e força tornando um trabalho a princípio “estranho” em um ícone do seu tempo.

Eduardo Dario

Eduardo Dario

Paranaense, 18 anos. Estudante de Design Gráfico da UTFPR e amante de todas as formas de arte. Produtor de conteúdo do Algures 8, irá escrever mensalmente sobre temas relacionados ao evento.

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