estampas motivos e padronagens clássicas

Curiosidades sobre padronagens

Por Amanda Prado

Dentro do universo fashion o design da superfície têxtil é percebido cada vez mais como um dos itens que segue tendências sazonais além dos shapes, cores e materiais.

Por mais vanguardista que seja o seu estilo, ou excluindo t-shirts vistas por aí, que sabidamente passam pelo rigoroso método de criação mostrado a seguir:

Basta repararmos ao nosso redor, as ruas estão dominadas por motivos florais e animais além de padronagens xadrezes. (Para os mais antenados e moderninhos me refiro a constante presença dos florais liberty, animal e paisley prints, além de snake skins).

Hoje em dia podemos notar como o design da superfície têxtil agrega maior valor aos produtos de moda, além de ter o potencial de proporcionar a diferenciação tão almejada pelos mais diversos tipos de público que escolhem as estampas e padronagens das roupas que compram de acordo com o que pretendem transmitir através do seu estilo de se vestir.

Alguns desses efeitos conseguidos na superfície dos tecidos, seja por meio da estamparia ou na própria tecelagem, são de extrema importância para a moda, não só por comunicar a individualidade dos sujeitos, mas também por serem capazes de contar séculos de história que hoje são revisitados.

Com base nas informações disponíveis no livro Tecidos: história, tramas, tipos e usos (2007), da autora Dinah Bueno, selecionei algumas curiosidades relativas a essa temática.

Quando falamos em motivos que podem adornar a superfície do tecido de um produto de moda logo nos lembramos de diversos temas como florais, geométricos, animais, étnicos e abstratos. Já os padrões clássicos encontrados nos tecidos podem ser representados pelos xadrezes, listras, cashmeres, tweeds, olhos-de-perdizes, riscas-de-giz e poás.

A seguir confira curiosidades sobre alguns desses motivos e padrões que fazem parte da história da indumentária e são vistos até hoje em novas releituras.

Floral

Muito antes dos variados tipos de estampas florais vistas nos últimos anos nas lojas, ou de representar os surfistas, as flores, assim como outras formas da natureza que inspiravam o homem, eram reproduzias de forma fiel ou estilizada nos tecidos.

O fato é que no berço da estampagem, na Índia, esse motivo era um dos mais empregados. Mais do que isso, o floral foi o motivo predominante na estamparia até o fim do século XVIII. Porém, no final do século XIX a reprodução de motivos florais nas roupas ganha força novamente por conta do movimento artístico da Art Nouveau, demonstrando a ligação entre as superfícies têxteis com o espírito de cada época, assim como a própria moda.

É evidente que as flores do início da estamparia indiana ou as predominantes do século XVIII não são as mesmas, por exemplo, das utilizadas nos últimos anos do século XIX, que possuíam formas mais rebuscadas, folhagens onduladas e caules alongados de acordo com o estilo artístico da época.

Minúsculas, graúdas, espaçadas ou em rapports, nesse vai e vem das tendências, as flores se mantém atuais, se renovando por meio do estilo das ilustrações.

Geométrico

Além do floral esse é outro motivo que estava entre as preferências dos consumidores europeus nos séculos XVII e XVIII. Os motivos geométricos sofreram uma grande valorização no início do século XX, acompanhando a tendência do Art Déco.

Seguindo uma linha mais clean esse outro movimento artístico surge como uma antítese da Art Nouveau, valorizando um estilo mais puro e dando espaço aos motivos geométricos.

As formas geométricas utilizadas nos tecidos são democráticas por permitirem uma infinidade de combinações harmônicas de cores e formas.

Essa é uma das características que faz com que os motivos geométricos sejam um dos queridinhos da moda, variando ao longo das temporadas de cores, formas e estilos.

Animal 

Animal prints foram os hits das últimas temporadas, mas a pele de animais, assim como plumagens de aves, já serviam de inspiração para a decoração de tecidos há mais de 5 mil anos.

Na figura a seguir podemos ver uma imagem proveniente do Antigo Egito exposta no Museu do Louvre que comprova esse fato:

Mas como com tantos milênios de uso nas vestimentas as estampas de motivos animais ainda conseguem se destacar como tendência e provocar desejo nas consumidoras?

Isso é possível não só pelo fato da grande variação de estilos ilustrativos e possibilidades de estilização das animal prints, mas principalmente pela evolução da tecnologia têxtil ao ponto de combinar essas estampas com tecidos de efeitos e texturas surpreendentes, até mesmo imitando o couro ou a própria pele dos animais.

Listras 

Um notável padrão clássico utilizado nas superfícies têxteis que conta com um histórico impressionante.

Apesar de inúmeras variações de padronagens listradas serem comuns hoje em dia, durante séculos elas foram associadas a qualidades negativas.

No ocidente até o século XV as listras eram usadas exclusivamente para identificar bandidos, loucos e doentes. A padronagem listrada ainda era vestida por outros que eram considerados de alguma forma marginais à sociedade cristã, como condenados, carrascos, prostitutas e até mesmo músicos e malabaristas.

Foi durante o Renascimento que o destino dessa padronagem, hoje tão clássica, começou a mudar. Durante os séculos XV e XVI as listras foram levadas até o ambiente doméstico, e passaram a ser usadas em pijamas e roupas de banho.

Mas ainda eram consideradas padronagens secundárias, pois também apareciam em trajes de serviçais e escravos, salientando que nessa época o traje marcava principalmente a distinção de classes.

Mas foi na era romântica, no início do século XIX que as listras começaram a ser associadas com novas ideias: juventude, liberdade e humor.

A grande reviravolta que tornou a padronagem listrada uma moda elegante ocorreu no início do século XX, devido à ousadia de personalidades consideradas referências de estilo: Gerald Murphy, aclamado como o homem mais elegante na Universidade de Yale (EUA), Pablo Picasso e Coco Chanel, que dispensam apresentações, mas assim como Murphy utilizaram as listras fora do seu universo comum: atitudes esportivas, trajes de banho e de marinheiros, e as usaram em ocasiões formais e cotidianas.

Hoje as listras vestem palhaços, prisioneiros, homens, mulheres, crianças e banhistas, mas são utilizadas sem problema algum na superfície têxtil de artigos de luxo e de gala, Tudo graças a sua difusão na moda.

Cashmere  

Sinônimo da década de 1970, elas ainda serão muito vistas por aí por terem aparecido com força nos desfiles spring/summer 2012 de grandes grifes internacionais.

Hoje mais conhecidas com Paisley prints, desde o século XVII já eram reproduzidas artesanalmente nos altos vales da caxemira, no norte da Índia. Daí o seu nome mais clássico, cashmere, um grafismo trabalhado que surgiu a partir de folhas de palmeiras.

Considerada como uma padronagem clássica, é ícone da liberdade setentista e ao mesmo tempo de tecidos finos e luxuosos provenientes da Índia ou de Paisley, uma cidade escocesa, popularmente conhecida por produzir tecidos decorados com a mesma ideia das folhas dos xales indianos de cashmere.

Tweed 

Tecido feito com fio de lã tweed, de textura áspera e efeito boutonné (espécie de bolinhas produzidas intencionalmente no processo de fiação).

O nome tweed surgiu do rio homônimo que separa a Inglaterra da escócia.

Existem variados tipos de tweeds, sendo que todas as padronagens desse estilo nos remetem de alguma forma ao clássico, lembrando que a indústria têxtil inglesa é a mais tradicional pelo fato do seu pioneirismo no setor, mas esse tecido entra na moda de fato quando Chanel o introduz em seus clássicos tailleurs confeccionados em tweed.

Olho-de-perdiz 

É um dos tipos de tweeds, porém mais fino e macio, sua trama forma um pequeno desenho geométrico semelhante ao olho de uma perdiz, uma espécie de ave. Geralmente tecidos com esse padrão clássico mostram tons de cinza, do mais claro até o grafite e o preto.

Risca-de-giz  

Desenho de superfícies têxteis que apresenta listras brancas e finas no sentido vertical sobre fundo escuro. Esse padrão é clássico e aristocrático, mas foi amplamente divulgado pelo cinema, vestindo gangsters ianques das décadas de 1920 e 1930. A elegância dos personagens acabou fazendo moda e mudando o rumo dessas listras. Atualmente variações desse tema mostram riscas de diversas grossuras, espaçamentos e quantidade, além de vestir homens e mulheres.

Espinha-de-peixe 

Esse padrão clássico é obtido na tecelagem por meio de uma amarração derivada da sarja. Essa amarração resulta num efeito de várias letras “v”, formando um ziguezague semelhante às espinhas de peixe.

São conhecidas ainda como ziguezague, missoni ou chevron, e fugindo dos padrões tradicionais e cores sóbrias ela está em voga dando vida a estampas étnicas coloridas.

Poás 

Tecidos com poás, ou bolinhas também são associados a diversas épocas distintas, e reparem, atualmente ainda fazem sucesso.

Os seus desenhos podem ser empregados em superfícies têxteis em vários tamanhos e cores, revelando rapports distintos.

É interessante observar como os clássicos poás ainda sobrevivem à moda: combinando-se a texturas, tecidos e cores diferenciadas, e ainda sendo usados em conjunto com outras peças mais ousadas para compor looks modernos.

Xadrez 

Muito antes do atual sucesso do xadrez, ou da sua associação com o estilo country, essa padronagem já fazia hstória.

Em meio a tantas variações clássicas de xadrez como o madras, o príncipe-de-gales, o pied-de-poule, o vicky e os tartans escoceses, antes de serem estampados em massa como vemos hoje, a origem desse padrão tão clássico teve início ainda com os primitivos teares, resultando da trama simples de fios de duas ou mais cores, que deram vida a essa grande variedade.

A seguir algumas curiosidades a respeito dos mais clássicos padrões xadrezes:

Madras 

O madras está sempre em evidência em camisas esportivas masculinas, e o seu nome faz referência a cidade de Madras, na Índia, onde era originalmente tecido.

O madras permite que a padronagem xadrez seja reproduzida numa grande variedade de cores e desenhos.

Príncipe-de-gales 

Essa variação de padronagem xadrez tem seu nome relacionado a Eduardo VII, que através de sua elegância quando era príncipe de Gales introduziu esse tipo de xadrez na moda.

Em sua origem era obtido pela trama dos fios de lã nos teares, permanecendo durante muito tempo como um desenho exclusivo da moda masculina, no entanto que hoje vete homens e mulheres.

Pied-de-poule 

Literalmente “pé-de-galinha” é um tipo de xadrez miúdo que resulta do entrelaçamento dos fios de trama com os de urdume. O seu nome reflete a sua aparência semelhante com pegadas de galinha. Se os desenhos formados forem maiores a padronagem é chamada de pied-de-coq (pé-de-galo).

Vichy 

Popularmente conhecido como xadrez “piquenique”, sua padronagem dá vida a pequenos quadriculados, formando o xadrez com a combinação da cor branca com uma segunda cor.

Seu nome vem da cidade francesa de Vicky, famosa pela produção de tecidos com padronagens xadrezes.

O vicky é conhecido desde o século XIX, mas tornou-se famoso na década de 1950, quando Brigitte Bardot usou em seu casamento com Jacques Charrier um modelo em xadrez rosa e branco adornado com bordado inglês.

 Tartan 

Nome dado ao tecido de lã ou algodão com padrão escossês. Antes de designar um estilo de xadrez, tartan era o nome da famosa saia usada pelos escoceses.

Há quase trezentos anos para cada família nobre do norte das ilhas Britânicas era criado um padrão de listras horizontais e verticais formando quadrados. A maneira como elas se cruzavam e suas cores correspondiam a cada clã. As famílias nobres da Grã-Bretanha ainda mantêm seus tartans, também conhecidos como xadrezes escoceses.

Hoje plebeus de todo o mundo os usam sem cerimônia, mas sua história é tão interessante que vale a pena ser lembrada.

Durante o início do século XVIII, os habitantes das montanhas da Escócia desenvolveram um sofisticado código relativo ao vestuário, à cor e aos padrões dos tecidos, com o objetivo de identificar e fortalecer a união de seus clãs.

Assim, os highlanders eram um povo nativo que vivia em clãs e usava o célebre Kilt escocês, até que, em 1746, a Batalha de Colluden ocasionaria a proibição de seu uso. Essa proibição do uso do Kilt ou mesmo do padrão em xadrez típico da cultura highlander durou 36 anos, e aconteceu em função da batalha entre os ingleses e escoceses, sendo que essa atitude foi tomada como represália contra a invasão dos highlanders na Inglaterra.

A base dos tartans resulta da tecelagem de fios coloridos da urdidura e da trama que, ao se cruzarem, formam desenhos em ângulos retos. Os blocos resultantes no desenho se repetem nos sentidos vertical e horizontal, fazendo surgir linhas e quadros conhecidos como sett.

O Musel Real da Escócia, em Edimburgo, mantém uma exposição com mais de 1.600 tartans diferentes. Com toda essa história e tradição, algumas empresas registram seus próprios desenhos de tartans para a identificação de seus produtos como uísques, fumo para cachimbo, biscoitos, entre outros.

Um dos tartans mais famosos do mundo da moda é o da Burberry, com mais de oitenta anos de existência como marca registrada.

Apesar de Thomas Burberry ter desenhado o trech coat em 1901,  foi a beleza do seu forro que tornou esse item um ícone da Burberry, que apareceu nas peças da grife em 1924 formado pelo xadrez bege, preto, vermelho e branco,

Enfim, as superfícies têxteis revelam as particularidades de quem as vestem, mas também muito sobre diferentes épocas e histórias, evidenciando outro prisma da moda.

Para saber mais:

  • PEZZOLO, Dinah Bueno. Tecidos: história, tramas, tipos e usos. São Paulo: Editora Senac, São Paulo, 2007
Amanda Prado

Amanda Prado

Vinte e um anos, mineira, viveu no interior do Rio de Janeiro desde sempre até que a partir de 2011 se aventurou a morar em terras paranaenses para estudar Moda na Universidade Estadual de Maringá (UEM), mais especificamente em Cianorte, onde concluiu o curso de Moda em 2015, e não satisfeita, aproveitou a deixa e se formou em 2013 como técnica em vestuário pelo SENAI. Apaixonada por pesquisas acadêmicas, moda e áreas afins, mas acima de tudo consciente da necessidade da fomentação do campo de saber da moda.

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