Carlos Drummond

Design gráfico como poesia

Por Carlos Bauer

Até que ponto um projeto gráfico pode impregnar-se da poesia geralmente atribuída a projetos artísticos e ainda assim ser design? Alécio Rossi [1]

Quando estava buscando tema para o TCC, curti a ideia de conciliar os dois: design e poesia. E deu samba. Sei que é difícil alguém pegar o volume completo do trabalho e ler. Logo, sair da linguagem acadêmica e compartilhar por aqui alguma coisa do que encontrei parece válido. É o que pretendo fazer nesse e em futuros escritos.

Ok. Um poema é feito com palavras, assim como qualquer outro tipo de texto. Diferencia-se principalmente daqueles com caráter informacional – uma bula de remédio, para pegar um exemplo escrachado. Algumas coisas aí pelo caminho fazem de um poesia e do outro não.

O texto/poema incorpora algumas características e constrói outras. Além do intuito e do contexto, é com um certo tipo de articulação que o poético aparece. Esse modo de fazer, de pensar, também pode ser no design gráfico (por que não?). Ora, também em design há diferentes tipos de projeto. Um sistema de sinalização é mais objetivo do que o projeto gráfico experimental de uma revista cultural. E partem da mesma base: cores, formas, tipografia, suporte.

Em ambos, existem diferentes abordagens. Escolas, movimentos, marcas de época, valores estéticos. A proximidade está no propósito comum de comunicação e no trabalho com a relação forma e conteúdo.

Nem todo design vai ser poético (ou mesmo sem intenção, pode ser), mas trazer da poesia algo para o design é considerar outros caminhos, explorar seus limites – no fazer e no ler. Libertar-se de modelos e explorar possibilidades geralmente é produtivo. Além de que, nada mais justo para uma atividade que se assume como multidisciplinar buscar conteúdo fora dela mesma.

Para falar de poesia, ninguém melhor que Leminski (e isso dá assunto, ô se dá). Para ele, a função da poesia é (simplesmente) a função do prazer na vida humana. Não tem utilidade prática e nem precisa. As coisas com este objetivo apenas servem para se alcançar as que se justificam por si só: felicidade, amor, amizade, orgasmo e a “alegria do gol do Zico”.

Mas poesia é arte e design não: tem objetivos, funcionalidades. Atribuir caráter de poesia ao design não seria colocá-la em contexto utilitário? Pode-se pensar no sentido contrário: adicionar ao design qualidade de poesia que, na sua inutilidade, dedica-se ao prazer da vida humana. De certo modo, essa ideia é um incentivo à humanização do design. Fica assim compatível com os enunciados de satisfação de necessidades e promoção do bem-estar e lembra ser o design feito para pessoas.

No fim das contas, poemas nem designs são para ser explicados. Mas isso enquanto peças para ler. Para fazer é outra história.

Exemplo clichê de projeto gráfico experimental de uma revista cultural: Ray Gun, de David Carson.

Exemplo do que não precisa ser explicado: Dadinho na Terra do Sol, de Felipe Muanis.

Rótulos da cerveja artesanal Capitu. Instigante, vai dizer?

Referência

[1] ROSSI, Alécio. Poéticas Visuais. In CONSOLO, Cecília (Org.). Anatomia do design: uma análise do design gráfico brasileiro. São Paulo: Blücher, 2009.

Imagens

Ray Gun / David Carson

Dadinho na Terra do Sol / Felipe Muanis

Cerveja Capitu

Imagem destaque: composição a partir de foto e manuscrito de Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Bauer

Carlos Bauer

Recém-formado em Design (UTFPR) gosta de design que só vendo. Hoje atua como designer gráfico na Feel the Future e investiga as relações de design e linguagem.

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