Paris, France: Customers queue outside the Apple store

Sobre Rams e Ive (e Muros também)

Por Guilherme Webster

Já li em diferentes ocasiões artigos a respeito da proximidade entre o trabalho de Dieter Rams (1) e o de Sir Jon Ive (2) – ou, em outras palavras, sobre as similaridades entre os produtos da Braun e da Apple. Neste texto, porém, quero abordar algo que considero ainda mais relevante: suas diferenças. Mas comecemos pelas semelhanças: diversos (3) sites (4) comparam (5) o aspecto visual dos produtos da Apple com os da Braun (já caiu até no 9GAG (6)), e mesmo o app original da calculadora no iPhone homenageia o modelo clássico (mundialmente difundido e copiado) da empresa alemã. Formas, acabamentos, interfaces, menus: muita coisa foi inspirada e transmutada. Uma simples busca por “Apple Braun” (7) ou algo que o valha no Google já revela uma penca de informação e imagens a respeito.

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Não vou entrar no debate sobre os limiares entre plágio e referência (8), até porque sabemos que “tudo é um remix” (9) e que tanto Ive quanto Rams nunca esconderam a mútua admiração. O cineasta Gary Hustwit capturou muito bem esta relação no seu documentário Objectfied (10) (já escrevi sobre este filme anteriormente (11)), quando faz a transição entre o depoimento do designer alemão (ou Gestalt-Ingenieur, como prefere ser chamado (12)) e o do britânico. (13) A troca de elogios levou Ive a escrever o prefácio do livro Dieter Rams: As Little Design As Possible (14), de Sophie Lovell e Klaus Kemp, que aborda sua vida e obra. Nas palavras de Sir Jon, os produtos de Rams “(…) parecem inevitáveis, desafiando você a questionar se poderia haver uma alternativa racional” (15) a eles.

O título do livro não é ocasional: “o mínimo design possível” é o último dos chamados 10 Princípios do Bom Design (16), que Rams elaborou entre os anos 60 e 70 – segundo ele, uma maneira de transmitir sua filosofia de projeto tanto aos seus estudantes, quando começou a lecionar na Academia de Belas Artes de Hamburgo, quanto à imprensa e ao departamento de design da Braun (17). Ei-los. O bom design:

  • 1 – É inovador;
  • 2 – Faz um produto ser útil;
  • 3 – É estético;
  • 4 – Ajuda a entender o produto;
  • 5 – É discreto;
  • 6 – É honesto;
  • 7 – É durável;
  • 8 – É meticuloso;
  • 9 – É ambientalmente correto;
  • 10 – É o menos design possivel.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dieter_Rams

Não por acaso, a ideia de fazer mais com menos continua incorporada à Braun, como mostrado no folheto A Força do Puro (18), que apresenta a atual linguagem de projeto da empresa nas palavras de Oliver Grabes (atual diretor de design), do próprio Rams e também do famoso designer japonês Naoto Fukasawa, que categoricamente afirma: “a forma não é a questão-chave”.

Rams

Por este motivo, chamo a atenção para o sétimo princípio: o bom design é durável – “evita estar na moda e assim nunca parece antiquado. Diferente de um design da moda, ele dura muitos anos – mesmo na sociedade descartável atual.” Ora, qualquer pessoa que tenha ou teve um iPhone, iPad ou iQualquerCoisa sabe que estes produtos são o oposto de duráveis – não necessariamente pelas suas características físicas, que geralmente são de alta qualidade (materiais, acabamentos, etc), mas sim por conta da famigerada obsolescência programada (19), que pressiona os usuários/consumidores a trocarem de aparelho anualmente. É lógico que o crescimento acelerado das tecnologias computacionais, conforme a Lei de Moore (20), impele naturalmente alguns produtos a se tornarem ultrapassados em poucos meses. Mas frequentemente este não é o caso da Apple, que faz uso de ardis de software e até mesmo de baterias de iPod projetadas para durarem apenas 18 meses, como mostrado no brilhante documentário catalão A Conspiração da Lâmpada Elétrica: A História Não Contada da Obsolescência Planejada (21), da diretora Cosima Dannoritzer (assistam, vale muito a pena). Mais do que isso, ao promover o desenfreado consumismo, a empresa estadounidense (assim como tantas outras) não cumpre com o nono princípio: bom design é ambientalmente correto.

Ive

Evidentemente, não podemos ignorar o contexto histórico e geográfico das duas empresas: enquanto a Braun precisou praticamente renascer na alemanha ocidental pós-guerra (22), lidando com a recessão econômica que o fim do conflito trouxe (um cenário em que o consumismo era impensável), a Apple surgiu em meados dos anos 70, com a bem-sucedida ascensão capitalista dos EUA já estabelecida – e a política de estímulo à compra teve fundamental papel neste crescimento. Nas palavras do próprio Rams:

“A Apple conseguiu alcançar algo que eu nunca pude: usar o poder de seus produtos para persuadir as pessoas a entrar na fila para comprá-los. Já eu tinha que entrar na fila para receber comida ao final da Segunda Guerra Mundial. Esta é uma mudança e tanto.” (12)

Mais de 30 anos após a fundação da empresa californiana, contudo, o termo “sustentabilidade”, outrora um fator diferencial em negócios de vanguarda, já se tornou lugar-comum. Considerar o impacto ambiental é agora imperativo para qualquer grande empresa, que não pode mais ignorar o peso do consumismo na sociedade, como a Apple e tantas outras companhias nascidas sob o mote do sonho americano (mesmo que não sejam americanas) tem feito. É claro que muitas empresas apenas maquiam suas operações para parecerem “verdes”, mas este é outro assunto…enquanto isso, o engenheiro espanhol Benito Muros, inspirado pela “lâmpada centenária” (23) retratada no documentário supracitado, lançou suas lâmpadas de LED de altíssima durabilidade e, no embalo, o movimento Sem Obsolescência Programada (24) – motivo pela qual já fora até ameaçado de morte. (25) “Porque talvez não cheguemos à utopia, mas perseguí-la nos faz caminhar”, afirma em seu manifesto.

Muros

Assim, cometendo a ousadia de discordar do grande Herr Rams, fica claro que a similaridade entre os produtos da atual Apple de Ive (que é também vice-presidente da empresa) com a Braun das décadas de 50 e 60 está apenas em uma das dimensões do design: a forma. Em outros quesitos, suas filosofias de projeto estão em polos opostos. Não me refiro apenas a questões sígnicas e/ou simbólicas dos produtos (será que o significado, para o consumidor, de possuir um produto Braun em 1955 se assemelhava de alguma maneira ao de possuir um produto Apple hoje?), mas também à visão do design além dos artefatos: design em nível estratégico, fazendo parte da gestão política e cultural da organização.[1] Neste sentido, a Apple usa o design constantemente como ferramenta para manipular seus consumidores, enquanto a Braun preferia aplicá-lo cuidadosamente em relacionamentos de longo termo entre os usuários e seus produtos. Citando Rams uma última vez: “Design espetacular mas carente de substância é fácil de fazer, mas tem vida curta e não faz sentido.”

P.S: As diversas referências deste texto foram propositalmente inseridas como notas de rodapé ao invés de hiperlinks, para tentar minimizar a dispersão durante a leitura. Um estudo de 2005 publicado pela universidade canadense de Carleton concluiu que a demanda crescente de tomar decisões com o hipertexto prejudica a compreensão do texto, como mostra esta reportagem. Opiniões são bem-vindas.

 

iDiots

Bônus

Este excelente vídeo da empresa de efeitos especiais Big Lazy Robot, além de muito bem executado, explora não somente a irritante obsolescência programada mas também nossa relação com as redes sociais e a tecnologia. Crítica em forma de humor.

 

Referências

 

Guilherme Webster

Guilherme Webster

Se interessa por tantos assuntos que prefere nem listar. É bacharel em Design pela UFRGS, trabalha (e sofre) há mais de uma década projetando produtos diversos e eventualmente escreve algum texto a respeito.

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