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E veja ‘Modos de Ver’

Por Dario Jofilly

Basicamente é isso, veja a série, leia o livro, seja feliz, pronto.

Mas, para aqueles que nunca ouviram falar desse trabalho ou que precisa de mais pra ser convencido, bem, estou aqui pra isso!

Convenhamos, isso parece divertido [1]  [1] Convenhamos, isso parece divertido [1][/caption]“Modos de Ver” foi lançado em 1972 por John Berger, crítico de arte britânico irreverente e, claramente, de esquerda, tanto como uma série pela BBC, quanto como um livro, tendo ambos um grande sucesso. Inclusive, se quiser chamar isso de “um case de transmedia storytelling” fique a vontade, não estamos aqui pra criticar estrangerismos desnecessários de ninguém. Mas a questão é que em ambos os projetos, Berger e sua equipe usam da tradição de pintura européia para nos fazer pensar sobre a maneira como vemos e lidamos com imagens. A forma como elas carregam um discurso ideológico também é relevante para ele, e para nós, enquanto designers que precisamos pensar e entender os processos de interpretação visual.

“A vista chega antes das palavras. A criança olha e vê antes de falar”

A série foi veiculada pela BBC com quatro episódios e hoje o material pode ser facilmente visto no YouTube, mas, até onde encontrei, apenas com legendas em inglês (links lá embaixo pessoal). Já o livro possui sete ensaios, tendo quatro dos ensaios os mesmos temas e construções lógicas da série, com mais aprofundamento teórico mas com a mesma irreverência. É um texto de leitura agradável e fluída especialmente aos interessados em, como citamos, questões ideológicas e imagéticas. Os outros três ensaios, no entanto, valem uma menção especial, já que são de uma leitura ainda mais interessante por não terem nada escrito neles.

2._sem legenda_

São três capítulos inteiramente compostos por imagens e cuja leitura desafia a clássica noção de que ideias só são transmitidas por palavras. A sequência e seleção de imagens que Berger nos traz é muito elucidativa pra entendermos, de uma outra maneira, os argumentos que ele nos apresenta e também tantas outras ideias que praticamente só poderiam ser apresentadas através de imagens.

Crítica de arte e uma dúzia de crianças [2] Crítica de arte e uma dúzia de crianças [2][/caption]
Ao longo das duas obras, Berger nos coloca muitas questões para repensarmos a relação que criamos com as imagens e, para isso, ele relaciona alguns conceitos e autores aos seus exemplos de análise. Partindo das ideias de Walter Benjamin sobre a reprodutibilidade técnica e obras de arte com questões políticas e históricas, ele também coloca a publicidade em questão ao pensa-la criticamente. Já ao discutir a maneira como a pintura a óleo representou um importante papel nas relações de poder e de posse, ele relaciona isso à maneira como a mulher foi historicamente representada sob e para o olhar masculino.

“Esta nudez não é todavia uma expressão dos seus próprios sentimentos; é um sinal da sua submissão aos sentimentos e exigências do proprietário (de ambas: tela e modelo). O quadro, quando o rei o mostrava, era uma prova dessa submissão e os convidados invejavam-no.”

Em fato, a questão da posse e do papel passivo ao qual a mulher é subjugada é ampla e profundamente explorada nessa obra de Berger. Aqui vale então um paralelo com a crítica feita pelo coletivo Guerrilla Girls ao Metropolitan Museum of Art de Nova York em 1989. O poster faz referência à relação da porcentagem de artistas mulheres expostas e da de nus femininos em sua coleção. Mais sobre as Guerrilla Girls e o debate político e cultural por elas levantado pode, e deve, ser conferido aqui no artigo de Ana Carolina Lima Correa e Emerson Dionísio Gomes de Oliveira.

Um outdoor pra, no mínimo, te fazer pensar

Um outdoor pra, no mínimo, te fazer pensar

Além disso, encontrei nos confins da internet o projeto Ways of Seeing Ways of Seeing do designer Brian Heffernan. Neste, o britânico cria uma série de pôsteres a partir da linguagem visual utilizada no livro de forma bastante interessante e que também vale uma conferida.

Pontuação do livro isolada

Pontuação do livro isolada

Apesar das possíveis críticas a sua obra, às suas tendências políticas ou a sua datação, essa dupla dinâmica documentário-livro ainda é uma das mais populares introduções à crítica de arte e ainda tem muito valor no estudo da comunicação visual. Mas, se eu não te convenci até agora a conferir esse material, por favor, repare nessa camisa que o Berger usa no documentário e se divirta com tudo o que o vestuário da década de 70 ainda pode nos proporcionar.

Abra seus olhos, seja cético [3]

Abra seus olhos, seja cético [3]

Referências:

 

[1] Esse é o primeiro de quatro programas nos quais eu quero questionar algumas dos presupostos geralmente feitos sobre a tradição da pintura européia. Essa tradição, que nasceu por volta de 1400, morreu por volta de 1900. Hoje à noite, não é tanto sobre as próprias pinturas que eu quero considerar, mas da forma que nós as vemos.

Tradução livre de: This is the first of four programmes in which I want to question some of the assumptions usually made about the tradition of European painting. That tradition which was born about 1400, died about 1900. Tonight, it isn’t so much the paintings themselves which I want to consider, as the way we now see them.

[2] Porque eles estavam realmente olhando e realmente relacionando o que eles viam com suas próprias experiências, eles reconheceram algo que a maioria dos adultos não iriam.

Tradução livre de: Because they were really looking and really relating what they saw to their own experience, they recognised something that must adults wouldn’t.

[3] Mas lembre-se que eu estou controlando e usando para os meus propósitos os meios de reprodução necessários para estes programas. As imagens podem parecem palavras mas não há um diálogo ainda. Você não pode responder a mim. Para isso se tornar possível nos meios de comunicação modernos, o acesso à televisão precisa ser estentido para além dos seus atuais estreitos limites. Enquanto isso, com esse programa, como com todos os programas, você recebe imagens e significados que são arranjados. Eu espero que você considere o que eu arranjei, mas seja cético em relação a isso.

Tradução livre de: But remember that I am controlling and using for my own purposes the means of reproduction needed for these programmes. The images may be like words but there is no dialogue yet. You [pointing at the viewer] cannot reply to me. For that to become possible in the modern media of communication access to television must be extended beyond its present narrow limits. Meanwhile, with this programme, as with all programmes, you receive images and meanings which are arranged. I hope you will consider what I arrange, but be sceptical of it.

Dario Jofilly

Dario Jofilly

Quase se formando em (quem diria?) Publicidade e Propaganda pelo curso de Comunicação Social da UnB, se pergunta como vai conseguir sobreviver e continuar estudando design, arte e imagem. Enquanto isso, aproveita a experiência única que é viver em Brasília.

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