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Independência ou morte!

Por Paula Cruz

Isto é um manifesto. Uma carta de amor. Uma convocatória. É tudo isto junto e mais um pouco. Simplesmente porque certas coisas precisam ser afirmadas categoricamente de vez em quando. É o que farei em plenos pulmões com convicção de punho de ferro: o futuro é independente.

Peraí, cuméqueé? Independente como? Você está falando exatamente do quê? Estou falando de um mar de possibilidades, já que o mercado independente é vasto. Podemos falar de self publishing em música, saraus, literatura, videogames, design, tudo. Há espaço para todos e para tudo que é empreitada. Você está visitando/lendo uma delas agora, não é mesmo?

Começando do básico: uma produção independente é um projeto desenvolvido com mais de uma cópia para um público específico  pequeno ou grande, local ou internacional. Produzir apenas uma peça única não é exatamente publicar, já que a ideia básica é espalhar histórias por aí, ou seja, comunicar-se com outras pessoas a partir de uma ideia. Pode-se dizer, por exemplo, que uma tiragem de 15 livros produzidos artesanalmente e entregues aos seus amigos é uma forma de publicação independente com distribuição informal em pequena escala.

Com a internet tornou-se ainda mais fácil integrar-se ao mercado autônomo, já que a distribuição não tem custo e a dispersão de informação na web acontece em segundos. O potencial de um material distribuído numa rede mundial de conexões é praticamente infinito. Se antes algumas bandas e cantores trilharam seu caminho pelo (já falecido e talvez reencarnado das cinzas) MySpace, agora engenheiros, autores, quadrinistas e designers produzem os mais variados projetos via financiamento coletivo — a famosa vaquinha servindo a todos nós com propostas cada vez mais inovadoras. 

Dont believe the hype! Em meados de 2003, o Arctic Monkeys tinha como costume gravar CDS com suas demos e distribuí-los ao público presente em shows. era lançado via MySpace num perfil criado por fãs. Como eram poucos cds para vários fãs, as músicas foram disponibilizadas na Internet, via MySpace, numa grande divulgação viral. Quem diria que este seria o começo dos famosos macacos do ártico?

A grande vantagem disso tudo é a quebra do ciclo de produção oficial oferecida por grandes empresas. Além de oferecer mais liberdade aos autores, produzir de forma independente é uma forma de buscar novas temáticas e descobrir públicos em potencial. A elitização da produção intelectual torna-se mais amena quando pessoas como eu e você decidimos mostrar com quantos paus se faz uma canoa. Podemos criar livros para nichos específicos, protestos políticos em zines, documentários sobre conscientização de minorias. Existem ainda empreendimentos tão avant-garde que não há investidor que compreenda o projeto, restando apenas ao próprio autor dar início à empreitada. Desta maneira, as iniciativas independentes abalam a mesmice feita nos grandes negócios, pois não têm medo de ser.

Movimento Riot Grrrl e as zines | Feitas por uma grande variedade de artistas nos anos 70, as zines são publicações baratas feitas em máquinas de xerox. As mulheres são as principais autores do movimento das zines, que propagavam opiniões políticas e artísticas, tais como o feminismo e a música punk. Da esquerda para direita: duas primeiras zines feitas por Kathleen Hanna, Tobi Vail, Kathi Wilcox.  Última zine feita por Molly Neuman e Allison Wolfe.

Movimento Riot Grrrl e as zines | Feitas por uma grande variedade de artistas nos anos 70, as zines são publicações baratas feitas em máquinas de xerox. As mulheres são as principais autoras das zines nesta época, que propagavam opiniões políticas e artísticas, tais como o feminismo e a música punk. Da esquerda para direita: duas primeiras zines feitas por Kathleen Hanna, Tobi Vail, Kathi Wilcox. Última zine feita por Molly Neuman e Allison Wolfe.

Produzir independentemente requer coragem e é arriscado. É o que torna tudo tão emocionante. Os autores acreditam tanto no que têm a dizer que investem tempo, dinheiro, vontade e noites de sono por causa de um projeto. Para muitos esta é uma oportunidade de se fazer ouvir, já que o caminho convencional inclui todo um esquema a ser percorrido, como possuir uma rede de contatos, ter reputação no mercado ou até mesmo ter um agente. Outros autores se auto publicam porque preferem ter o controle total do projeto, desde design e conteúdo até distribuição e contato com público. Este costuma ser até mesmo o começo de algumas editoras e gravadoras.

A Bolha | Editora especializada em narrativas visuais, a Bolha percorre as ruas cariocas num carrinho de sorvete vendendo livros e quadrinhos. É o tipo de iniciativa inusitada que faz parte do ramo independente.

A Bolha | Editora especializada em narrativas visuais, a Bolha percorre as ruas cariocas num carrinho de sorvete vendendo livros e quadrinhos. É o tipo de iniciativa inusitada que faz parte do ramo independente.

Acredito no mundo independente porque penso que todos nós temos histórias para contar. Estas são narrativas que merecem ser ouvidas, ideias que devem ser espalhadas. Ter a oportunidade de contá-las é essencial e, se o mercado convencional não colaborar, devemos procurar novos percursos. A independência é um deles.

Fica aqui o convite.

 

* A imagem desta matéria é de um dos livros da Editora Bolha, “Vá para o Diabo” de Frederico Lamas. As ilustrações vermelhas e azuis transformam-se quando olhadas através do visor vermelho.

Paula Cruz

Paula Cruz

Paula Cruz é carioca e profissional em formação de design na UFRJ. Paralelamente aos estudos, constroi projetos autorais que unem design, texto e pesquisa, tais como livretos, cartazes e contos ilustrados.

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