Notas sobre a mediação oracular

Por Marcos Beccari

“Foi a semelhança que permitiu, há milênios, que a posição dos astros produzisse efeitos sobre a existência humana no instante do nascimento.” – Walter Benjamin, em A doutrina das semelhanças (Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 122).

A princípio, o universo simbólico do homem contemporâneo parece conter muito menos “correspondências mágicas” do que o dos povos antigos. A princípio, sublinho. Porque o esforço fundamental do design em produzir analogias (curtos-circuitos) no fluxo ordinário das coisas – ainda que transitoriamente, para desaparecerem em seguida numa reintegração semântica-cultural – parece não corroborar com uma suposta extinção do pensamento oracular, mas sim com sua possível transformação direcionada a uma função mediadora.

A dimensão mágica ou oracular é aquela que permitia os antigos lerem no céu a posição dos astros e, ao mesmo tempo, as coordenadas do presente e do destino. Não que seja algo efetivamente “mágico” (no sentido de místico ou sobrenatural), mas sim um tipo de leitura mimética a partir do acaso e do transitório – entendendo mimese não como mera imitação, mas como um modo de olhar por analogia, identificação e assimilação. Seja a partir dos astros, das vísceras ou de um baralho, o que importa é o “instante” de nosso nascimento, da carta tirada aleatoriamente ou da disposição gráfica constelada.

Aquilo que hoje chamamos de “clarividência”, portanto, pode ser entendido como uma capacidade de interpretação por analogia em relação àquilo que aparece de modo inevitável e aleatório. É provável que grande parte de nossa força de apreensão mimética já tenha se perdido sem deixar muitos vestígios. A não ser que, com certo esforço analógico, encaremos a própria linguagem como um vestígio vivo do pensamento mágico/oracular.

Basicamente é isso que, no texto de cujo trecho inicia este post, infere Benjamin: “pode-se supor que o dom mimético, outrora fundamento da clarividência, migrou gradativamente, no seu desenvolvimento ao longo dos milênios, para a linguagem e para a escrita, nelas produzindo o mais completo arquivo de semelhanças não-sensíveis” (op. cit., p. 121). Ou seja, a própria linguagem teria se convertido num tipo de oráculo impessoal onde as coisas se encontram e se relacionam por meio de significantes arbitrários (semelhanças não-sensíveis).

Atrevo-me a desdobrar esse raciocínio esboçando três fases do processo oracular-simbólico: (1) a territorialização primordial por meio da relação analógica entre “marcas” e uma estrutura de inscrições afetivo-subjetivas; (2) desterritorialização ou a passagem para a produção virtual de sentido, quando as marcas são dissociadas de suas origens (enunciador e referência); (3) reterritorialização ou quando as marcas, reapropriadas pelo enunciador cujos pensamentos ela agora expressa, ganha novas inscrições semânticas. O espelhamento antropomórfico da arquitetura pré-moderna entre interior e exterior ilustra a territorialização do sentido, passando em seguida pela tríade vitruviana (desterrit.) para culminar na exteriorização do interior da arquitetura moderna (reterrit.).

Alguém poderia arguir, contudo, que tal analogia arquitetural já representa uma falsa referência sobre e para si mesma. Tratar-se-ia então de uma distorção recorrente sobre a leitura oracular: como uma confusa multiplicidade de sensações subjetivas pode instaurar uma realidade objetiva? Distorção porque se opõe a operação oracular a uma operação, digamos, “semiótica” que estaria mais próxima à objetividade das coisas. O mais fácil seria argumentar que a analogia oracular somente é possível a partir de um mundo percebido como objetivo, ao contrário das leituras baseadas em princípios transcendentes de Lógica.

Mais interessante, porém, seria reformularmos a questão por meio do seguinte enunciado: como a analogia primordial surge em sua aparente autonomia? Em A lógica do sentido, Deleuze descreve um tipo de contra-senso necessário à construção do “sentido-acontecimento”: deve haver um significante “vazio” (sem significado) que mantenha em movimento o fluxo de sentido dentro do qual esse mesmo significante apareça erroneamente como efeito/expressão do significado. É como se o “vermelho” nunca tivesse uma relação com a coisa vermelha, mas fosse um tipo de filtro virtual (devir) através do qual a coisa se torne (e signifique) atualmente vermelha.

Em outras palavras, a passagem do campo de potencialidades virtuais a uma realidade atual não reside no acréscimo de alguma substância ou matéria bruta, mas antes no acréscimo de (ou no confronto com) uma relação virtual por meio da qual a realidade atual é “filtrada” para ser reconhecida enquanto tal. A operação analógica-oracular, nesse sentido, parece não somente acrescentar um significante vazio em meio às multiplicidades em potencial (como ocorre na passagem da leitura mimética à interpretação simbólico-linguística). Mais do que isso, ela parece extrair singularidades atuais concedendo relativa autonomia aos processos miméticos (simbólicos e virtuais) tomados como suas “causas reais”.

É neste ponto que devemos retomar o design: a noção moderna de “projeto” nunca foi suficiente para definir o que é design na medida em que, em sua ilusão de criar novas formas para reconfigurar uma realidade atual, ele opera numa lógica oracular de des e re-territorialização dos sentidos atuais. O “design” da água Dom Perrier, por exemplo, não está na água que vem dentro daquela garrafa. Está numa articulação do olhar que enxerga, naquela garrafa, uma maneira especial de se tomar água – mesmo que aquela água tenha saído de uma torneira qualquer.

Em última análise, essa relação água-garrafa é totalmente transitória e aleatória, tal como a semelhança de uma nuvem com a forma de um coelho. Ao mesmo tempo, no entanto, remonta um tipo de mediação ancestral que permanece efetivo e decisivo nos processos comunicacionais. Diria até que se trata de uma mediação que, assim como há milênios atrás, tenta responder a uma pergunta “arqui-mimética” mais fundamental: como nós, humanos, vivenciamos a nós mesmos enquanto marcas de finitude? A diferença é que, além de reconhecermos semelhanças que irrompem do acaso e da brevidade das coisas, também tentamos forjar analogias em potencial – como se encontrássemos todo dia um presente anônimo em nossas gavetas, sem nunca perceber (ou fingindo não perceber) que fomos nós que o colocamos ali.

Stockhome from Riccardo T. Castano on Vimeo.

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

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