Dilemas do Design VII – metalinguagem

Por Marcos Beccari

Temo que, enquanto tivermos gramática, não teremos matado Deus.
– Nietzsche.

Não é novidade a acusação de que a linguagem é o limite do “esclarecimento” moderno. Assim como não é de se espantar que o estruturalismo – corrente filosófica contemporânea segundo a qual a realidade social é estruturada por um conjunto formal de relações – tenha surgido no mesmo país onde foi criada, em 1634 (pelo cardeal Richelieu), uma tal de Academia Francesa, cuja função inicial era conservar e aperfeiçoar a língua local por meio de um procedimento básico e tirânico de eliminar expressões ambíguas.

Mas como não sou afeito à História (ela costuma ser muito irônica), e como esse assunto tem sido debatido ultimamente em certo blog de filosofia do design, detenho-me na pergunta: em que medida a língua torna mais previsível ou mais autônomo o propósito de quem a utiliza? Querendo na verdade saber: como acontece “design” na passagem do pensamento mimético ao conceitual?

Tenho insistido que, sob o viés estritamente comunicacional, não faz sentido entender design apenas como projeto, mas antes como desvio do olhar. Não literalmente com os olhos, “ver” significa desviar afetos associados ao que é visto (às coisas como elas aparecem): o modo como vemos imagens e objetos, o modo como vemos a nós mesmos e o modo como somos vistos articulam possibilidades de sentido que permeiam nossas performances comunicacionais.

De forma ampla, podemos dizer que comunicação é o processo de se compartilhar uma mesma experiência. Em sua origem latina, communicatio significa apenas “comum + ação”; portanto, uma atividade realizada em conjunto. Como já falei em outros momentos, design pode ser entendido como uma estratégia específica para se comunicar. O território no qual a comunicação acontece reside no cruzamento entre enunciados: o significado de um enunciado se altera na medida em que ele altera o significado de outros enunciados.

Uma relação preliminar entre design, comunicação e língua pode ser encontrada, pois, em certas indicações de Saussure a respeito de um processo que parece fugir da dinâmica signo/significante. Saussure se deparou com a possibilidade de algum tipo de metalinguística que acontece dentro da linguagem em vez de ser imposta “de fora” dela, como um imperativo categórico.

Ou seja: assim que a linguagem começa a atuar, ela parece ressoar com uma complexidade autoexpansiva. As gramáticas, neste sentido, não seriam “inatas” ao pensamento, mas funcionariam como “estranhos atratores” cuja atuação é tão elusiva quanto efetiva.  Quase como dizer que a relação entre nossa (suposta) consciência e a língua ocorre de forma “cristalina”: o pensamento aparece como um cristal cujas estruturas internas só se tornam visíveis depois que o cristal se quebra. Saussure não parecia, contudo, estar muito preocupado com essa quebra.

Consequência catastrófica desse desinteresse, me parece, foi a linguística de Chomsky. Partindo da crença numa “gramática universal”, Chomsky tentou salvar a linguagem através da descoberta de “invariáveis ocultas” – tipo esses cientistas que querem salvar a física euclidiana da irracionalidade da mecânica quântica. Resultado: as palavras são como folhas, as frases são como ramos, as famílias de linguagem são como troncos e as raízes estão no “céu” (quer dizer, no DNA). Do mesmo modo, enfim, que seu “anarquismo” mais parece um tipo platônico de sufismo, sua linguística defecou em cima do túmulo de Saussure.

Por outro lado, outros “ares” insistiram naquela quebra do cristal: “o Mapa não é o Território” de Korzybski, os cut-ups e a “ruptura na sala cinzenta” de Burroughs, o ataque de Nietzsche à linguagem como representação e mediação, os quiasmas de Merleau-Ponty, os nós de Flusser como “parto” de realidade etc. Embora fosse mais sensato explicar cada uma dessas abordagens (quem sabe um dia), creio que todas elas movimentam-se em direção contrária a um positivismo linguístico que parte da irredutibilidade de seu objeto de estudo (língua como estrutura de [falsa] totalidade na qual os elementos são variáveis, mas cuja dinâmica permanece a mesma).

Então, já que é pra ser sucinto, digamos assim: a língua é tipo um ritual que opera na tensão entre “identidade” e “diferença”, de onde surge, entre outras bizarrices, a constituição do “eu” como entidade auto-idêntica e não representável. Bizarrice porque toda identidade toma o lugar da diferença, quando na verdade é o processo de diferenciação (“devir” no vocabulário de Deleuze) que faz brotar qualquer tipo de identificação.

Tal como uma assombração, o “propósito” aparece aí simultaneamente como diferença mínima e como identidade imperfeita na passagem do pensamento mimético ao conceitual – efeito ilustrado no Conway’s Game of Life, onde padrões fixos adquirem certa autonomia em um movimento não padronizável. O propósito é aquilo que faz o cristal quebrar. É quando a própria ausência de significado é percebida como acontecimento positivo, quando ainda resta chance e reversibilidade entre o significante e o significado, quando “is the purpose that define us” (Agente Smith, embora eu diria “…that shape us”).

É preciso entender que a mimese não se trata de mera imitação, mas de um modo de pensar por analogia, por identificação e por assimilação. É a luz que atravessa o cristal: na resistência entre sujeito e objeto, a mimese entra como dinâmica de mediação, sem ainda distinguir “projeção” de “reflexão”. Já o pensamento conceitual possui uma tendência de se perder na mediação, de desaparecer com a resistência imediata. O conceito é o cristal em si, como um recalque de seu próprio significado.

Entre a mimese e o conceito, o propósito é aquilo que tenta mediar o imediato. Neste sentido estrito, o design (entendido como desvio do olhar) pode atuar como linguagem do propósito, sobrepondo-se ao mesmo tempo à representação e à mediação. Ele não serve nem para revelar nem para esconder o significado, mas em última instância para (re)inventá-lo.

Por isso não me parece fazer sentido, ao menos sob o viés do design, entender a linguagem como algo “inato”, tampouco como meramente arbitrário. A linguagem é uma arte que não deu certo. Por sua vez, com propósito de “desvio”, o design confunde-se com uma linguagem feita para quebrar e superar a si mesma, isto é, metalinguagem. Um conjunto estruturado de regras que paradoxalmente pode criar liberdade a partir da confusão e da decadência de sua própria tirania semântica. Uma autonomia imprevisível em meio a ações previsíveis.

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

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