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Slow Fashion

Por Henrique Cabral

Eu tenho costume de dizer que as ondas nunca representam exatamente onde o nível do mar se encontra. As ondas nos mostram uma tendência, uma possibilidade de chegar a um lugar com num determinado movimento.

Olhamos ao redor e vemos que a maioria das pessoas compra em grandes lojas de departamentos e as com maior poder aquisitivo consomem marcas nacionais e importadas conhecidas e desejadas unicamente pelo status que essas conferem ao usuário. De qualquer forma, consumimos peças de moda que foram criadas aos milhares, milhões às vezes. O fast fashion desde a década de 90 virou o padrão de consumo de moda do mundo todo.

Porque andar devagar ainda assim é seguir em frente.

Quando observamos esse comportamento de mercado do ponto de vista da massificação, fica fácil entender por que nos filmes futuristas e/ou de ficção científica a maioria das pessoas usa exatamente o mesmo estilo de roupas.

No entanto não podemos esquecer que a moda é feita por pessoas e para pessoas.

Na contramão do consumo de massa, vem crescendo nos últimos anos um movimento que se destaca por conceitos de moda com mais identidade e personalização alinhados à sustentabilidade e reutilização.

O Slow Fashion, termo cunhado pela consultora de Design Sustentável Kate Fletcher em 2008, se refere a esta nova onda de consumo mais lento, onde todo o processo de produção (ou reutilização) remete a uma maior personalização do produto final e uma empatia maior com a consciência do público consumidor.

Ao contrário do que podem pensar, os consumidores conscientes não são hippies saudosistas, embora estes também façam parte deste universo de “slow things”.

Segundo o Instituto AKATU a maior parte das pessoas quando questionadas sobre felicidade atribuem esta ao bem-estar físico e mental do que posses e produtos. Deste ponto de vista fica mais fácil entender o surgimento deste movimento.

Marcas com o conceito de Slow Fashion buscam questões mais profundas na sociedade para reconhecer as chamadas microtendências de comportamento, as mesmas que muitas vezes serão as motrizes das macrotendências, ou seja a crista da onda.

Saber reconhecer que existe um maior número de homens e mulheres que buscam a pratica de esportes como forma de manter a longevidade; que existe um numero crescente de crianças que se descobrem vegetarianas cada vez mais cedo; grupos de pessoas criativas que descobrem formas de trabalhar e sobreviver sem depender de grandes corporações e grupos econômicos; tudo isso é matéria-prima para que marcas encontrem nichos específicos de mercado para atender de forma quase que exclusiva e limitada estes anseios subjetivos da sociedade que podem ser comunicados através de produtos de moda.

Marcas como a Herbivore Clothing que faz roupas com temas vegetarianos com tecido reciclado ou orgânico, a Tom´s que produz alpargatas num processo quase artesanal e que a cada par vendido doa outro para crianças de países pobres são exemplos de marcas com este conceito que cativam e se comunicam facilmente com um público consciente que gosta de se identificar com estas propostas.

Aqui no Brasil, ainda que o termo seja quase desconhecido, podemos encontrar esta cultura quando nos deparamos por exemplo com:

a) Upcycling: que é a reutilização de peças para criação de novos produtos ampliando o tempo de vida de um material.

b) Brechós: que faz a cabeça de muitos hipsters e indies, estilo esse que faz alusão exatamente ao tempo em que os produtos (todos) eram mesmo feitos para durar.

c) Marcas sustentáveis: que se preocupam com toda a cadeia produtiva, do humano ao ambiental. São empresas que prezam pelo “emprego justo” ou mesmo sistemas corporativos de produção, além obviamente manter sob controle a emissão e descarte de resíduos e dar preferência à matérias-prima ecológicas.

Portanto, se você está cansado(a) de olhar ao redor e perceber uma massa de pessoas identificáveis por roupas de marcas internacionais (ou nacionais) conhecidas cuja a mensagem é tão somente a do desejo e busca por adequação e aceitação social, se sua preocupação com o meio ambiente é maior que separar o lixo em orgânico e reciclado, ou se seu engajamento social vai além de reclamações sobre o atual sistema de governo?

Saiba que você pode fazer parte do ciclo virtuoso da economia buscando informações sobre marcas pequenas da sua cidade, ou do seu estado, cujo processo produtivo pode gerar valor para pessoas que você até mesmo conheça. Que as contrapartidas sócio-ambientais propostas por estas empresas podem beneficiar até mesmo o seu bairro e o seu quintal.

Mas não se prenda ao que é local e saiba que, sendo um cidadão do mundo ações em prol de empresas “slow” também geram benefícios globais. De qualquer forma, informe-se, conscientize-se!

 

Glossário:

Fast Fashion: moda rápida, ciclo de aproximadamente 21 dias nos quais mini coleções são substituídas nas araras das lojas para fomentar o consumo baseado no desejo por novidade.

Slow Fashion: sistemas nos quais peças são produzidas dentro de um conceito de sustentabilidade integral (econômica e ambiental) e atemporalidade fazendo com que seu tempo de vida seja mais longo e isto também postergue seu descarte.

Microtendências: movimentos sociais isolados ou reconhecíveis em pequenos grupos ao redor do mundo que sugerem uma possível mudança de visão sobre um determinado assunto, conhecimento ou comportamento.

Macrotendências: grandes movimentos sociais que apontam mudanças de comportamento, hábito e/ou conhecimento.

Ciclo Virtuoso da Economia: ciclo perfeito do processo de produção, comercialização e capitalização de um produto onde todas as partes ganham.

 

Referências:

 

Henrique Cabral

Henrique Cabral

Produtor Executivo e Gráfico de Moda tendo produzido campanhas no Brasil e no Exterior. Acredita que o vestuário é uma das das formas de comunicação não verbal mais fortes da sociedade.

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