A moda e o peso da exclusão

A moda e o peso da exclusão

Por Amanda Prado

Em uma reflexão sobre moda, cultura e historicidade são possíveis identificações de constantes mudanças nos padrões de beleza no decorrer dos séculos. Por conta da impossível desvinculação da vestimenta e do corpo que ela veste, a maneira como a indumentária e o vestuário são apresentados ao longo da história também passam por diversas transformações, sempre sofrendo a influência dos padrões estéticos desejáveis ou rompendo essa idealização.

No século XIV, era comum o isolamento de pessoas que poderiam ser “diferentes” de alguma forma da maioria. Sobre isso, FOUCAULT (2005), descreve que nos séculos XIV e XVII a exclusão de um indivíduo “inadequado” (louco, deficiente, doente, alcóolatra, vadio etc.) era uma prática constante. Tal prática revela certa preocupação da sociedade em “manter” perfis-padrão de sujeitos e “esconder” aqueles cuja aparência, estado mental e conduta moral não comunguem com os valores enaltecidos como belos e ideais.

A esse respeito, é interessante notar que tais práticas perpassam a história e seus contextos socioculturais diversos, alcançando nossos dias sob novos formatos.

Por isso, em relação ao condicionamento da manutenção de certos padrões, temos como reflexo o preconceito, a discriminação e o hábito de julgar e excluir, e dentro dessa temática abrangente, uma questão extremamente pertinente para a moda é a obesidade.

Mesmo que dados acerca do sobrepeso excessivo da população se refiram a questões representativas e preocupantes associadas à saúde, a minha intenção é debater a exclusão de indivíduos “inadequados” perante os valores belos e ideais vigentes.

Deficiências físicas, questões raciais, homofobia, desigualdades socioeconômicas, todas essas formas de discriminação e outras inúmeras coexistem em nossa sociedade, mas sob o viés da moda, é interessante observar que o obeso, além de discriminado por sua condição física, é cobrado para que “se transforme”, e adapte-se aos padrões estéticos. Ou seja, para ele é fornecida uma possibilidade de mudança a qual ele supostamente rejeita.

Sobre a questão da exigência de adaptação e possibilidade de transformar-se em algo novo e “aceitável”, podemos dizer que sob a ótica da moda, todos nós, sem exceção passamos por esse processo. Adaptamo-nos a cada ambiente, e até mesmo podemos nos reinventar com o auxílio da moda.

Porém, a experiência vivenciada por sujeitos obesos é diferente, para eles a moda pode de certa forma decretar a exclusão.

Entendendo que excluídos são todos aqueles rejeitados de nossos mercados materiais ou simbólicos e até mesmo de certos valores, como define WANDERLEY (1999, p.17), podemos considerar que as práticas de exclusão comuns atualmente também podem se manifestar inclusive sob o formato da escassez de produtos.

Assim, mesmo que o excesso de peso seja uma realidade constante e crescente na população, a moda, com todos os seus “privilégios de liberdade” ainda é negada a uma grande fatia do mercado, tratando aqui produtos de moda não só como vestimenta, mas também como qualquer tipo de imagem midiática.

A moda como forma de liberdade ou vilã ditadora?

O padrão estético é ditado por valores socioculturais de uma época, determinando normas e regras do que é certo ou errado, do que é feio ou belo, do que deve ser aceito ou rejeitado pela sociedade. Então, ao tratarmos de padrão estético e moda, estaremos falando de uma dialética de exclusão/inclusão.

Levando em consideração os estudos de CASTILHO e MARTINS, (2005) o corpo constrói significações que deixam apreender e reproduzir sentidos que possibilitam a criação de processos de identidade, especialmente quando o elemento do adorno ou vestuário é colocado sobre este corpo.

Nesse sentido, BAITELLO (2005), é contundente ao apontar que a moda “reafirma a liberdade do homem ao recriar a própria pele, não a primeira dada biologicamente, mas a segunda gerada por sua imaginação e fantasia e tornada real por sua engenhosidade técnica”.

Entendendo a roupa como essa segunda pele, a aparência final do sujeito é composta pela moda, aparência essa, que conta com a liberdade de expressar sentidos e significar.

No entanto, segundo Baudrillard (1991), a aparência é o desejo de mostrar-se similar a um modelo desejável (parecer) e, sobretudo, de manifestar-se diante do outro (aparecer), funcionando como uma camuflagem ou maneira superficial de se apresentar publicamente, parecendo verdadeira ou ocultando a essência do ser sob essa camada externa.

Já para a composição visual da aparência Barthes (2005, p. 268-269) propôs uma divisão da estrutura do vestuário. Para o autor, indumentária corresponde à língua em Saussure: uma realidade institucional, social, independente do indivíduo, da qual ele extrai o que vai vestir.

Já o traje seria a fala em Saussure, pois é uma realidade individual, sendo o ato de “vestir-se”, pelo qual o indivíduo atualiza em si a instituição geral da indumentária.

 Indumentária e traje constituem um todo genérico, o qual é denominado “vestuário”, a linguagem de Saussure.

[…]a relação entre traje e indumentária é uma relação semântica: a significação do vestuário cresce à medida que se passa do traje à indumentária; o traje é debilmente significativo, exprime mais do que notifica; a indumentária, ao contrário, é fortemente significante, constitui uma relação intelectual, notificadora, entre o usuário e seu grupo (BARTHES, 2005, p. 273).

Sobre essa relação fica claro o potencial de comunicação do vestuário, porém se a indumentária pode equivaler à língua, onde o indivíduo extrai o que vai vestir dentre inúmeras possibilidades, se por acaso a linguagem ou o vestuário for limitado de alguma forma, podemos dizer que o conjunto de signos que podem se combinar para veicular uma mensagem também será limitado, o que irá se refletir no ato de vestir-se, ou como no exemplo, “na fala”, prejudicando o potencial de expressão do indivíduo.

Esse fato nos leva a crer que além da imposição corpórea da própria moda, ela de certo modo, tolhe as opções semânticas de quem não se enquadra em seu padrão. Dessa forma, podemos dizer que os obesos sofrem com a limitação do vestuário que se encontra disponível no mercado, ou de símbolos midiáticos com os quais seria possível se identificar, resultando em uma dificuldade em expressar-se através da moda, e até mesmo edificar sua identidade devido a ausência de grupos positivos de associação.

Tendo em vista essas considerações, no âmbito da moda há o isolamento dos obesos no “mundo dos corpos perfeitos”, como se estivessem condenados a viver em um cenário no qual eles não fazem parte.

Contraditoriamente, somos bombardeados com “supostas” soluções para o problema da obesidade.

Alimentos diet, light, intervenções cirúrgicas, ou o consumo de medicamentos que prometem milagres, todos esses fatores nos colocam diante de um fenômeno contemporâneo tratado por LIPOVETSKY, (2007) como o controle do corpo e espoliação, promovido pelo desejo dos indivíduos de ter pleno poder sobre suas vidas, o que paradoxalmente resulta em novas formas de sujeição.

Cabe ressaltar que, assim como as prateleiras hoje estão tomadas de produtos que prometem a manutenção de um corpo esbelto com valores calóricos reduzidos, ou nas bancas há milhões de exemplares com dietas para se chegar ao tão sonhado corpo perfeito, a moda também faz a sua parte.

Dentre inúmeros exemplos recentes, há a explosão do segmento plus size no Brasil, seguido de outros casos, como na Vogue Itália, uma das revistas de moda mais famosa e respeitada do mundo, onde há um espaço denominado Vogue Curve privilegiando as consumidoras de tamanhos maiores, assim como outras revistas:

Curvas estão na moda

Além disso, eventos de moda especializados ocorrem periodicamente voltados a esse “público específico”, como o Fashion Weekend Plus Size:

PSFW 2011: a dúvida é o quão plus size é de fato o plus size.

Conhecida de seus telespectadores, Fabiana Karla dá o exemplo:

Fabiana Karla antes e depois da intervenção cirúrgica.

No meio musical, Adele:

“Adoring Adele” era a chamada da matéria na Revista Vogue britânica que trazia a cantora como capa.

Ou a polêmica Beth Ditto:

“What would Beth Ditto do?”

Assim como inúmeras blogueiras de moda com corpos fora do padrão que presenciam grande sucesso no momento, como Georgina do Cupcake’s Clothes:

“I was amazed to find a place where fat people celebrated their bodies, instead of being ashamed.”

 Ragini, do A Curious Fancy:

“i am fat, fanciful and whimsical.”

Ou a brasileira Juliana Romano do Entre topetes e vinis:

Juliana Romano expõe a melhor maneira de se vestir bem, mesmo para quem não usa manequim 36. Ela é uma das editoras da Revista Gloss, que possui distribuição nacional.

Cada uma com seu estilo e particularidade, porém um estigma em comum: gordas.

Estaríamos presenciando então uma verdadeira quebra de paradigma, ou trata-se apenas de uma lógica de mercado? Essa é uma boa questão a se pensar.

Demonstrando a intrínseca relação entre moda, mídia e sociedade, é interessante observar programas televisivos que comumente já exploram a tragédia alheia transformarem em um verdadeiro espetáculo dramático e triste a vida de pessoas obesas, que ou morrem, ou emagrecem e tem finalmente o seu final feliz. Quem nunca assistiu algo parecido?

O sociólogo francês FISCHLER, (1995) apresenta inúmeros trabalhos acerca de hábitos alimentares, onde aplica o termo “lipofobia”, caracterizando uma sociedade que cria os obesos e não os tolera.

Essa intolerância, ou exclusão pode ser exemplificada em pesquisas, como a de WADDEN e STUNKARD (1985), citada por STENZEL (2003), onde crianças de seis anos de idade que, ao descreverem e definirem crianças obesas usaram adjetivos como preguiçosas, feias, burras, sujas e mentirosas. Já as silhuetas esguias, foram descritas de forma positiva por essas mesmas crianças.

Seria essa pesquisa apenas reflexo da famigerada “sinceridade inocente” característica da infância?

O trabalho da fotógrafa e obesa Haley Mori Scafiero, que em suas fotografias flagrou feições desdenhosas de indivíduos ao seu redor sugere que não:

E ainda nos faz pensar que talvez a sociedade do século XXI, super conectada, informada e descolada, em determinados aspectos não se difira tanto se comparada aos séculos XIV e XVII.

Dada essa diferença entre o que é envolto pelo glamour do marketing e o que é ordinário, percebo que é como se os indivíduos com corpos fora do padrão que aparecem na mídia fossem beatificados, já o sujeito comum, esse é condenado ao exílio, e tem de conviver com o peso da exclusão.

Obviamente há muitas questões envolvidas quando tratamos de obesidade, como as preocupações com a saúde, porém muitos gordinhos e gordinhas se dizem felizes e satisfeitos enquanto outros sofrem com essa condição. A única afirmação possível a esse respeito é que a moda é um agente que indiscutivelmente atua influenciando esse cenário.

E você, deseja emagrecer? Queria ter mais curvas? Músculos talvez?

A moda não só veste o seu corpo. Ela também determina como este protagonista se apresenta, definindo o que somos e devemos ser.

Para saber mais:

  • BAITELLO, Norval. A era da Iconofagia: ensaios de comunicação e cultura. São Paulo: Hackers, 2005.
  • BARTHES, Roland.Imagem e Moda. Trad. Ivone Benedetti. São Paulo: Martins Fontes,2005.
  • BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.
  • CASTILHO, Kathia & MARTINS, Marcelo M. Discursos da Moda: semiótica, design e corpo. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2005.
  • FISCHLER, Claude. Obeso benigno/obeso maligno. In: SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de (org.). Políticas do corpo. São Paulo: Estação Liberdade, 1995, p. 69-80.
  • FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo, Ed. Perspectiva, 2005 (coleção Estudos).
  • STENZEL, Lucia. Obesidade: O peso da exclusão. Porto Alegre: Edipucrs, 2003.
  • WADDEN, T; STUNKARD, J. A. Social and psychological consequences of obesity. annals of international medicine, 103, 6 pt , 1062-7, 1985.
  • WANDERLEY, Mariângela. Refletindo sobre a noção de exclusão. In: SAWAIA, Bader (org.) et al. As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis: Vozes, 1999.
Amanda Prado

Amanda Prado

Vinte e um anos, mineira, viveu no interior do Rio de Janeiro desde sempre até que a partir de 2011 se aventurou a morar em terras paranaenses para estudar Moda na Universidade Estadual de Maringá (UEM), mais especificamente em Cianorte, onde concluiu o curso de Moda em 2015, e não satisfeita, aproveitou a deixa e se formou em 2013 como técnica em vestuário pelo SENAI. Apaixonada por pesquisas acadêmicas, moda e áreas afins, mas acima de tudo consciente da necessidade da fomentação do campo de saber da moda.

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