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#01 A Informação no Transporte Público

Por Maia Amanda

Quem nunca precisou pedir informação no ponto de ônibus? Mesmo aquelas pessoas que possuem veículo próprio algum dia devem ter passado por uma experiência com o sistema de transporte de sua cidade, ou de alguma outra. E quem já conheceu outros países consegue facilmente comparar, consciente e inconscientemente, o transporte de lá com o de cá.

Assim, é possível concluir que o transporte coletivo no Brasil está defasado. Apesar das iniciativas dos governos na busca pela melhoria da qualidade deste serviço, a maior parte destas ações voltam-se ao aprimoramento do sistema operacional e não o informacional. O grande problema é que não adianta resolver um sem resolver o outro.

Problemas operacionais estão normalmente ligados à estrutura das vias de circulação e tráfego, número de veículos disponíveis para efetuar os deslocamentos, infraestrutura, frequência e contratação de funcionários, como motoristas, cobradores, fiscais, entre outros. Problemas informacionais estão relacionados ao entendimento geral do sistema pelo usuário. É uma área mais humana, que está ligada diretamente à compreensão e o uso efetivo deste sistema. Agora uma pergunta: De que adianta o sistema ser rápido e possuir uma boa estrutura de ônibus e vias se ele não oferece as informações necessárias, de forma organizada, para os usuários efetuarem um deslocamento eficiente?

Entendida a importância da informação para o uso de sistemas de transporte, agora vamos compreender como essa informação se organiza e se comporta através de seus elementos. Para realizar um deslocamento são necessários diversos aspectos. Um deles está relacionado às fases de uma jornada de transporte. Outro refere-se aos elementos presentes em cada uma destas fases.

Uma jornada por Transporte Público urbano, operado por ônibus, trem ou metrô, engloba, em geral, as seguintes etapas:

  • Pré-trip: Percurso a pé da origem até o local de embarque. Exige planejamento prévio da viagem antes mesmo de efetuar o deslocamento propriamente dito;
  • On-trip: Quando o usuário acessa o sistema e tem a possibilidade de rastrear seus movimentos para verificar se o deslocamento está sendo realizado conforme o programado. Consiste na entrada no sistema e realização de possíveis baldeações;
  • End-trip: Caminhada do ponto de desembarque até o destino final. É a etapa de pós-uso do sistema.

Jornada de Transporte (por Ruetschi & Timpf, 2005)

Para garantir a qualidade do serviço de transporte prestado é necessário proporcionar aos usuários informações quanto a horários, linhas e percursos do ônibus. “A informação permite às pessoas planejarem e definirem seus deslocamentos e é um importante estágio de promoção do transporte coletivo” (PILON, 2009).

A importância do Sistema de Informação no Transporte Público

Quanto aos elementos de informação presentes em cada fase, têm-se algumas modalidades (Schein, 2003):

  • Rotas: compreendem as linhas e os locais que o sistema cobre;
  • Pontos de parada: são os locais disponíveis para embarque e desembarque de passageiros – ambientes de acesso ao sistema;
  • Terminais: podem ser definidos como o ponto inicial e final do sistema e geralmente, compreende grande número de rotas.

Elementos de informação no transporte – Exemplo: RIT Curitiba

Assim, entende-se que em todas as fases de uma jornada (pré-trip, on-trip e end-trip) é necessário a presença de elementos de comunicação visual para subsidiar o deslocamento dos usuários da rede. O Sistema de Informação Visual aos Usuários deve estar sempre presente para permitir que estes indivíduos (LANZONI; SCARIOT; SPINILLO, 2011):

  • Identifiquem o mobiliário urbano como sendo um ponto de parada;
  • Reconheçam as linhas de ônibus que ali param;
  • Visualizem o trajeto completo de todas as linhas disponíveis a ele naquela parada;
  • Visualizem todos os pontos de parada existentes durante o trajeto das linhas;
  • Reconheçam o destino para sua viagem;
  • Identifiquem o tempo de espera de seu ônibus;
  • Nos destinos, possam informar-se sobre outras linhas disponíveis nas proximidades;
  • Após o embarque em uma linha de ônibus, reavaliem o trajeto que pretende fazer;
  • Monitorem o percurso realizado pelo ônibus, sendo possível identificar se seu ponto de desembarque está próximo ou não;
  • Planejem durante a viagem de ida, sua viagem de volta;
  • Ao desembarcar do ônibus, reconheçam sua localização geográfica na cidade e consigam se deslocar até seu destino final.

Portanto, para que um sistema de informação seja eficaz é necessário a presença de elementos de composição visual, agindo a favor da legibilidade e hierarquia da informação. Procura-se então identificar quais e como estes elementos podem ser encontrados em sistemas de informação em transporte público. A seguir, serão demonstrados exemplos ilustrativos de 05 itens referentes a composição das informações no transporte público coletivo: Organização de Sistemas, Identidade Visual, Cor, Tipografia e Símbolos/Pictogramas (conforme estudos realizados por Amanda Maia e Cristiele Scariot).

  •  ORGANIZAÇÃO DE SISTEMAS: Corresponde em como o sistema é organizado. Pode ser através de zonas (zona central, perimetral…), regiões (Norte, Sul, Leste, Oeste – RMTC Goiânia), por tipo de serviço (alimentador de região, expressos… – RIT Curitiba), por numeração de ruas, bairros e zonas (Transantiago), ou até mesmo por códigos de cores (Buenos Aires).

Organização de Sistemas

  • IDENTIDADE VISUAL: É o que identifica um sistema. Deve ser formada por um conjunto de valores objetivos e subjetivos, que se somam a partir de cada interação entre usuário e serviço. Normalmente é composta por nome, marca, cor, família tipográfica e em alguns casos, elementos auxiliares (como texturas, pictogramas, símbolos etc.).

Identidade Visual de Transporte Público

  • COR: O uso de cores em sinalização tem dois papéis importantes: a criação de identidade para o sistema e suas subdivisões e a setorização e segmentação das informações contidas nas peças desse sistema. Sistemas de informação devem explorar as cores da identidade para criar uma unidade visual da rede de transporte. Um exemplo disso é o Subte em Buenos Aires, que divide as principais linhas em cores distintas e explora essas cores para organizar e auxiliar o usuário na identificação das estações.

Cor no Transporte Público de Buenos Aires

  • TIPOGRAFIA: O objetivo da tipografia é dar ordem estrutural e forma à comunicação impressa. Em uma sinalização para orientação, como em peças gráficas informativas em geral, uma composição tipográfica deve ser legível e envolvente, considerando o contexto em que é lido e os objetivos da sua aplicação. Constantemente utiliza-se a hierarquia para organizar a informação, como por exemplo, o uso de itálico, negrito, diferenciação de formatos, tamanhos e alinhamentos. Nos exemplos a seguir é possível perceber a constante presença de tipos simples, sem serifas e o uso de caixa baixa, que facilitam a leitura das placas. Frutiger e Helvetica são tipos constantemente encontrados em sinalização de transporte.

Tipografia no Transporte Público

  • SÍMBOLOS/PICTOGRAMAS: Símbolos são elementos que substituem as palavras e tem intenção de comunicar (podem ser utilizados sozinhos ou com recurso de legendas). São utilizados para conservar o espaço e porque em algumas situações eles comunicam mais do que as próprias palavras. Em sistemas de sinalização são geralmente simplificados na linguagem de pictogramas, sendo que, para o desenvolvimento deste tipo de material existem algumas padronizações internacionais, como os conjuntos de pictogramas desenvolvidos pela AIGA/DOT, SEGD e ISO.

Pictogramas na Identificação de Pontos de Parada

Neste post não se quis dizer que o Design dos Sistemas de Informação Visual aos Usuários do transporte vistos são adequados ou inadequados, mas que eles apresentam informações suficientes e relevantes para que um indivíduo consiga realizar todo o seu deslocamento de forma eficiente, chegando ao seu destino final sem grandes dificuldades. Além disso, a maioria deles também apresenta Identidade Visual, tratando de seus elementos gráficos de maneira padronizada e integrada.

Alguns estudos também tratam sobre o tema “Informação no Transporte” e analisam mais a fundo esta relação. Este artigo idealizado por estudantes de Design a UFPR trata sobre a demanda de informação dos usuários em transporte público. Neste outro artigo outra são apresentadas algumas soluções para o problema da falta de informação no transporte público de Porto Alegre. Um estudo similar sobre este sistema é exposto neste link e ilustra bem a realidade de diversas cidades brasileiras que apresentam deficiência e escassez de informação em pontos e terminais.

Referências

  • LANZONI, C. ; SCARIOT, C. A. ; SPINILLO, C. G. . O processo de orientação espacial e as necessidades informacionais de um usuário do transporte público. In: 5 CONGIC – Congresso Nacional de Iniciação Científica em Design da Informação, 2011, Florianópolis. 5 Congresso Internacional de Design da Informação, 2011.
  • LANZONI, C. ; SCARIOT, C. A. ; SPINILLO, C. G. . Sistema de informação de transporte público coletivo no Brasil: algumas considerações sobre demanda de informação dos usuários em pontos de parada de ônibus. Infodesign (SBDI. Online), v. 8, p. 54-63, 2011.
  • LARICA, N. J. Design de Transportes: Arte em função da mobilidade. 1a. Edição. Editora 2AB. PUC, Rio de Janeiro, 2003.
  • PILON, José Aguilar. Sistema de Informação ao Usuário do Transporte Coletivo por Ônibus na Cidade de Vitória – ES. UTFPR. Dissertação de Mestrado. UTFPR, Ponta Grossa, 2009.
  • RUETSCHI, Urs-Jakob; TIMPF, Sabine. Modelling Wayfinding in Public Transport: Network Space and Scene Space. Departament of Geography. University of Zurich, 2005.
  • SCHEIN, A.L. Sistema de Informação ao usuário como estratégia de fidelização e atração. Dissertação de Mestrado em Engenharia de Produção. UFRGS, Porto Alegre, 2003.
  • URBS – Urbanização Curitiba S/A. Rede Integrada de Transporte (RIT), 2013. Disponível em: http://www.urbs.curitiba.pr.gov.br/PORTAL/
  • VASCONCELLOS, Eduardo A. Transporte Urbano, espaço e equidade: Análise das Políticas Públicas. 2ª. Edição. Annablume Editora, São Paulo, 2001.

 Para quem quer ler mais

  • FERNANDES, R. G. A. Componentes gráficos para um sistema de informação visual em terminais de integração metrô-ônibus. Dissertação de Mestrado em Transportes. Depto de Engenharia Civil e Ambiental. Universidade de Brasília. Brasília, 2007.
  • LYNCH, Kevin. A imagem da Cidade. Coleção Mundo da Arte. Martins Fontes, São Paulo, 2010.
  • ROBBI, Claudia. Sitema para Visualização de Informações Cartográficas para Planejamento Urbano. Tese de Doutorado em Computação Aplicada. Ministério da Ciência e Tecnologia. INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 2000.
  • SOMMAVILLA, Audrey. PADOVANI, Stephania. Avaliação de mapas de transporte coletivo em terminais urbanos de ônibus da cidade de Curitiba. In: Revista InfoDesign/Revista Brasileira de Design da Informação.  v.06, n. 03, p. 24-37. 2009.
Maia Amanda

Maia Amanda

Atualmente trabalha na Vitao Alimentos como responsável pelo setor de Design e Marketing. Mestre em Design da Informação (UFPR/2013) e formada em Design Visual (ESPM/2010). Intercambista em Lisboa e nos EUA. Em suas experiências,descobriu a paixão pelo estudo da informação e do design aplicado ao transporte público. Mobiliário Urbano, Representação de Mapas, Design Inclusivo, Daltonismo e Estudo da Cor também foram paixões descobertas. Além disso, ama fotografia, cores, viagens, design, grêmio, embalagem e música.

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