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Por um design liberto

Por Rob Batista

O Mercado (sim, com letra maiúscula) precisa de atores para dar corpo à sua encenação teatral, e esses atores são as atividades humanas, as capacidades dos homens. Então ele ensina a essas ‘capacidades’ que sua existência só tem sentido quando elas cumprem tarefas muito específicas a seu favor, as quais devem rigidamente seguir, e sempre ligadas a uma alimentação, manutenção constante dessa mesma ideia. Se as habilidades humanas, como o design, não alimentam essa ilusão, elas falharam no único propósito que justificava sua existência: gerar lucro, criar atrativos à compra, (no fim) legitimar o trabalho assalariado (louvado na sociedade capitalista como um árduo sacrifício a ser recompensado por Deus) e, assim, manter o Mercado vivo.

Portanto, segundo o senso comum, a tarefa maior, intrínseca e primordial do design é responder a perguntas, resolver problemas mercadológicos, porque o Mercado precisa e assim lhe ordenou que fizesse. Logo, o design que não cumpre o seu propósito no mundo, é aleijado, deficiente e deve ser marginalizado, posto à parte antes que contamine o “bom design”, o design obediente.

Nossas habilidades criativas são testadas a todo o momento com o intuito de comprovar a sua lucrabilidade, somos tratados como ratos em laboratório: o rato que sempre cumpre seu magnífico dever científico, reagindo aos objetivos do teste, recebe o alimento; o que não cumpre, não recebe. E para não nos esquecermos de ser eficientes em manter viva essa gloriosa entidade há inúmeros Cannes da vida para dar os louros ao design obediente que cumpre seu propósito: encher de significado aparente coisas tão inúteis que um espelho não enxergaria. Nada contra troféus, mas junte a isso os concursos ridículos e exploratórios que inspiram uma competição violenta por migalhas, o louvor à escravidão do trabalho, reality shows de “comunicação” que tentam nos conformar com a humilhação e faze-la parecer natural, prêmios que tentam fazer parecer intrínseca à nossa atividade a mentira contada de forma tão bonitinha que pareça fofa e digna de ser comprada. Há todo um aparato quase policialesco vigiando o design diuturnamente e o perguntando o que ele está fazendo para alimentar o Mercado.

Se estivesse vivo, Aristóteles poderia nos dizer que em toda nossa história não conseguimos transformar em ato nem dez por cento da potência do design. Aristóteles chamava de potência a capacidade de uma coisa transformar-se em outra por necessidade ou por não poder ser sempre constante, ou seja, continuar a ser o que é sem possibilidade de transformação. O ato era a realização da potência, a potência realizada. Por exemplo, a madeira é um objeto em potência porque ela guarda em si a possibilidade de transformação em várias coisas: cadeira, papel, lápis. Madeira seria o objeto em potência e cadeira seria o objeto em ato.

Se nós pudéssemos seguir esse raciocínio, mas substituindo o objeto primeiro por um processo (o design), e tentássemos explorar todas as inúmeras possibilidades de coisas em que ele pode se transformar, talvez teríamos ideia de como o design está preso, algemado, como um escravo, e de como nós o subestimamos.

O design tem o poder de se transformar em inúmeras coisas, de resultar em ativadores de transformação humana e social. O design é hoje um cidadão exilado, mas um agente social que tem o poder de comunicar ideias de forma a transformar o meio em que está inserido por sua própria presença. Tem o poder de atiçar, movimentar, instigar ao movimento. Ele coloca em um espaço social uma peça que não era própria da composição desse espaço e gera certa desordem, um estranhamento nos seus atores, com o objetivo de fazê-los repensar o próprio espaço e ver que o meio não é imutável, absoluto. Design é uma provocação. É muito difícil pensarmos em todas essas coisas se tivermos em mente o design apenas como ferramenta de contornos totalmente comerciais que nasceu para servir o deus-Mercado da religião capitalista.

Seria revolucionário o mundo projetando um design que não apenas resolve problemas, mas que cria novas realidades, que depois terão seus próprios problemas; um design que não apenas responde, mas oferece questionamentos, seja no sentido mais abstrato ou mais prático, um convite à reflexão do espaço, da sociedade, do próprio homem. Um design social, assumindo de forma autônoma e emancipada seu legítimo poder de inserção nas sociedades, esquecido como ferramenta apenas mercadológica, e lembrado como habilidade humana, capaz de criar espaços transformadores das realidades que nos incomodam. O design aberto, coletivo, colaborativo, desmistificador da ilusão do eu supremo, do super-herói, do criador iluminado e agraciado com o dom divino da criatividade, aberto a ponto de nos mostrar que não somos a fonte do conhecimento e, portanto não somos seus donos, e que o que esse conhecimento faz é passar por nós, não a partir de nós.

É uma abertura e colaboratividade criativa que mata mitos e super-heróis que nos fizeram acreditar que existiam, é o design como a habilidade desafiadora, provocadora de um Prometeu que pega o sagrado fogo divino e o distribui aos homens, desempenhando um papel crucial na história da humanidade.

Como castigo, Prometeu foi condenado a ficar acorrentado a uma rocha por 30.000 anos e a ter seu fígado dilacerado diariamente por uma águia, até ser libertado por Hércules. Bela ilustração para nossa atividade que se alimenta de uma superficial pompa que não serve para muita coisa além de inflar a ilusão de ser um suposto titã do mundo moderno, mesmo acorrentado em grilhões que nos machucam e nos prendem a uma montanha de interesses terceiros e que nos tratam como mero motor mecânico dessa coisa chamada mercado.

Sim, o design pode muito mais. Um design liberto e libertário, aberto, emancipado, entendido como essencial atividade e habilidade humana, pode desestruturar o mundo em que vivemos para mostrar que há alternativas de espaços, de ordens, de formas de vida e viver. Um design como motor humano das transformações sociais, ferramenta social de transformação humana. Um design cidadão, partícipe, intrometido, inquieto e provocador.

Que nos movimentemos à fim de libertar nossas atividades criativas dos grilhões que nos subjugam e nos subestimam. Que saiamos do nosso lugar de conforto nesse sistema que estupra nossa criatividade até se satisfazer por completo, e comecemos a nos mover e a perceber o quanto a vida é vasta, o quanto um design aberto, criativo, emancipado de limitações impostas pode nos revelar que somos capazes de tudo, de construir novos mundos, novas realidades. Isso não é uma negação das possibilidades mercadológicas do design, pelo contrário, é a mostra de que essa é apenas uma entre um milhão de formas de manifestação ou ação dele. Também não é convocação ideológica ou receita religiosa, mas um convite à reflexão.

Design é uma provocação, design é um convite. Um design liberto torna-se emancipador do homem, do espaço e de si mesmo.

Rob Batista

Rob Batista

Rob Batista, aka Robin Hood, é paulista e estudante de Design Digital pela Universidade Anhembi Morumbi. Se encontra (e se perde) em Artes Visuais, Antropologia, Filosofia, Ficção Científica, entre outras coisas, e vê no design o poder de (des)construir o mundo. Suas pesquisas, observações e toda a bobagem que fala são muito menos o desejo de explicar e muito mais a tentativa de entender.

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