Esquecimento como potência da memória

Por Marcos Beccari

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Esquecer não é uma simples força inercial, como creem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido. – Nietzsche, Genealogia da Moral (II, §1).

Esse post é uma compilação dos estudos que tenho feito sobre memória e esquecimento, como parte de um artigo ainda inacabado. Podemos partir da seguinte questão: como o esquecimento é possível senão pelo reconhecimento da coisa esquecida, isto é, pelo indício de uma lembrança não encontrada? Ora, se não houver uma espécie de “notificação” da memória (que anuncie sua falha), não saberíamos que esquecemos. Acontece que tal enunciado, emprestado da retórica de Santo Agostinho, só faz sentido dentro de uma tradição filosófica plantonista segundo a qual memória é conhecimento e que implicitamente sustenta, nos discursos contemporâneos, uma visão localizacionista do cérebro como lugar responsável, dentre outras coisas, pelo armazenamento de memória.

É também no registro de tal visada que se inscreve a recorrente denúncia de que, com as transformações históricas e tecnológicas que permeiam o início do século vigente, tem se instaurado na sociedade um “medo de esquecer” progressivo e generalizado diante do desnível cada vez maior da nossa capacidade de “armazenamento” cerebral em relação à dos computadores. Esse receio não consta apenas em análises sociais recentes, mas especialmente em novas patologias catalogadas, em ampla filmografia contemporânea e mesmo em nossas situações mais triviais – como as numerosas senhas das quais precisamos nos lembrar diariamente parar ter acesso a serviços informatizados.

Retomando a epígrafe deste ensaio, contudo, vemos que Nietzsche já apontava no final do século XIX a dificuldade de exercermos o esquecimento como a mais alta atividade do espírito, como digestão e ruminação de um ressentimento com relação ao incessante e irreversível escoar do tempo. Em direta contramão ao pensamento plantonista, Nietzsche chega a situar o esquecimento como condição da verdade, sendo esta nada mais que uma metáfora cristalizada cuja criação já teria sido esquecida, de onde se presume que a memória só existe pelo esquecimento. Interessa então questionarmos: pode o esquecimento atuar como potência ativa que precede a memória?

Antes de tudo, porém, podemos recorrer a uma terceira visada teórica. A lembrança pura, como mostrava Bergson, não é uma imagem que se forma após a percepção de algum objeto, mas a imagem virtual que coexiste com a percepção atual do objeto – como um tipo de espelho que se apodera do objeto para que este possa ser visto. O presente “que passa”, na concepção bergsoniana, seria um fluxo nunca suficiente para abarcar toda a virtualidade do passado (cujo todo é contraído a cada instante). Os dois aspectos da experiência – a imagem real do presente que passa e a imagem virtual do passado que se conserva – distinguem-se numa atualização cujo limite, entretanto, os mantém indiscerníveis, cada qual mimetizando o papel do outro.

Logo, ao invés de ser “arquivada” de maneira acumulativa no cérebro, a memória é uma fonte virtual inesgotável que, somente se conjugada na limitação de nossa consciência, possibilita a variação de respostas para uma mesma situação ou necessidade, configurando assim a condição para invenção de novas escolhas e horizontes. Ao convocarmos a atualização de uma lembrança dentre um sem-número de outras possíveis, não nos submetemos a uma resposta sempre idêntica para necessidades que se repetem. Neste processo, o esquecimento aparece como chave não apenas para a suspensão interessada de uma memória sempre virtualmente presente, mas antes para a própria experiência do que agora se passa – que, assim, não decorre das coordenadas passadas, mas antes reorganiza o passado a partir de suas próprias coordenadas presentes.

A sucessão dos presentes atuais é apenas a manifestação de alguma coisa mais profunda: a maneira pela qual cada um retoma toda a vida, mas a um nível ou grau diferente do precedente, todos os níveis ou graus coexistindo e se oferecendo à nossa escolha, do fundo de um passado que jamais foi presente. – Gilles Deleuze, Diferença e repetição (Graal, 2006, p. 129).

Em Diferença e repetição, Deleuze nos explica que, se o presente não fosse ao mesmo tempo passado, ele não “passaria nunca”. Tal coexistência se efetua na medida em que todo passado somente é possível com a passagem de um novo presente em relação ao qual ele é agora passado. Noutras palavras, não se pode dizer que o passado “era” ou “não existe mais”, porque ele ainda é, ele insiste em ser, funcionando como fundamento último da passagem temporal.

Neste sentido, a sentença de que o passado jamais foi presente enuncia que, embora o presente envolva a repetição e a coexistência do passado como um todo, cada presente contrai um nível ainda não contraído do passado, reordenando-o em uma contínua passagem ao limite do último nível de contração. Para Deleuze, pois, a memória não está no nível virtual do passado em si, mas, antes, na própria passagem deste nível virtual para a materialidade do presente (que se dá como uma torção virtual do passado). Ou seja, não é apenas que o surgimento do presente se dá com a repetição (sempre diferente) do passado. Sobretudo, é no esquecimento que surge o presente como diferença da memória que, na perspectiva deleuziana, nada mais é que uma tentativa de reconciliação do presente com um tempo que é desde sempre já perdido.

Por isso que, ainda em Diferença e repetição, Deleuze se questiona se a repetição do presente não poderia estar dirigida para o futuro ao invés do passado. Tratar-se-ia de uma forma vazia do tempo, livre dos acontecimentos ou de qualquer reconciliação com aquilo que nele empiricamente se desenrola: a repetição como eterno retorno (nietzschiano) do porvir. Se o eterno retorno é o futuro que somente se afirma excluindo toda identidade, assinalando a morte de Deus tanto quanto a do “eu”, assim como a de toda a coerência do mundo, o que o futuro faz retornar é apenas o novo, o não idêntico, a diferença pura – o esquecimento.

A memória, antes fundamento do tempo, torna-se assim não mais que a deficiência de um presente destinado a apagar-se em um passado que só pressupõe o que nunca foi de fato. Seguindo esse raciocínio, não é certo que o comportamento de “procrastinação” ou desatenção/devaneio, cada vez mais denunciado atualmente, procura profundidade na experiência do presente por meio da superfície do esquecimento? Nem sempre se trata de simular ou de dissimular o mundo vivido; muitas vezes, ao contrário, trata-se de compreender que a consistência do presente reside em sua efemeridade e transitoriedade.

Mesmo um “distúrbio” do esquecimento é capaz de revelar-se, em última instância, como excesso de memória. A síndrome de Capgras, por exemplo, é um tipo de delírio que se caracteriza pela convicção de que um conhecido próximo (normalmente a pessoa amada) foi substituído por um impostor que tem a mesma aparência, voz e modo de agir de seu companheiro verdadeiro, o qual teria desaparecido misteriosamente. O que escapa da explicação neurológica (prosopagnosia, esquecimento do rosto das pessoas) é que não são todas as faces que se conjugam nessa reação paranoica, mas só a de uma única pessoa – precisamente aquela de quem o indivíduo não consegue se esquecer, prendendo-se assim a uma memória ilusória.

Entre a memória e a imaginação, com efeito, o esquecimento desempenha papel fundamental para a experiência de um presente que, por sua vez, não resulta de coordenadas passadas, mas antes inventa um passado a partir de suas próprias coordenadas. Se o presente que vivemos nos parece “de mentira”, é porque nos falta a potência ativa do esquecimento que mantém entrelaçadas a memória e a imaginação na produção da diferença pela repetição.

Finalizo reiterando que este breve ensaio limita-se a um esboço especulativo sobre a possibilidade de o esquecimento, e não a memória, constituir uma forma “positivamente” vazia à priori que torna possível a emancipação – por meio da afirmação do eterno retorno de novas diferenças – de uma vida fadada à repetição de “necessidades” presentes. Sobre a possibilidade, portanto, de conquistar o tempo vivido como um fluxo ininterrupto, imprimindo nele o esquecimento do que se passou, isto é, aquilo que, na duração de nossa existência, provoca a diferença de sermos sempre um “outro” na repetição de um mesmo “eu”.

Blessed are the forgetful, for they get the better even of their blunders. – Charlie Kaufman, Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004).

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

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