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White Rabbit & Araçá Azul

Por Carlos Bauer

Lembrado pela MTV apenas como poeta integrante da patota tropicalista que fez algum barulho em terras brasileiras no final dos anos 60, Rogério Duarte nega ter sido tradutor visual do movimento, e sim um de seus autores. Trocando de hemisfério: além de integrar a trupe de R. Crumb na lendária produção de quadrinhos underground e desbundados, Victor Moscoso registrou um belo capítulo na criação da iconografia visual do ácido e vertiginoso rock and roll concentrado na São Francisco de 1967.

Cartaz do Blues Project, de Moscoso; capa de Caetano Veloso (1968), de Duarte

Para além do portfolio, Duarte estudou na Escola de Belas Artes, Escolinha de Artes do Brasil e no MAM, no RJ, onde foi aluno de Otl Aicher e Alexandre Wollner (altos modernismos); em 61, integrou a equipe de Aloísio Magalhães. Moscoso (que na verdade nasceu na Espanha) passou pela Cooper Union – NY, e pela Universidade de Yale onde teve aula com Joseph Albers (aquele da Bauhaus). Admirador de Paul Rand, chegou a ganhar um prêmio por projetar um alfabeto romano baseado nas inscrições da coluna de Trajano.

“Quando a gente começa a estudar profundamente uma coisa e refletir sobre ela, só assim a gente pode estabelecer uma ruptura. Qualquer ruptura baseada no desconhecimento é uma pseudo-ruptura, entendeu?” – explica Duarte para Rodrigues¹.

Sincronicamente à revisão de valores da época, ambos os designers tomaram seus próprios rumos.

Cartaz do Avalon Ballroom, de Moscoso; capa de Gilberto Gil (1968), de Duarte

Em São Francisco de 67, a contracultura culmina no movimento hippie e, como explica Heller², Moscoso ajuda a entornar o caldo, fazendo pelo design gráfico o que Grateful Dead, Jefferson Airplane e Big Brother and the Holding Company fizeram pelo rock. Novos timbres ácidos da juventude se materializam em seus cartazes: a negação do estilo de vida regrado & falta de legibilidade; a intensidade da vida, os alucinógenos & as cores gritantes; o contato com a natureza & a releitura do Art Nouveau; a influência do blues tradicional & os tipos vitorianos (desenhado a partir da contraforma, reformulados); o misticismo indiano, cítaras no rock & a reciclagem de imagens vintage. Uma coisa leva a outra.

Cartaz do The Chambers Bros, de Mosoco; cartaz de Deus e o Diabo da Terra do Sol, de Duarte

Do internacional com o regional, do erudito com o popular, surge do lado de cá a Tropicália anunciada pelos intrigantes primeiros discos de Gil, Caetano, Gal e Mutantes(sem esquecer o outro Rogério, o Duprat). Duarte incorpora em capas e cartazes os valores de forma semelhante: o Pop da Art Pop, nas retículas aparentes, & do popular brasileiro, vernacular como a moda de viola; a discussão entre arcaico e moderno, tipos desenhados à mão e Helvetica; a irreverência e as alegorias no contorno à censura; a agressividade das guitarras elétricas sobrepostas ao violãozinho bossa nova & layers de informação; as novas métricas dos arranjos & capas que vão além de mostrar a fotografia do artista. Etc, etc.

Diferentes mas paralelos, dá pra ver alguma coisa em comum. A apropriação de imagens e o desenho manual de letras está no Blues Project e na capa de Caetano Veloso (1968). Alegorias e ironias juntamente com padrões Op Art marcam a capa de Gilberto Gil (1968) e o cartaz do Avalon Ballroom. The Chambers Bros e Deus e o Diabo partem da acentuação da expressividade da fotografia com intervenções gráficas, em composições rígidas e sintéticas. Tanto em Meteorango Kid como em Sphinx Dance, o desenho das letras se integra e completa a ilustração.

Cartaz do Sphinx Dance, de Moscoso; cartaz Meteorango Kid, de Duarte

Mais que saudosismo ou referência estética, o joia desses trabalhos é sacar como as propostas estão envolvidas com seu entorno. Elementos culturais se tornam visuais (que se tornam culturais…), penetram a estrutura geral da peça ou mesmo sua técnica de produção. Duarte lembra:

“Design não é um trabalho aleatório, é um trabalho de comunicação”.

E comunicação é diálogo. E não há um modo correto/único de se fazer isso. Moscoso inventou o próprio:

“Quanto tempo você consegue envolver o observador na leitura do pôster? Cinco, dez, vinte minutos?”.

Pelo menos foi assim que eu entendi.

Referências:
1 RODRIGUES, Jorge Caê. Anos Fatais: design, música e Tropicalismo. Rio de Janeiro: 2AB, Novas Idéias, 2007.

2 HELLER, Steven. Linguagens do design: compreendendo o design gráfico. Tradução: Juliana Saad. ed. rev. ajustada. São Paulo: Edições Rosari, 2009.

Agradecimento ao Nicholas Pierre pelos toques sobre o texto.

Carlos Bauer

Carlos Bauer

Recém-formado em Design (UTFPR) gosta de design que só vendo. Hoje atua como designer gráfico na Feel the Future e investiga as relações de design e linguagem.

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