O deserto de areia de uma ampulheta rachada

Por Marcos Beccari

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O homem é um ator com uma única fala, que sobe ao palco, gagueja e se cala para sempre. – Shakespeare, Macbeth.

Afonso tinha insônia. Só conseguia dormir quando tomava um remédio que o fazia perder a memória. Afonso teve que escolher entre viver sem lembranças ou morrer de insônia crônica. Aos poucos, com remédio ou sem remédio, a duração das coisas não faria mais sentido para ele. Então decidiu passar o tempo só escrevendo. Por meio de inúmeros diários, Afonso anotava suas experiências cotidianas, ideias e lembretes, principalmente com relação à métrica do tempo que se passa no decorrer do desgaste acelerado de sua memória.

  • Tudo o que a lembrança não é, ela se torna. Ou poderia se tornar, pois só temos uma pequena grande memória para cada grande pequena escolha, decidida em até uma vida inteira e com no máximo uma única morte. Uma única tentativa. Por que esse limite? Talvez porque tudo tenha que ter um limite. Ou porque tudo precisa de duração para que simplesmente seja lembrado. O esquecimento sim, sem limites. Ou com o único limite que todos somos. Olhe para alguém, o critique, faça seu julgamento e então dê outro rumo para sua vida… ou esqueça tudo isso. E assim, somente assim, conhecemos os limites.

Ocorre que, ao reler o que havia escrito, Afonso percebia que estava prestes a reescrever a mesma coisa. Só que lhe era impossível recuperar o pensamento anterior que o levara a esta ou aquela ideia. Assim, começou a escrever somente para preencher a lacuna do que já havia escrito, tentando transpor sua incapacidade mnemônica a um obstáculo externo passível de ser superado. Por exemplo, ele sabia que havia algo pior que a morte, mas quase nunca se lembrava do quê. Embora deveras indesejada, sabia que a morte é o fim de todos os tormentos, angústias e esquecimentos. Por este caminho, constatava a consciência de que estava vivo. Era isso. O espanto de se descobrir existindo, por mero acaso. Quanto ao resto, tentativas de apaziguar a falta de sentido de estar vivo.

  • Se soubéssemos como recuperar e mapear tudo que já vivemos, pensamos e imaginamos, saberíamos como preencher o que ficou incompleto? Conseguiríamos responder nossas antigas questões? Qual é o sentido de recuperar uma ideia, um pensamento e um sentimento e ser incapaz de reconhecê-los quando recuperados? Barthes parecia acreditar que tudo faz sentido ou que nada faz. Não havia meio termo. Mas eu só tenho o meio termo: grito e não escuto o que estou gritando. O espaço de minha escolha limita-se à repetição de um mesmo silêncio, tão desconhecido quanto alentador.

Um dia Afonso teve uma ideia que, diferente de todas as outras, não lhe escapava de vista – perdurava feito um mantra, um refrão, uma imagem congelada. Nada muito inusitado: queria apenas ter acesso a um lugar onde pudesse pensar e dormir sem que o tempo passasse. Desejo de permanência, de duração, de perpetuação do que é e do que ainda poderia ser vivido. Uma porta que o levasse a algum lugar que não existe, um lugar que não ocupasse lugar no tempo nem no espaço. Na verdade, um lugar que fosse todo o tempo e espaço do mundo, em combinações randômicas de possibilidades entrelaçadas a cada nanossegundo. E que, ao mesmo tempo, pudesse ser testemunhado por outras pessoas – mas que diferença isso faria?

  • O olhar do outro é sempre posto em termos de promessa. Os significados, desejos e sentimentos nunca se resguardam da interpretação de outrem, e assim se processam as relações, nas sombras do desejo do outro. Anotei em algum lugar que estou comprometido. Em outro, que compromisso significa caminhar junto a uma promessa. Mas o que me sobra é apenas aquela colcha de rostos anônimos na internet. Minha referência são suas expressões. Fico observando, tentando lembrar quem são aquelas pessoas e especulando o que há por trás dos rostos. Talvez outras promessas.

Imagens que remetem a si mesmas, reconfigurando-se noutras imagens, era tudo o que Afonso possuía. O caráter vão de sua memória, que não refletia senão meras anotações, revelava um nada que já estava ali, constatado. Mas as imagens não se dissolviam, pelo contrário, desdobravam-se em estado de surpresa, de novidade, como se durassem para sempre. Uma receita assim se esboçava: uma memória volátil e precária, mas movimentada por imagens, podia ser capaz de gerar o seu contrário. Uma espécie de espaço fora do espaço, mais de proteção do que de escapatória. Preservação daquilo que havia de mais frágil nos instantes que se enevoam aos olhos de Afonso.

  • Como seria se já não mais devêssemos morrer como Karenina, Bovary ou Hamlet? Não mais como uma pedra que se deixa e quer quebrar, como os velhos poemas de Rimbaud ou Baudelaire, que permanecem novos por sacrificarem sílabas em favor da beleza de alguma coisa jamais vista ou recuperada. Como o gosto do primeiro café do dia misturado com o da pasta de dente. Como um déjà vu de algo que sabemos que não aconteceu, mas que estava para não acontecer. Desapareceriam os temores pelo cadáver ultrajado? Nenhum outro, nenhum eu, mas um pathos impessoal: a paixão pela necessária repetição do hoje em nome da diferença entre o ontem e o amanhã.

Ele chamou sua descoberta de “a terra do nunca”. A princípio, o vazio daquele lugar incomodava Afonso, impedindo-o de permanecer ali por muito tempo. Era preciso criar algum sentido e acreditar nesse sentido como verdadeiro, estável, ter certeza sobre aquilo que crê. Após várias noites em claro, Afonso chegou a um veredicto: curto-circuito que se estabelece entre a consciência do fim e o desejo de que essa mesma consciência não tenha fim. Esta consciência que atina para o nada (que era antes de nascer e para o nada que a espera) finalmente via, desviando-se da insônia, uma possibilidade de aderir ao presente que tem.

  • É dos encontros que se estabelecem as convenções ou é das convenções que se estabelecem os encontros? Um encontro é ao acaso na medida em que a chance de que ele aconteça não é afetada pelo fato de ele já ter acontecido ou não. Mas sem a estabilidade relativa das convenções, um encontro nem se deixaria notar. Um encontro é menos verdadeiro quando é inventado ou quando nem é notado? Assim como nós, tudo o que encontramos tende a acabar, mas os padrões que criamos às vezes seguem adiante.

Restava-lhe então transportar à terra do nunca os poucos sonhos e desejos que restavam em sua memória debilitada, incluindo paisagens, sensações, sentimentos e até pessoas. Tomava de empréstimo personagens e cenários que ali podiam ser lidos e reconstruídos sem pressa alguma. Acostumando-se cada vez mais àquele lugar e com todo o tempo do mundo nas mãos, não tinha mais necessidade de escrever diários, muito menos de dormir ou tomar remédio para isso. Tudo podia ser feito ali, e era apenas disso que precisava se lembrar.

  • Há sonhos trancafiados entre memórias, ávidos de desejos reprimidos, avessos a disciplinas e esquemas abstratos. Deles guardamos a silhueta do oscilante, do improvisado, protestando contra a vergonha de se repetir. Há sonhos que partiram com o tempo e dos quais resta apenas uma imagem ou uma voz imprecisa, retida num olhar à espera de uma gota de suor frente a uma reação inesperada, sem intenções prévias, revestida de fugacidades. É somente nessa fração de segundo, como dizia Galeano, que somos parte de outro alguém, aquele alguém que nos sonha.

De um dia para outro, Afonso tornou-se profeta: produzia e refinava incontáveis ideias “por segundo”. Não havia como disputar a “verdade” de alguém que possuía simplesmente todo o tempo do mundo. Enterrado na permutação frenética de novos anseios e ambições, Afonso voltava à realidade ordinária e nela permanecia, segundo seus próprios cálculos, a cada “quinze anos por dia”. E ao contrário do que temia, ele nunca se cansava de passar uma eternidade observando as pessoas que já desejou conhecer ou ser um dia, lá onde projeções de partículas mortas movimentam sentimentos vivos que sublimam em areia líquida uma memória volátil. Pelos cantos dos jardins e terraços, antigos amigos, inimigos, paixões e desilusões se expandiam, se contraíam, respiravam, caminhavam livres e logo desapareciam. Enquanto caminhava, sentia-se mais próximo de um “mundo” na medida em que o cultivava. Um mundo que, acreditava Afonso, cedo ou tarde fundir-se-ia com seus sonhos.

  • A única coisa que permanece é a mudança, dizia Heráclito. Mas se a mudança “permanece”, não poderá jamais mudar essa permanência que a circunscreve. Onde estaria então a oposição a Parmênides, ao sonho do fim, ao apego pelo imutável? Se ainda impomos uma distância segura entre os contrários, é porque certas contradições nunca mudam. Eu disse que estava bem, por exemplo, quando aquela mulher me ligou. “Não me interessa”, ela respondeu, “sou uma das poucas pessoas que ainda se preocupam contigo e você nem lembra que eu existo”. Ela tem razão, eu não lembro. Nada há de ser restaurado, restabelecido, restituído. Um mesmo delírio, contudo, está sempre prestes a ser recomeçado.

Quanto mais trabalhava, todavia, mais Afonso se confundia em relação a seus próprios pensamentos. Alguns de seus aforismos não eram mais decifráveis nem para ele mesmo, mas insistia em desdobrá-los, numa estranha procissão a caminho do nada. Pois o nada reaparecia, ainda que às escondidas, no movimento pendular de pensamentos dispersos. Às vezes Afonso se lembrava de um falecido amigo que sempre lhe dizia: tudo tem um significado, até mesmo aquilo que não significa nada. Outras vezes, conversava com uma senhora cega que falava o contrário: não há significado algum, há somente a ilusão de sentido que nasce da vertigem da falta de sentido. Afonso não via contradição entre ambos. Queria ainda poder escolher.

  • É isso o que as pessoas querem: descobrir algo diferente do que já foi vivido, ter a sensação de fazer algo difícil, de superar medos, de enganar o sistema. Difícil é saber o que fazer com isso. Meus sonhos agora possuem uma existência própria, independente da minha. Penso numa mãe acalmando o seu bebê, satisfeita com a incerteza do amanhã. Penso nas pessoas que trabalham para depois se embriagarem. Pergunto se elas sabem que estão caminhando para o fim, e por que continuam fazendo isto: vivendo, gritando, se irritando, brincando, esperando alguma coisa. Aliás, por que eu continuo criando coisas e me afetando por elas?

Certa vez, um personagem chamado Brian – o mesmo de A vida de Brian (Monty Python, 1979) – questionou-lhe: por que ainda se esforça em anunciar suas ideias? Ora, respondeu Afonso, para conscientizar a todos que não possuem “todo o tempo do mundo” de suas próprias potencialidades. Sem qualquer dificuldade, mas sabendo que seria inútil, Brian questionou-lhe novamente: mas você já perguntou a essas pessoas que você deseja, com todas as boas intenções, conscientizar, despertar, prescrever suas potencialidades, se elas também querem isso? Com toda a preguiça da vida nos olhos, Afonso respondeu:

  • Eu conheço sua vida, Brian, você não sabe direito o que faz e fala, ainda que tenha certa clareza daquilo que não quer. Assim como no filme, você está perdido no mundo, agora sem uma multidão a te seguir. Veja, todos dizem que não têm tempo, mas às vezes passam semanas sem pensar no tempo que já passou e no que ainda lhes resta. Querem aprender lições dos que já se foram, sabendo que também se vão, confiando que alguma coisa permaneça intacta, em algum lugar. Poucos são os que assumem a potência de não ter escolhido nascer, uma não-escolha que jamais esgota a participação do homem em uma vida que, fadada a deixar de existir, nada significa.

Um tanto confuso com a resposta, Brian insistia em questioná-lo: não participar do mundo, qualquer que seja este mundo, é sempre submissão passiva ou esta decorreria de um pretenso “esclarecimento” que só vê um mesmo nada lá onde poderia haver uma vontade insone? Ligeiramente irritado, Afonso apontou-lhe e disse: todos sabem que seu humor inglês é reativo e cinicamente conservador. Não sou eu que me recuso a participar do mundo, prosseguiu, é você que foge cinicamente do que lhe cabe fazer aqui ou em qualquer lugar. Ainda não convencido, Brian refutou: cinismo não é somente rir do que quer que seja, mas fazê-lo por acreditar que se sabe de algo privilegiado, algo de que ninguém mais sabe. É acreditando nisso que você olha para o mundo ordinário como se ele não soubesse de sua própria beleza.

  • Lembro-me de assistir Monty Python com minha primeira namorada. Era seu aniversário de dezessete anos e o filme nos parecia um fóssil intraduzível. Era o que tinha no hospital. Ela morreu alguns meses depois, quando a quimioterapia começou a escurecer seu rosto. Mas estávamos rindo com o filme, mesmo sem entender qual era a graça. Isto é beleza. Uma boa distração. Distrair-me sem saber do que é que estou me distraindo.

Com semblante de uma sabedoria ancestral, Afonso colocou a mão sobre o ombro de Brian: dizem que Heráclito chorava ao ver os homens guerreando, enquanto Demócrito, ao fazer o mesmo, ria. Eles não viam coisas diferentes, mas também não viam o que o outro via. Então Brian colocou a mão sobre o ombro de Afonso: o que o senhor não quer enxergar, embora já o tenha visto, é que também pode haver riso sem sarcasmo, assim como distanciamento sem esclarecimento. Não me diga, afastou-se Afonso, mas o que há para se ver no humor inglês, em que nada é poupado, nenhuma beleza a ser preservada, nenhuma boa intenção a ser respeitada? O que sobra além de um niilismo estéril segundo o qual nada tem salvação?

  • O que sobra, respondeu-me Brian, é um sorriso diante do absurdo de uma existência ordinária que não pretende se salvar de nada e que, ainda assim (ou talvez por isso mesmo), consegue tempo para fazer nascerem coisas como a ternura e a compaixão. As pessoas continuam sendo só pessoas. Rostos continuam rindo ou chorando diante de outros rostos. Pouco importa o que passou ou o que há por vir. Sempre haverá alguém falando do sério de modo risível ou do engraçado de modo sério, e sempre por cima dos corpos que pavimentam o nosso chão.

Sem ar na garganta, Afonso esboçou um sorriso e logo tossiu para disfarçar. Não queria deixar-se abalar por mais uma de suas projeções. Pensava em mil argumentos, mas as palavras não saíam. Foi quando se deu conta que Brian falava da mesma forma que seu pai, na época em que moravam juntos num apartamento minado de rancores. Era a primeira vez, depois de muito tempo, que Afonso se lembrava do rosto dele. Antes de reconhecer quem é que estava realmente ali, fechou os olhos e agarrou o próprio rosto com tanta força que seus dedos começaram a doer, enquanto ouvia uma voz que era quase a de seu pai, dizendo palavras que eram quase as dele: não há o que preservar, a vida é para se distrair. Hoje você existe, daqui a pouco não mais e nada há de ser feito.

Brian tirou um pequeno frasco do bolso e o entregou a Afonso. Era aquele seu antigo remédio para insônia, que o fazia perder a memória. Ao acordar, ainda se reconhecia no pequeno palco de suas lembranças, um palco que não mais pertencia a ele, mas que o abrigava como “seu”. Um lugar tão desconhecido quanto familiar: aquele mesmo por ele inventado, mas agora sem tempo ou espaço a ser tirado ou acrescentado. Não haveria ali mais nada além de uma reles existência a ser relembrada e esquecida a cada noite de sono, uma vida traduzível somente por um riso absurdo diante do retorno de novos presentes que nunca retornam. Pela primeira vez, nenhuma novidade: o ontem cede lugar ao hoje sem mais se deixar notar.

  • Como as pessoas continuam a acreditar nos sentidos que inventam? O tecido do ontem-hoje que lhes dá asas, que os faz rastejar, que os aprisiona e os liberta não é urdido no feixe dos sentidos; desenha-se em segredo para além da prepotência da memória. Uma gota poreja na teia de lembranças e escorre por um fio que rebenta e pende, encostando num outro, antes paralelo àquele. Os acontecimentos que só se encontrariam no infinito tangenciam-se subitamente e, ungidos pelo acaso, redefinem o desenho do entorno. A teia então não mais em teia se resume, mas continua viva porquanto se esquece de si mesma.

Ilustração de Eduardo Souza para este texto.

John Frusciante – Ants (Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt, 1994)

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

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