capa3

Mercado de animação nacional

Por Wagner Regis

No início do mês de Setembro, foi divulgada uma série de produções animadas que farão parte da grade de programação dos canais pagos das TV por assinatura. Devido a uma nova lei, que entrará em vigor esse mês, e até final do ano que vem, todos os canais terão que ter um espaço para produções nacionais, ou seja, se você não sabia se prepare para assistir muito mais do que Mazzaropi e Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Tudo isso é reflexo de uma série de editais que tem gerado incentivo e subsídio para esse nicho, antes tão pouco explorado e específico. E por que isso? Como tudo em nosso país, um dos principais problemas é a tradicional verba, para produzir uma série animada que é algo, infelizmente, caro. Para a produção de uma primeira temporada, os custos podem beirar US$ 6 milhões, conforme dados informados por Eliana Russi, da ABPI-TV (Associação Brasileira de Produtores Independentes da Televisão). Em muitos casos, para obtenção desse valor são realizadas parcerias internacionais. No caso dos desenhos animados Peixonauta, Escola pra Cachorro e Meu Amigãozão, houve um investimento entre R$ 1 milhão a R$ 3,5 milhões, via BNDES. No caso de produções mais recentes, como por exemplo, Tromba Trem (RJ) e Carrapatos e Catapultas (PR), que foram premiados no ANIMATV em 2010, e receberam pouco mais de R$ 900 mil para a produzirem 12 episódios (visto que havia sido fornecido R$110 mil para o episódio-piloto, anteriormente).

Tromba Trem

No entanto podemos perceber que esse quadro, assim mesmo, é resultado tanto de persistência, dedicação e muita paixão por aquilo que se faz. Desse modo, dentre as séries anunciadas, o que podemos esperar delas?

Bom, a produtora TV PinGuim é a principal com 4 projetos de animação engatilhados para entrarem no ar, dentre elas a 2ª temporada do “Peixonauta”, mês que vem pela Discovery Kids: que conta a história de um peixe que vem para a superfície aprender lições sobre a vida e meio ambiente, com seus amigos; “Tarsilinha”, um destaque a ser comentado, que será um longa metragem em 3D, inspirando na artista brasileira Tarsila do Amaral (fãs de História da Arte vibram nessa hora), o filme que participou do BUFF Festival (na Suécia, em março desse ano), foi bastante elogiado e demonstrou interesse dos suecos no nosso mercado promissor. Já “Gemini 8”, que conta a história de um garoto terrestre em um planeta distante, esteve em negociação com SBT e o Cartoon Network, mas ainda está em produção, assim como “Luna Chamando”, um dos selecionados no PRODAV do ano passado, que conta a história de uma menina de 5 anos apaixonada pela ciência e não consegue ir dormir sem ter a resposta de “por que isso acontece”.

Tarsilinha

Já que falamos de 2ª temporada, também teremos novos episódios do “Meu Amigãozão”, da 2DLab, com previsão de estreia para o 2º semestre do ano que vem, na Discovery Kids. Vale lembrar, que a série teve início a partir de um curta, de nome homônimo, que passou por alguns festivais em 2005, que é algo que conversamos semanalmente (nas postagens de Animação para o FDS) sobre a importância, maior, de uma idéia e um roteiro bem estruturado, e o resultado estético sendo uma consequência disso.

Já pelo Copa Studio, do Zé Brandão (que esteve no N Rio, ano passado), teremos o longa metragem baseado na produção seriada “Tromba Trem”, onde um elefante sem memória se encontra perdido no Brasil; e “O Irmão do Jorel” (vencedor do Pitching Cartoon Network, realizado no Fórum Brasil de Televisão, em 2009), em parceria com a Mirabólica, será a primeira produção original do Cartoon Network, produzida na América Latina, com previsão de estréia para o segundo semestre de 2013, onde um garoto que ninguém sabe seu nome, pois seu irão que é famoso, tem cabelos sedosos, popular com as meninas, e mostrando seu dia a dia num bairro suburbano. Espero ansioso por ambos, visto que o Copa não decepcionou em suas produções, que também conta com curtas.

O Irmão do Jorel

Esse ano, o Pitching Cartoon Network, premiou o projeto “Cartoon Job”, do Split Films o qual foi beneficiado com R$ 50 mil para produzir a série e, posteriormente, ser exibida no canal. Os protagonistas são os amigos Marty e Spencer, que mostram os bastidores de um canal de desenho animado.

Cartoon Job

Enquanto temos diversos projetos encaminhados, o 44toons conta com 3 produções em andamento, mas ainda sem canais definidos para exibição, sua série “Osmar A Primeira Fatia de Pão de Forma” – sobre um pão rejeitado que no divã conta seus causos que o traumatizaram – que está mais próxima de um lar, pois existe a negociação entre o CN e o recente canal Gloob, para iniciar sua exibição no 2º semestre de 2013. Porém, tanto a outra série animada “Bobolândia e Monstrôlandia” e o longa-metragem “Tordesilhas”, ainda se encontram sem canais em vista. Mostrando que as dificuldades não se encerram quando se consegue recursos, se no final não se consegue realizar a distribuição desse material.

Bobolândia e Monstrolândia

Por fim, não sendo tanta surpresa, será lançado o sucesso em quadrinhos em sua versão animada “Turma da Mônica Jovem”, mas ainda sem data. A presença de Maurício de Souza nesse mercado é historicamente valorizada, visto que com os primeiros desenhos da turminha da Rua do Limoeiro, esse tipo de produção audiovisual começou a ser comercializada com o grande público, ao contrário de antes que se limitava a vinhetas comerciais ou de aberturas de programas. O tradicional desenho animado da Turma da Mônica, nessa semana, também teve estreia de episódios inéditos no Cartoon Network.

Para o mercado nacional, a importância disso tudo é algo que comento nas oficinas e palestras que realizo, hoje percebemos que tudo aquilo que se correu atrás, que foi plantado, já começa a brotar e ter algum resultado: desde os diversos editais, leis de incentivo, festivais… São diversas possibilidades que vêm surgindo, justamente, para contornarem os percalços para realizar um projeto audiovisual dessa categoria. E muito mais do que isso, a qualidade nacional só vem crescendo a ponto de termos séries de animação sendo exportadas para diversos países, e disputando espaço na grade de programação com outros desenhos animados já fortes no mercado.

Peixonauta

Enfim, para os estudantes, e aspirantes a animador, convém pensar sobre de onde virá à mão de obra para tantas produções em andamento? Depende de cada um agora encontrar o seu lugar.

Boa sorte a todos e que venham muito mais desenhos animados para assistirmos e produzirmos!

Referências:

Wagner Regis

Wagner Regis

Designer Gráfico por formação e Pós-Graduado em Jogos Digitais (UP). É co-fundador do estúdio de animação "Make Toons", professor na Universidade Positivo, e feliz por gostar do que faz.

Conteúdo relacionado

Comentários