metodos abertos

Códigos Abertos

Por Rob Batista

Em certo sentido, o design, enquanto profissão, precisa se fechar para tentar se entender. No seio do mercado e do modelo de organização socio-econômica em que vivemos, ele precisa definir claramente seus limites para saber de onde parte e até onde pode ir, e é isso o que define o que ele é, o que é design no mundo de hoje.

Acalorados debates já foram levantados a respeito da diferença entre design, arte e mais uma série de coisas e é sempre notória a tentativa de fechar o design em um campo bastante delimitado, regrado, supostamente científico, quase matemático. E geralmente essa tal matemática dada como bandeira para o design não permite diferentes alternativas para sua concretização, ou seja, o design deve entender a si mesmo através de uma metodologia pela qual ele acontece, e isso, para alguns, precisa ser muito bem padronizado, científico e definido para que saibamos que estamos realmente fazendo design.

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O grande problema dessa visão é que ela aparentemente esquece que o design, mesmo enquanto profissão de um mercado que exige padrões, está inserido em um mundo onde transformações impactantes são cada vez mais recorrentes e acontecem com menores intervalos de tempo. Se a partir da Bauhaus, Ulm e outras escolas tentamos enxergar padrões e metodologias muito específicas que viabilizariam a concretização do design, o mundo de hoje parece exigir que tentemos enxergá-lo aquém e além da forma como nos organizamos social, política e economicamente. Essas metodologias cristalizadas refletem muito bem nossa própria sociedade: vivemos um modelo de organização que, por um lado, diz que somos donos de algum poder (sou um cidadão apto x sou um designer apto), mas que, no entanto, só nos permite agir de acordo com certas leis, regras e códigos fechados, quer dizer, somos designers “aptos” mas nunca maduros o suficiente para desenvolvermos alternativas para a concretização do design, devemos sempre emprestar uma metodologia “divina” que não foi criada por nós, nem no nosso tempo, nem no nosso ambiente, ou atuar em modelos verticais e privados, debaixo de uma rígida hierarquia, porque esse caminho natural das coisas.

E se, de repente, o Mestre dos Magos nos rapta e nos joga em um universo paralelo onde não existe o tal mercado como conhecemos, onde as formas de participação e realização política são abruptamente diferentes, onde a economia não precisasse de uma roda universal para girar, mas que funcionasse, por exemplo, através de bases ou comunidades locais até certo ponto auto-sustentáveis, ou onde a prática de determinadas funções não fosse presa a uma profissão, mas diluída entre as responsabilidades dos membros de uma comunidade, o que faríamos?

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Levanto essas questões considerando a possibilidade de o mundo como conhecemos não existir mais amanhã, e, pelo menos na minha perspectiva, ele certamente não existirá. O que me parece ficar em aberto, pela impossibilidade de prever o futuro, é como ele será. Estamos acostumados com o design nos limites apertados de uma profissão, com patrãozinho, emprego em empresa privada, carteira assinada, relação padronizada com cliente e processos  e metodologias muitas vezes fúteis, mas “cientificamente mágicas” e vindas de antigos sábios do design, jogadas a nós por patrões e superiores, através de uma relação vertical, em nossas costas.

E se não houver mais patrão, dono ou diretor (aquele ser com palavra divina)? E se nossa relação com clientes fosse muito mais direta e aberta? E se a prática da nossa atividade acontecesse, na maior parte das vezes, através de coletivos de design, com estrutura horizontal, organizados em redes, autogeridos e de forma muito mais autônoma? E se as relações desses designers com clientes e com agentes de outras atividades e com a própria sociedade fossem mais espontâneas, mais diretas e menos regradas? Será que ainda faria sentido cultuar metodologias e códigos que apenas expressam um modelo do passado como se fossem padrão único e absoluto pelo qual se deve praticar e entender o que é design?

Faz todo sentido se debruçar sobre essas questões quando parece explícito que estamos em um momento de transformações importantes da sociedade (positivas ou não). Cabe agora nos perguntar, caso mudanças realmente profundas aconteçam, qual será o papel do design? Em um mundo (pouco ou muito) mais aberto, ainda faria sentido um design tão fechado?

Embora muita gente não saiba, já existem várias iniciativas no campo do design que abrem as metodologias (algumas tentam se livrar delas) a favor de projetos bastante interessantes. E, sinceramente, tenho a impressão de que essa é a expressão de um futuro não muito distante. Códigos abertos, metodologias livres, processos plurais, coletivos, colaborativos. Acredito que essas serão as bases do design de amanhã, mas já começa a acontecer e nos próximos posts pretendo mostrar aqui algumas dessas iniciativas.

Rob Batista

Rob Batista

Rob Batista, aka Robin Hood, é paulista e estudante de Design Digital pela Universidade Anhembi Morumbi. Se encontra (e se perde) em Artes Visuais, Antropologia, Filosofia, Ficção Científica, entre outras coisas, e vê no design o poder de (des)construir o mundo. Suas pesquisas, observações e toda a bobagem que fala são muito menos o desejo de explicar e muito mais a tentativa de entender.

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