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Quando os padrões são símbolos

Por Carol Zanelatto

Conta-se que os povos na era pagã decoravam ovos para dar as boas-vindas ao sol, festejando a primavera para assegurar fertilidade ao homem, á terra e aos rebanhos: A pêssanka simbolizava, assim, o renascimento da terra na primavera. Com a propagação do cristianismo, ela passou a simbolizar a ressureição – promessa de um mundo melhor.  É por isso que dessa forma, sua confecção está relacionada tradicionalmente aos festejos ucranianos da páscoa.

Na tradição cultural ucraniana, a Pêssanka ¹ é um ovo decorado com vários signos e cores e que assim serve como um talismã; um amuleto contra infortúnios. O termo deriva da palavra ucraniana Pessati que significa escrever, portanto, pode ser traduzido como “uma forma de escrita”. A pêssanka possui valor sentimental de troca entre amigos, além de proteger contra o mal, seu significado também está relacionado à uma demonstração de afeto, pois ela possui um significado é destinado obrigatoriamente à pessoa que a recebe.

As pêssankas ucranianas (artesão: Maurício Linécia)

Pelo feitio tradicional, as pêssankas são confeccionadas em ovos de aves (galinha, pato) tanto cheios quanto vazios – esta última pratica que vem acontecendo atualmente, assim como a confecção em ovos de madeira. Já a simbologia de suas formas e cores está relacionada a símbolos convencionados simplesmente por uma tradição cultural nas comunidades ucranianas – trazida de sua terra natal – passada de geração para geração.

Desenvolvendo o processo, trançando linhas coordenadas no ovo e fazendo todo o seu desenho à lápis, com um bico de pena, os desenhos são feitos no ovo com cera de abelha derretida, e em seguidas mergulhadas na tinta – a tintura é feita numa ordem de escala de cores que vão desde o amarelo ao preto, sempre da mais clara à mais escura. A cada mergulho na tinta, novos traços são acrescentados ao desenho e assim, a cera protege a cor da tinta que será ocultada pela próxima. Ao final, o ovo estará todo escurecido pela cera, e, ao posicionar o ovo próximo à chama de uma vela, a cera derrete, e as imagens ocultas da pêssanka são reveladas.

 “Dentro de toda essa fabulosa tradição cultural, encontra-se um processo artesanal metodológico e minucioso, que vai desde a construção do grid até a montagem do padrão. A superfície das pêssankas é uma padronagem aplicada e todos os seus elementos compositivos denotam simbologias que espantam o mal.”

Simbologia das Pêssankas

Em posição vertical, o ovo é normalmente dividido em partes por linhas que vão auxiliar no desenho escolhido, formando uma espécie de grid.

Divisões Básicas – exemplos de “grid” das pêssankas

A disposição e tamanho dos elementos compositivos na pêssanka dependem exclusivamente da simbologia que ela vai carregar. Por exemplo, caso queira desejar espiritualidade e fortuna a uma pessoa, o galo, será o elemento principal da composição, estando maior e em destaque. Dessa forma, há basicamente duas regras de simetria para as composições: Espelhamento nos polos, quando o elemento principal é espelhado nos polos do ovo, e Espelhamento na vertical, para espelhamento do elemento na vertical.

Espelhamentos do elemento principal – à esquerda, espelhamento na vertical: elemento principal, flor, nos dois lados do ovo. À direita, espelhamento nos polos, elemento principal, olho, espelhado nos dois polos do ovo. (artesã desconhecida)

Os elementos compositivos das pêssankas podem ser geométricos e orgânicos: Os elementos orgânicos estão geralmente relacionados à natureza e geralmente se comportam como elemento central da composição, enquanto os geométricos compõem o restante da superfície, ou toda a pêssanka. Em relação à cor, observa-se que as pêssankas mantêm uma paleta equilibrada de cores – e que também se relacionam com seu significado – e que auxiliam no contraste da composição.

Figuras – exemplos de elementos compositivos das pêssankas

 

Modelos – exemplos de composições das pêssankas

Os elementos compositivos – à esquerda, pêssanka formada apenas de elementos geométricos e à direita, pêssanka de elementos orgânicos e geométricos (artesão: Maurício Linécia)

Daí em diante, a cada pêssanka, caberia uma bela análise formal a rigor. Fato é que isso tudo exemplifica apenas em pedacinho da questão das etnias e sua identidade cultural.  A produção desses artefatos nesse povo, assim como a produção de artefatos em qualquer etnia, é muito bem carregada em sua conformação simbólica – como se esses fossem impregnados por códigos. Esses artefatos contam a seu usuário ou expectador, quem são de onde vêm ou em quê acreditam.  Percebem-se então, como as manifestações artísticas exprimem significados culturais fundamentais para cada sociedade².

“é no conjunto de elementos constitutivos da ornamentação que reside um dos mais fecundos motivos formativos de uma época cultural”. DORFLES

Na análise das pêssankas, toda essa carga cultural e simbólica se manifesta no ornamento – como uma manifestação cultural, esse ornamento está ligado muito mais a uma questão étnica e estética do que qualquer outra coisa: esse ornamento simboliza a particularidade de um povo. Aí, cabe o questionamento: Será que se encontram nas manifestações culturais processos de “fazer design”? Aqui não há profissional designer, mas há grid, há composição – há a intenção do fazer, há ação, como sempre existiu. Porque não considerar esse processo como resultado de design?

Sobre isso, vê-se como são escassos os estudos da cultura material das diversas culturas que fazem parte do Brasil, seus processos, seu fazer são desconhecidos, o que representa uma grande perda para o campo em termos de conhecimento. Entrando em campos pantanosos, parece que há uma necessidade do designer, mais do que definir seu design, delimitar quem pode ou não fazê-lo.  O resultado disso é, nesse caso, o abandono das considerações históricas do termo e o afastamento do design, aqui brasileiro, com suas questões culturais e étnicas.  A gênese da cultura material das etnias que aqui vivem é desconhecida – é como se o design brasileiro não tivesse as raízes de seu povo.

Notas

  • [1] O processo imigratório que ocorreu no Brasil no fim do século XIX, deixou como herança cultural pequenas comunidades étnicas com costumes oriundos dos antepassados imigrantes que trouxeram de sua terra natal sua língua materna, sua comida, sua religião, seu jeito e muita esperança. Devido aos processos de hibridação, é claro que os costumes preservados por essas comunidades, não são os mesmos presentes em sua terra natal atualmente – o que Hall chamaria de “estética diaspórica”. Nesse contexto, as pêssankas são produzidas nas comunidades ucranianas mais tradicionais do sul do país.
  • [2] VIDAL, 1992
  • Fotos Tiradas no centro de recepção de visitantes da cidade de Itaiópolis-SC

 

Referências:

  • Apostila de Pêssanka. Casa da Cultura de Itaiópolis, 2012
  • AOS CONTEÚDOS, Consulta. Título: ETNODESIGN: UM ESTUDO DO GRAFISMO DAS CESTARIAS DOS MBYÁ GUARANI DE PARATY-MIRIM (RJ) Instituição: PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO DE JANEIRO-PUC-RIO Autor (es): JOSE FRANCISCO SARMENTO NOGUEIRA Colaborador (es): JOSE LUIS MENDES RIPPER-Orientador Data da Catalogação: 13/09/2005.
  • PAIM, Gilberto. BELEZA SOB SUSPEITA, A. Jorge Zahar Editor Ltda, 2000.
  • PANTALEÃO, Lucas Farinelli; PINHEIRO, Olympio José. Estética e ornamento: uma antropologia do design no contexto histórico da arte.
  • STEFFEN, Analu. A ESTÉTICA DIASPÓRICA E A DÁDIVA DAS PÊSSANKAS.
Carol Zanelatto

Carol Zanelatto

é estudante de Design de Produto da UFPR e mantém um caso de amor entre tantas outras coisas, com você, o mundo, a arte e a CORDe Curitiba

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