Ghost

Por Wagner Regis

Final de semana de semana é hora de reunir os amigos, seu dog de estimação, entrar no furgão e ir para uma mansão assombrada arrumar um monte de confusão. A animação desse final de semana será sobre isso.
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Primeiramente, “Ghost” é um single electro-pop produzido do músico indie estadunidense Luis Dubuc, conhecido como Mystery Skulls. A música foi lançada em Maio de 2012, porém, só teve um vídeo oficial lançado em fevereiro desse ano. Eis que começamos nossa aventura…

Ben Magnum (conhecido como MysteryBen27, em seu canal do Youtube), é um animador conhecido por tributos feitos para a nova série da franquia “My Little Pony – A Amizade é Mágica”, com vídeos musicais, tanto que seu traço é bastante inspirado nesse estilo cartoon da série animada. Logo, resolveram encomendar uma versão em clip musical animado para a música, que foi lançada agora, 29 de Outubro, tendo uma chamada de destaque no site Kotaku , e no dia seguinte no BuzzBandsLA. O clipe chamou a atenção do público que rapidamente surgiram diversos fanarts em sites como DeviantArt e Tumblr.

“Ghost” traz fortemente muitas lembranças de uma série popular que iniciou lá na Hanna Barbera, com um cachorro chamado Scooby-dobi-Dooo! Desde a temática, quando no modo de correr dos personagens, a cena das portas usadas até hoje para trazer esse aspecto cômico numa perseguição, quando se amontoam no colo da garota, e por citar algumas sutilezas.

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Um detalhe bem particular da animação, é que os personagens, mesmo parados, continuam movendo as cabeças no ritmo da música, pode parecer algo bobo, mas isso mantém a atenção do expectador e deixa-o curioso para saber o que vai acontecer. Num projeto animado, sempre é legal ter algo se movendo, senão tudo estático acaba parecendo uma tela de pintura.

Wireframe dos personagens.

Wireframe dos personagens.

Versão finalizada para model sheet: Arthur, Ben, Lewis e Vivi.

A aventura poderia correr muito bem, como a clássica série animada do final do anos 60, porém, começam a surgir indícios dos acontecimentos que levaram eles até a mansão, e durante o flashback, compreendemos a ligação entre o esqueleto Lewis, e o trio que estava no furgão. Com base nisso, são feitos diversos apontamentos sobre o que teria acontecido com o braço do Arthur (que foi o causador de toda a desgraça), a forma real do Ben e a simbologia dos olhos ocultados de Vivi, que além disso, questiona-se se ela realmente presenciou, na caverna, o que houve com Lewis, e como tem sido a relação entre os demais?

Teste para inserção dos personagens sobre o cenário finalizado.

Teste para inserção dos personagens sobre o cenário finalizado.

Sobre Aceleração e Desaceleração / Slow in and Slow out (Princípio #02)

Abrindo um parenteses, como dito no episódio anterior, animação não é simplesmente desenhar um desenho repetido depois do outro. Aqui comentaremos um pouco sobre outro dos 12 princípios propostos por Walt Disney, e citando novamente Sergi Càmara, e seu livro “O Desenho Animado” (2005), onde de acordo com a física, um corpo com massa constante não atinge a máxima velocidade no início do movimento. O corpo sofre aceleração progressiva quando inicia o movimento e uma desaceleração progressiva até retornar ao estado inicial.

Abaixo temos um exemplo esquemático de como isso funciona, onde cada número se refere a um frame (quadro) da animação.

 

Exemplo de gráficos de aceleração e desaceleração (CÀMARA, 2005, p.147)

Exemplo de gráficos de aceleração e desaceleração (CÀMARA, 2005, p.147)

Porém, sempre acho que é mais fácil visualizar isso com algo mais próximo da nossa realidade, e não tão sistemático, como nas sequências abaixo onde num momento em que a bola de boliche adquire velocidade e segue uma trajetória em direção ao pino, e em outro, uma situação contrária em que ocorre desaceleração mudando o final do evento.

Exemplo de aceleração (CÀMARA, 2005, p.147)

Exemplo de aceleração (CÀMARA, 2005, p.147)

Exemplo de desaceleração (CÀMARA, 2005, p.147)

Exemplo de desaceleração (CÀMARA, 2005, p.147)

Em “Ghost”, isso é facilmente visto nesses dois planos. No primeiro, para dar a sensação de aproximação rápido e agressiva, vemos que os quadros que fazem o personagem ficar maior rapidamente – como se ficasse mais perto da câmera – num intervalo de tempo menor.

Enquanto, que para a desaceleração, para representar que ele se afasta da câmera – e vale lembrar que no clipe é justamente porque ele precisar parar para não atropelar a garota – ele recua lentamente, onde os quadros de animação ficam nesse intervalo de tempo mais próximos, e a diminuição do tamanho do personagem é mais gradativa.

“Ghost” foi, não só, animado, mas também dirigido por Ben Magnum, e teve a contribuição de Isaiah Kim, Blake Hudson, Kressent Rhodes, James Workman, Jourdan Lasko e Patrick Rantala. E mostra que uma animação, mesmo com um traço mais simples e mais infantil, é algo que pode ser vista de outra maneira trazendo um roteiro instigante, perturbador e mesmo com cores mais vibrantes, uma narrativa impactante.

Mesmo havendo uma grande semelhança com o desenho animado “Scooby-Doo”,  existem inúmeras interpretações sobre o curta animado e adequação a temas juvenis, como rivalidade amorosa, de que Arthur teria ciúmes de Lewis, por ele ser o namorado de Vivi, e a possessão demoníaca usou disso para ocasionar o acidente. Temos também a imprudência infantil de entrarem em uma caverna, que curiosamente tem as cores intensas e predominantemente verdes, enquanto na mansão são aquele roxo rosado. Acho que o mais impactante, o trauma psicológico, já que Vivi estava em frente as estalagmites,  não apenas dela, mas de Arthur quando percebeu o que aconteceu, e Ben acaba tomando outra forma arrancando o braço do garoto e libertando-o do transe (lembram de Ash, em Evil Dead, que teve que amputar a mão porque tava possuída por um demônio?). E acredito que devido a esse choque, meio que esqueceram de tudo, até o momento da vingança e por fim, o romance esquecido tentando se reconectar com sua amada. Apesar de toda a repercussão positiva e uma vibe envolvendo pelos fãs do canal, em seu blog, Mistery Ben 27 responde que infelizmente não há planos para produzirem algo maior, mesmo que uma websérie, com os personagens, devido à carga de trabalho, e acabaria comprometendo a qualidade. Por hora ficamos na torcida, porém já existem muitas especulações sobre a trama. Adoraria saber mais, pois foi umas das animações que ao mesmo tempo divertida e bem animada, mais triste que assisti recentemente.

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Agradeço a minha amiga Fer Zabudowski, quem indicou a animação. E no próximo episódio: #Princípio 3 da Animação: Movimento em Arco.

 

Wagner Regis

Wagner Regis

Designer Gráfico por formação e Pós-Graduado em Jogos Digitais (UP). É co-fundador do estúdio de animação "Make Toons", professor na Universidade Positivo, e feliz por gostar do que faz.

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