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A Arte Vinda Daquelas Coisas que Vem de Dentro da Garganta – Parte III

Por Isabela Fuchs

Classificar a arte moderna em si já é algo bastante complicado. A modernidade é um período bastante complexo, e o modernismo também haveria de sê-lo devido a todas suas ramificações (futurismo, cubismo, suprematismo, construtivismo e afins). Além disso não sabe-se o ponto determinante que traçou o início do movimento modernista na pintura. Na literatura foi Baudellaire, mas alguns historiadores da arte dizem que foi com os pêlos de Goya, das Demoiselles de Picasso ou da burguesia francesa empobrecida do Manet. A questão traçada pelo modernismo não é exatamente cronológica, algo como se a modernidade começou a partir do século XX, e sim o início da representação da frivolidade da época moderna, com sua rapidez científica e tecnológica e o início de uma época em que não há mais sossego.

A livre expressão de ideias é um dos traços mais marcantes do modernismo. Foi aí que começou a ruir certas regras e normas que até pouco tempo atrás se tinha, afinal a relação entre Igreja Católica, burguesia e o mercado de arte mudou muito após a Primeira Revolução Industrial. Ou seja, sem interesse algum com a Igreja Católica, por que seguir as regras que a própria ditava? Foi aí então que o artista começou a ser dono de seu estilo artístico como nunca foi visto antes e começou a expressar suas ideias, sensações e angústias na sua arte: assim surge o movimento expressionista. E é indiscutível o fato de que Munch, apesar de não ser o precursor do movimento, foi um verdadeiro mestre expressionista, seja retratando a melancolia ou a tristeza, mas o seu maior ícone retrata justamente uma agonia visceral: O Grito.

O Grito - Edvard Munch
Primeiro que esse quadro foi retirado de exibição por nazistas por considerarem Munch um lunático (Hitler odiava modernismo. Uma penca de obras modernistas foram queimadas em praça pública) e um crítico de arte julgou o quadro tão perturbador que alertou a mulheres grávidas a evitar ver a obra. O rosto fantasmagórico e andrógino é sim perturbador: é um rosto que você não sabe muito bem aonde começa e aonde termina, ele não tem pés… É como se fosse a assombração do seu medo se aproximando de você, ou até mesmo o espírito do medo, a aura assustada que perambula por aí. A cor vibrante do céu que parece se mexer em contraste com um rio praticamente morto. O grito não é ecoado apenas pelo personagem principal, mas a paisagem nos dói e nos fere por dentro. Como quando estamos muito agoniados, amedrontados e nervosos: não somos só nós que gritamos, mas tudo ao nosso redor.

Após um enorme período histórico-artístico em que as vanguardas europeias eram as únicas que eram permitidas e o resto era tido como uma arte demente pela instituição católica, a arte fora do eixo europeu começa a tomar força. Lógico que não foi do nada, pois após a vitória americana na Segunda Guerra e a abertura do MoMA a arte americana tomou força total, principalmente com o expressionismo abstrato, e um pouquinho da arte latina também. Dessa enorme força surge a figura hoje em dia super hypada que é a Frida Kahlo. Quer dizer, ela não nasceu com super dons artísticos e teve uma vida completamente perturbada (não é adorável você ser traída pelo maior muralista mexicano com a sua irmã caçula a vida toda e ela ter seis filhos do seu marido? Ou tentar se matar com facas e martelos?), o que é bastante interessante de ser analisado juntamente com sua obra: é uma maneira imatura de analisar obras de arte, mas não deixa de ser curioso se for analisar psicologicamente o conjunto de obras, principalmente de Frida que fazia praticamente autorretratos de cunho bastante surreal.

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Sem Esperança. É assim o nome da obra de Frida que increveu no verso que “não resta nem a menor esperança em mim… Tudo se move em sintonia com o que o estômago contém”. A obra tem uma dimensão ridícula, de 28 por 36 centímetros, mas é uma das obras mais intensas e nervosas da pintora. Na época, ela passou por uma magreza patológica e precisou ser alimentada por um funil, que é ilustrado pela forma cônica que sai da boca dela. Dessa massa saem peixes crus, frangos desossados, bifes sanguinolentos e… uma caveira mexicana. O rosto suplicante da artista em seu retrato realça ainda mais a sua dor e desespero.

Lars von Trier é um diretor agoniante, pois retrata temas fortes e chocantes de maneira lírica. E Von Trier está para o cinema assim como Francis Bacon está para a pintura: fantasias masoquistas, pedofilia, desmembramento de corpos, dissecação forense, fascínio pelos fluidos naturais: sangue, esperma, bile, urina e afins, e com transgressão religiosa ou sexual. Quer dizer, qualquer tabu porreta era tema de estudo para as pinturas de Bacon. O pintor quis dizer na singularidade da sua obra a liberdade do ser humano como a liberdade do demônio existente dentro de cada um. Alguma semelhança com Lars von Trier?

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A série Head de Francis Bacon contém seis obras claustrofóbicas e distorcidas com, logicamente, cabeças como protagonistas. A paleta de cores adotada é fria e sombria, apesar de sutis toques de amarelo. Algumas nem ao menos parecem humanas, e mostram os dentes como uma figura malvada e feroz. Outras refletem o desespero de morrer queimado. Quase ninguém gosta das pinturas de Francis Bracon de cara porque ele não é familiar. Ele não pinta coisas bonitas, paisagens leves e anjos voando ao céu; ele pinta os monstros que habitam dentro de nós. Os que são muito mais agoniantes que os purgatórios pintados pelos góticos italianos.

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Isabela Fuchs

Isabela Fuchs

Estudante de Design na UTFPR. Apaixonada por História da Arte, mas também nutro paixões paralelas como Design Editorial, Design de Embalagens e Tipografia.

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