PENSE MODA

Os pensadores da moda

Por Amanda Prado

A moda, tema marginal nos estudos acadêmicos, relegada durante muito tempo ao mundo das frivolidades, cada vez mais adquire características e dimensões desconhecidas que devem ser sistematizadas e compreendidas. Tendo em vista que em outras extensões a moda se mostra em plena consolidação, no que diz respeito ao campo de saber dessa área, ainda há carência de pesquisas.

Por isso, inspirado pelo artigo de Maria do Carmo Rainho (2010), que aborda as obras de Roland Barthes e Pierre Bourdieu dedicadas à moda, este texto tratará de como e quando os alicerces da moda começaram a se estruturar enquanto assunto acadêmico.

De fato a moda é um jovem escopo de estudo, sua deixa para alcançar discussões desse nível se deu timidamente apenas na virada do século XIX para o XX, e continuou sendo explorada com maior acuidade após a Segunda Guerra Mundial.

Mas quem afinal foram os pensadores da moda?

Alguns dos corajosos que decidiram não mais ignorar o poder da moda e as influências que ela claramente desencadeava em suas respectivas áreas de pesquisas foram Herbert Spencer (1883), Gabriel Tarde (1890), Georg Simmel (1895), Thorstein Veblen (1899) e Roland Barthes (1963).

Com os estudos desses autores, começou a se pensar a moda inicialmente baseando-se nos aspectos imitação-distinção, até a mudança de paradigma estabelecida por Barthes, considerando a moda um sistema composto por signos, capaz de expressar diferentes sentidos. É importante salientar que não foi por acaso, no final do século XIX, o início da abordagem da moda como uma temática relevante para a academia.

Conforme Roland Barthes, até o início do século XIX, não houve produção científica dedicada a história da indumentária propriamente dita, mas apenas estudos de arqueologia antiga ou recensões de trajes por qualidade. Os trabalhos científicos sobre indumentária teriam aparecido por volta de 1860, e eram de autoria de arquivistas como Quicherat, Demay ou Enlart. O principal objetivo daquelas obras era tratar a indumentária como uma soma de peças, e a peça indumentária em si, somente como uma espécie de acontecimento histórico, visando antes de tudo datar seu aparecimento e dar sua origem circunstancial.

Porém, no oitocentos surgiram também a alta costura, com o estabelecimento da Maison de Charles Frederick Worth, em 1857, em Paris, bem como a produção do vestuário em maior escala, graças aos aprimoramentos da máquina de costura, permitindo a comercialização de artigos da moda prontos em lojas de departamento, e ainda com o incentivo de colunas e seções especializadas nos jornais e revistas femininas, que se encarregaram de difundir e regular as tendências de cada estação.

Nesse contexto de aceleração da produção e da propagação do consumo de vestimentas, entende-se que os cientistas sociais começaram a ter o interesse em dedicar sua atenção a pensar relações de poder, diferenças de classe, sociabilidades e estilos de vida sob a perspectiva da roupa e da moda.

Assim, conforme o século XIX e a moda das classes iam se difundindo, no início do século XX, com o fim da 1ª Guerra Mundial, as intenções e possibilidades da moda foram também se transformando. Ao longo do século XX, a indumentária passou por inúmeras mudanças, até que nos Estados Unidos, de acordo com Braga (2008), surgiu no pós-2ª Guerra o ready to wear, uma nova forma de produção de vestuário em grande escala. Os franceses buscaram conhecer o novo método produtivo, onde aderiram à ideia em 1946, a qual foi denominada prêt-à-porter, permitindo a democratização do vestuário para todas as camadas, estreitando ainda mais a relação entre a sociedade e sua afinidade com a moda.

Dada a importância e possibilidades referentes à moda enquanto instrumento social crescente após a segunda metade do século XX, finalmente, coube a Roland Barthes, dar à moda um status de assunto nobre, universitário, que não lhe era concedido até então, o que será brilhantemente fundamentado com a publicação, em 1963, de Sistema da moda, livro que marcaria seu percurso na semiologia, e daria a possibilidade para se pensar a moda.

Seguindo os passos de Barthes, já na década de 1970, Pierre Bourdieu publicou A distinção, no qual, por meio da sociologia do gosto, o autor dedica-se a pensar os mecanismos de diferenciação ou de afirmação da distância nos grupos sociais dominantes, incluindo entre estes mecanismos o consumo da moda.

Ambos os pensadores, Barthes e Bourdieu, apoiam-se na corrente estruturalista do século XX, baseada no modelo da linguística que apreende a realidade social como um conjunto formal de relações, com raízes estabelecidas nos estudos de Ferdinand de Saussure. Cada um deles, ao seu modo e levando em consideração aspectos de diferentes momentos históricos, contribuiu imensamente para se pensar moda além do que era comum na época.

Obviamente, na atualidade estamos diante de outras possíveis relações e viéses para se trabalhar a moda, mas ainda assim, as obras tanto de Barthes quanto de Bourdieu se mostram extremamente relevantes, seja por suas críticas e considerações, ou simplesmente para compreender as mudanças sofridas pela moda, vistas e debatidas no século XXI.

Por exemplo, Baudrillard (1968), Lipovetsky (1989) e Bauman (2008), são outros cientistas sociais que dedicaram esforços para abordar relações pertinentes à moda, ao consumo, a comunicação, a identidade e suas demais vertentes, certamente estimulados de alguma forma, alguns mais, outros menos, pelos ditames de Bourdieu e Barthes, que partiram do desejo de se pensar a moda de forma tão complexa, abrindo caminhos para outros.

No próximo post as principais contribuições dos estudos de Barthes e Bourdieu serão evidenciadas, bem como suas relações e influências, pois como diz Glória Kalil ao definir o seu estilo, “Sou uma pessoa clássica com tempero. Moda é renovação: ela une todas as pessoas, desde os mais novos até os mais velhos”, então, por que não começar a ser um bom entendedor ou indagador da moda  refletindo sobre suas questões iniciais, as quais transformaram um mero assunto de “mulherzinha” em uma verdadeira temática acadêmica de grandes nomes da sociologia e filosofia contemporânea.

Para saber mais:

  • BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Portugal: Edições 70, 2008.
  • _______. A troca simbólica e a morte. São Paulo, Ed. Loyola, 1996.
  • _______. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 2006.
  • _______. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
  • _______. Simulacros e simulação. Portugal: Relógio D’Água, 1991. Portugal: Edições 70, 2008.
  • BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
  • BARTHES, Roland. História e sociologia do vestuário. In:______. Inéditos, vol. 3: imagem e moda. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 257-259.

 

Entre os trabalhos mencionados por Barthes estão:

  • QUICHERAT, Jules. Histoire du costume en France. Paris: Hachette, 1875.
  • DEMAY, G. Le costume au Moyen âge, d´aprés les sceaux. Paris: Dumoulin,1880.
  • ENLART, C. Manuel d´archeologie française. Paris: Picard, 1916.
  • BARTHES, Roland. Sistema da moda. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1979.
  • BRAGA, João. Historia da moda uma narrativa. 7. ed. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2008.
  • LIPOVETSKY, Gilles. Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução por Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
  • Rainho, Maria. Barthes e Bourdieu: Os maîtres à penser e a moda. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/152266514/Os-maitres-a-penser-e-a-moda-pdf> Acesso em: 07. Julho. 2013.
  • SIMMEL, George. Da pisicologia da moda: um estudo sociológico. In: ______. Souza, Jessé. & Oëlze Berthold. Simmel e a  modernidade. Brasília: UNB, 1998. Pg. 161-170.
  • SIMMEL, Georg. La mode. In: ______. La tragédie de la culture et autres essays. Marselha: Rivages,1988.
  • SPENCER, Herbert. Les manières et la mode. In: _____. Essais de morale, de science et d’esthetique. Paris: Germer Balliere et Cie., 1883.
  • TARDE, Gabriel. Les lois de l’imitation. Paris: Kimé, 1993.
  • VEBLEN, Thorstein. A teoria da classe ociosa. São Paulo: Abril Cultural, 1985. Coleção Os Pensadores.
Amanda Prado

Amanda Prado

Vinte e um anos, mineira, viveu no interior do Rio de Janeiro desde sempre até que a partir de 2011 se aventurou a morar em terras paranaenses para estudar Moda na Universidade Estadual de Maringá (UEM), mais especificamente em Cianorte, onde concluiu o curso de Moda em 2015, e não satisfeita, aproveitou a deixa e se formou em 2013 como técnica em vestuário pelo SENAI. Apaixonada por pesquisas acadêmicas, moda e áreas afins, mas acima de tudo consciente da necessidade da fomentação do campo de saber da moda.

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