“Design não vai salvar a vida de ninguém”

Por Paula Cruz

Após ler alguns* comentários desastrosos numa página de notícia, sinto que devo defender minha calejada profissão. Não que o comentário de leigos não dê uma pontada no coração, mas o que me incomoda realmente é o argumento base que vetou o projeto de lei nº 24, de 2013 (nº 1.391/11 na Câmara dos Deputados), que dispõe sobre a regulamentação do exercício profissional de design:

(…) Constituição, em seu art. 5º, inciso XIII, assegura o livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, cabendo a imposição de restrições apenas quando houver a possibilidade de ocorrer dano à sociedade.

Antes de tudo, é de bom tom deixar claro que não pretendo entrar em méritos de partidarismo ideológico frente ao assunto polêmico que é ser a favor ou não da regulamentação do designer. Não. O que contra argumento aqui é a velha ideia de que “o design não vai salvar a vida de ninguém, então o que importa?”.

Pois bem.

7x1 foi pouco! | Neste texto só serão admitidos cases ou exemplos de design ruins, tragicômicos, horríveis. Se design é tão inútil assim, vamos imaginar um mundo feito só de design assim. Chupa essa manga.

7×1 foi pouco! | Neste texto só serão admitidos cases ou exemplos de design ruins, tragicômicos, horríveis. Se design é  inútil, que tal imaginar um mundo feito só de projetos bacanas assim?

Entendo que seja difícil perceber o valor de uma profissão que mal tem 100 anos. O design nasceu moderno, feito para o mundo industrializado pós Revolução das Máquinas. É uma disciplina tão complexa que os próprios designers não chegaram a um consenso que explique definitivamente o que é design. De uma maneira superficial, posso dizer que design é trabalhar com símbolos e signos que ecoam na sociedade desde tempos remotos a fim de elaborar projetos (viu como é difícil?). Posso dizer que design é moldar o conceito e dar forma à pesquisa. A transposição da ideia em um formato físico e visual tem um enorme e complicado pulo do gato. Esta complexidade do ato de se fazer e de se explicar o que é design contribui para uma má interpretação do ramo, que fica entre o desenhista, o arquiteto, o qualquer-coisa-com-artes. No Brasil mal sabe-se escrever a palavra desing (sic), imagine então entendê-lo como campo de pesquisa.

Exatamente por isso é complicado comparar o design com profissões milenares e de fácil compreensão como medicina. É uma comparação anacrônica e desonesta, porque não se pesam parâmetros semelhantes. Talvez seja mais justa a equivalência com os tropeços dos jornalistas e fotógrafos, que possuem, cada um a sua maneira, suas próprias pedras no caminho. Mesmo assim, são comparações que só servem até certo ponto — ponto este que marca o começo das diferenças entre os campos comparados.

Mau design destroi vidas | Me desculpo desde já pela qualidade péssima da foto - foi a única que achei. O caso Needs mostra a importância do design: uma marca correta, bem executada, aplicada em embalgens idênticas. O caso mais preocupante da semelhança das embaalgens ocorre na foto: não há nenhuma distinção visual entre um soro fisiológico e um removedor de esmaltes. Não precisa ser gênio para adivinhar que o produto foi recolhido pouco tempo depois das lojas por acidentes.

Mau design machuca | Me desculpo desde já pela qualidade péssima da foto – foi a única que achei. O caso Needs mostra como um design equivocado pode ser perigoso. Não há nenhuma distinção visual entre a embalagem de um soro fisiológico e um removedor de esmaltes. O produto foi recolhido pouco tempo depois das lojas por acidentes com consumidores que usaram o removedor de esmaltes nos olhos.

Penso também que grande parte dessa desvalorização do design vem de um funcionalismo safado, que atribui valor num juízo extremo. Quem julga o design inútil porque não salva vidas recai num questionamento banal: o mundo é feito só e exclusivamente por atributos ligados à vida ou à morte? De certo que não. O mundo é feito de coisas que não são necessárias — pense em doces, iPhones, arte, ar condicionado. E mesmo assim precisamos bastante delas.

Preocupação social no design pra quê? Design nem serve para nada.

Preocupação social no design pra quê? | Peça transfóbica veiculada como se nada estivesse errado. Mas oi? Leia mais sobre o caso aqui.

É importante ressaltar que, por mais que o design não esteja diretamente ligado a salvar vidas, ele está intrinsecamente conectado à qualidade de vida. Um bom trabalho de sinalização te poupa tempo e previne acidentes de carro. Uma boa campanha de design social ajuda a derrubar preconceitos e alertar o público. Uma boa identidade visual fala com o público certo e sedimenta negócios. Eu poderia dar milhares de exemplos, e todos os milhares de exemplos recaem na simples ideia de que o design constroi um mundo melhor e torna nossas vidas mais fáceis.

Trabalhar com design é extremamente cansativo. Somos desrespeitados pelos clientes, pelo público leigo, por outros “designers”. Ouso dizer até que um dos maiores desafios do designer atualmente seja ser visto (e pago) como o profissional que é. Infelizmente, a única solução que resta a mim e a todos companheiros de labuta é insistir — por salários melhores, por maior compreensão do ramo, por tudo.

Um dia a gente chega lá. #
* Faço aqui uma pequena seleção dos comentários mais significativos.

“No Brasil esse curso é uma piada. É hobby, não é graduação. Nunca vai ter piso nem sindicato para este tipo de curso hobby. Vai fazer PRONATEC que será melhor representado e terá salário melhor. Vai solda navio geração Y. Capinar lote.”

“Metodologia =Maconha. Projeto= CTRL+C . PESQUISA= GOOGLE”

“kkkkkkkkkkkk designer , outro dia um sujeito mim (sic) cobro 50 a hora para fazer um cartão de visita.. Achei um absurdo, fui pra casa e baixio (sic) o corel e não gastei nem 20 minutos pra fazer.”

 

Paula Cruz

Paula Cruz

Paula Cruz é carioca e profissional em formação de design na UFRJ. Paralelamente aos estudos, constroi projetos autorais que unem design, texto e pesquisa, tais como livretos, cartazes e contos ilustrados.

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