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Gosto é que nem c*?

Por Paula Cruz

Em minha sina como designer, a beleza é mais do que um costume: é uma obrigação. Almeja-se o belo. Vejo-me, então, diariamente no impasse entre o bom e o mau gosto. Acompanha este impasse a diferença entre o brega e o sofisticado, bizarro e vanguardista, bonito e feio. Todavia, o que define esta linha tênue por vezes se configura num capcioso abismo estético.

Aliás, estética é uma palavra travessa. Se você diz, por exemplo, que estuda estética corporal, você fala a respeito de beleza física e seus respectivos cuidados, tais como maquiagem, ginástica, etc. Se sua mãe fala que está pensando em fazer uma decoração estética na sala, ela usa o termo como adjetivo, como uma qualidade. Quando sua professora de História da Arte B explica estética expressionista, você está ouvindo o termo de maneira substantiva, como um conjunto de características que forma um estilo. Há ainda o conceito filosófico, ramo no qual se estuda racionalmente o belo e o que este causa nos homens.

Entretanto, a etimologia da palavra não é ligada diretamente ao senso de beleza. Estética é a “faculdade do sentir”. Dessa forma, podemos falar que estética é, sobretudo, o jeito que percebemos o mundo ao nosso redor.

Podemos percebê-lo como Platão, que acreditava na forma perfeita, provinda de uma essência ideal. Por mais que haja o caráter sensível do belo, estaríamos, conforme o filósofo, reféns do “belo em si”. Este é um conceito revisitado em alguns momentos da humanidade, como no modernismo suíço – o que é a Helvetica para os modernistas senão a essência mór da tipografia? Penso, entretanto, se este pensamento onde há um a busca pela “beleza perfeita” não tem um viés perigoso, onde beira-se o extremo radicalismo da forma.

A forma ideal | Helvetica é a Garota de Ipanema da tipografia.

A forma ideal | Helvetica é nossa Garota de Ipanema tipográfica. Se a tipografia está no mundo das ideias como uma forma, ela é a Helvetica – pelo menos, é o que pensam os modernistas.

Isto é o que ocorre no classicismo, onde criam-se regras para definir o fazer artístico a partir da beleza ideal. Vem à tona uma estética normativa: o objeto é bonito (ou feio) porque sim e pronto. Não há interação do sujeito ou usuário; a coisa é bonita e é isso. Fim de caso. Lembra-se da teoria da Gestalt?

Ao contrário da veia classicista, os filósofos empiristas acreditam que gosto é que nem c*. David Hume, um dos maiores pensadores da vertente, defendia a ideia de que o (des)gosto não têm realmente um porquê, já que o belo reside nas condições de recepção do sujeito. É amor, pura e simplesmente, e isto basta. Você não tem que se defender porque acha suas cangas do Romero Britto lindas, oras. Ninguém tem nada a ver com isso.

Kant, ao tentar superar o impasse da objetividade classicista e da subjetividade empírica, afirma que o belo “é aquilo que agrada universalmente, ainda que não possamos justificá-lo intelectualmente”. O juízo estético é, então, sentimento do sujeito, e não uma característica do objeto analisado. Há algo de universal neste julgamento subjetivo, visto que sempre analisamos algo parcialmente. Sendo assim, o belo seria o resultado de nossa expressão subjetiva. Como diria Anäis Nin: Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos.

Mesmo briefing, diferentes visões | A mesma foto foi enviada para vários países com o mesmo briefing: torne a garota da foto bonita.

Mesmo briefing, diferentes visões | A mesma foto foi enviada para vários países com o mesmo briefing: torne a garota da foto bonita. O tratamento da foto demonstra como cada cultura enxerga a beleza de maneira diferente, confirmando o que Kant pensava: vemos o mundo como somos. (fonte: Hypeness)

Hegel, em seguida, introduz o conceito histórico na perspectiva estética: a beleza muda de face e aspecto através dos tempos. Esta mudança, este devir depende mais da cultura e da visão de mundo vigentes do que da experiência interna do sujeito.

O jeito como a sociedade vê a beleza do corpo feminino muda no decorrer dos anos. Até 1950, as mulheres ícones de beleza eram voluptuosas e curvilíneas. Ao mudar o panorama da moda nos anos 60, Twiggy converteu o padrão de beleza feminino para um magro co

A mudança do padrão de beleza | Até 1950, as mulhers ícones de beleza eram voluptuosas e curvilíneas. Ao mudar o panorama da moda nos anos 60, Twiggy converteu o padrão de beleza feminino para um corpo magro e reto.

Numa perspectiva mais atual, o viés fenomenológico considera o belo a imanência total de um sentido sensível. A beleza ocorre porque tem algo de autêntico, prova seu destino, porque é singular. Não cabe mais a ideia de um único valor estético, pois cada objeto estabelece seu próprio tipo de beleza. É a diversidade do belo.

Deste modo, é possível ver beleza na feiura, tanto na representação do ideal “feio” quanto na forma de representação mal feita, que acaba se tornando feia. No momento contemporâneo, onde a mímese perdeu seu sentido e as possibilidades são infinitas, o torto é atraente. É aquela pessoa que você sabe que não é lá nenhum modelo de Hollywood, mas que mesmo assim você acha linda.

Frida Kahlo - "O cervo machucado" (1946) | A obra de Frida Kahlo é de uma estranheza sem tamanho. Grande parte de seus quadros é tem algo de torto, brutal e desproporcional. Mesmo assim, acho lindo.

Frida Kahlo – “O cervo machucado” (1946) | A obra de Frida Kahlo é de uma estranheza sem tamanho. Grande parte de seus quadros tem algo de torto e brutal. Mesmo assim, acho lindo.

Num mundo onde o vive-se desfile das aparências, a feiura é um assunto que incomoda. Como designer, é meu principal inimigo no processo criativo. Mesmo assim, tenho espreitado o que me enerva para entender o que considero bonito. De uma forma ou outra, o feio serve ao propósito estético – anda lado a lado com o belo.

Paula Cruz

Paula Cruz

Paula Cruz é carioca e profissional em formação de design na UFRJ. Paralelamente aos estudos, constroi projetos autorais que unem design, texto e pesquisa, tais como livretos, cartazes e contos ilustrados.

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