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E existe certo e errado, afinal?

Por Isabela Fuchs

Somos seres críticos e vemos defeitos nos outros muito mais fácil do que em nós mesmos, e isso é fato. Profissões nas quais habitam pessoas com o ego inflado então, nem se fala, e a partir daí fica muito fácil criticar por motivos banais em vez de simplesmente ter uma opinião. Falar que não gosta porque é feio é extremamente frágil e não emite opinião alguma. É tipo criança xingando a outra de boba. Não ofende.

No campo estético as coisas ficam ainda muito mais fáceis de serem criticadas ou supervalorizadas, uma coisa bem extremista mesmo: “Van Gogh gênio, Vik Muniz bosta, Arial Bold ridículo, Frutiger daoríssima”. Mas… bem… às vezes… assim… isso não soa como se fosse uma repetição de uma opinião de massa que quer ser contra a massa? Exemplifico: quantas pessoas que não leram Paulo Coelho dizem que é ruim? Eu, particularmente, não gosto e nem odeio… Acho que ele é só mais um. Às vezes falar que tal coisa é uma ofensa aos olhos, que a música é horrível, que o jeito do cara escrever é ruim, é só uma maneira de continuar indo a favor da maré.

Afinal: porque você odeia Romero Britto e ama Irmãos Campana? Provavelmente alguém ditou que Romero Britto é ruim porque é uma arte superficial e sem profundidade e que Irmãos Campana propõem um design brasileiro lúdico super irreverente colocando uns jacarés de pelúcia numa cadeira. E, convenhamos: ninguém falava mal do Romero Britto há uns dois anos atrás. Talvez você que fala mal dele hoje tenha comprado as Havaianas dele e a caixa de Omo Progress que ele estampou há 10 anos atrás porque achou “fofo”. É uma luta maisntream contra o mainstream e que não acaba nunca.

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A arte contemporânea é extremamente complexa. Tipo, extremamente. Uma Merde d’Artiste, cachorro apodrecendo e mulheres peladas expostas em um canto do museu são ovacionadas pela sua profundidade de conceito, a abertura a reflexões em âmbitos além do puramente estético, mas históricos, filosóficos, psicológicos… Enfim. É permitido qualquer coisa desde que com uma certa licença poética e um conceito muito massa. E eu concordo que o Romero Britto não abra um debate pra ninguém, não. Ele é um artista puramente pop, num outro sentido, não da pop art. Ele é o cara que faz caixinha da Omo Progress, é o cara que estampa sapatilha e case de Iphone  e a galera compra muito mesmo “porque é “fofo””, “porque é brasileiro”. Eu, particularmente, não gosto de Romero Britto simplesmente porque ele é o aglomerado humano do que existe de ruim na arte. É puramente um argumento de venda e sem sensibilidade alguma. Mas deixem o cara fazer o trabalho dele e pintar a família do Didi, oras. Usar o argumento de que você não gosta do Romero Britto porque é comercial e repetitivo, só digo uma coisa: Avião-D’Os-Gêmeos. O problema não é ser comercial e repetitivo, exatamente. É a falta de sensibilidade.

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Mas agora delimitar que existe uma arte boa e uma arte ruim é uma espécie de equívoco. O meu argumento é de que arte deve ser sensível e instigante de alguma maneira, pro bem ou pro mal, tanto faz. E por instigar eu digo o sangue bem vermelho dos quadros do Goya, os movimentos maravilhosos da Op Art, a técnica e as cores do Matisse, o povo do Portinari, os penetráveis do Oiticica e outras coisas maravilhosas que se vê. E essa sensibilidade a gente sente por repertório de vida, por nós mesmos. Então criticar alguém que acha Romero Britto legal como ignorante ou, sei lá, como alguém de mal gosto, é justamente criticar a própria arte em si. Porque as formas e as texturas do Romero Britto podem criar um paralelo com uma experiência profunda da pessoa (QUEM SABE?). Delimitar “certo” e “errado” na arte, atualmente, é uma profunda burrice. Não existe espaço para o erro na arte contemporânea e não existe uma tabelação de “arte boa” e “arte ruim”.

Podemos sim gostar ou não gostar de determinado movimento, de uma obra de um artista ou afins. Como disse no começo do post, somos seres críticos e, complementando, visuais. Fica muito fácil olhar para algo e dizer “não gostei”. Mas o que importa de fato é ter a argumentação e, novamente, a sensibilidade. Arte, no final das contas, não é algo comercial e tem muito mais a ver com o que é sentir e ser. É se deparar com uma obra e falar sobre o que você sente, independente de técnicas, cores ou movimentos. Mas críticas mal embasadas não servem de absolutamente nada, tanto para o bem quanto para o mal.

Isabela Fuchs

Isabela Fuchs

Estudante de Design na UTFPR. Apaixonada por História da Arte, mas também nutro paixões paralelas como Design Editorial, Design de Embalagens e Tipografia.

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