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Quino: o homem que também criou a Mafalda

Por Dario Jofilly

Assim que eu recebi a notícia de que o Quino havia ganho o prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2014, abri um documento em branco e comecei a escrever. Minto, primeiro tive que pesquisar que prêmio é esse. No caso, são várias categorias de premiação por parte da Fundação Príncipe das Astúrias a trabalhos que promovam valores científicos, culturais e humanísticos. Anualmente o próprio Príncipe das Astúrias, Herdeiro da Coroa da Espanha, vai lá, entrega o prêmio, um diploma, uma medalha, uma bela duma grana e uma escultura do Miró. Ou seja, não é pouca coisa.

Parabéns Quino!

Parabéns Quino!

Na categoria já mencionada, o Quino ganhou (muito mais do que merecido). Mas antes que alguém exalte a Mafalda, a comemoração dos seus 50 anos e lembre daquela tirinha super engraçada que alguém leu naquela aula de redação, eu levanto meu dedo e digo que não, peraí. O trabalho dele é muito mais vasto e maduro do que o universo Mafalda e muito menos conhecido do que devia.

Olha pra esse moço gente

Olha pra esse moço gente

Foto de Dario Lopez-Mills em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2010/05/741360-criador-de-mafalda-fala-de-pausa-criativa-e-diz-nao-ter-pressa-de-voltar.shtml

Quino, na verdade, se chama Joaquín Salvador Lavado e é argentino, filho de espanhóis. Desde pequeno é chamado pelos familiares pelo apelido para distingui-lo de seu tio, Joaquín Tejón, de quem não apenas herdou o nome, como a profissão de artista independente. “Cansado de dibujar ánforas y yesos”, ele larga a Escola de Belas Artes de Mendoza em 1949 e se dedica às histórias de humor por dez anos antes de conseguir algum reconhecimento.

Estudos de nu do Quino

Estudos de nu do Quino

Mafalda, em fato, surge como personagem infantil para uma campanha publicitária que não deu certo em 1964 pra marca Mansfield. Depois com um certo apoio na publicação das tiras, Quino explora mais a personagem e dali pra frente temos o prazer de acompanhar o cotidiano da menina, seus pais e amigos. Cotidiano este, vale sempre lembrar, repleto de questionamentos mais ou menos profundos da realidade social, cultural, política e econômica que marcou a década de 60.

Ah, esses petralhas

Ah, esses petralhas

Em 1973, entretanto, Quino para de produzir histórias com as personagens de Mafalda. A escolha de aposenta-los parece vir muito da intenção de evitar repetições e o desgaste de um universo tão rico. Como o quadrinista afirma, Mafalda é um trabalho de menos de 10 anos em uma carreira de mais de 50. Em algumas dessas entrevistas, podemos até interpretar a relação dele como uma mágoa, mas isso fica a critério de cada um.

Pero, repito, Mafalda me frustró como dibujante. Sin embargo, a veces le tengo cariño, otras veces le tengo rabia

A obra completa de Quino é composta por cartuns, charges, quadrinhos, desenhos, trabalhos gráficos de um humor muito refinado, sem se dedicar a personagens específicos e sempre com algum cunho político. Como o próprio autor fala em entrevista à Folha de S. Paulo, sua mira é sempre o poder.

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Para atingir seu alvo, Quino nos deleita com o uso dos mais diversos recursos gráficos e narrativos: da metalinguagem ao surrealismo, de simples sequências narrativas a complexos quadros de ação. Em todos seus trabalhos, se destacam as linhas de expressão e um olhar agudo para os acontecimentos do cotidiano humano.

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Quando Quino cita suas influências, menciona de tudo, desde o artista medieval holandês Bosch ao ilustrador francês Jean Jacques Sempé, passando por outros tantos como o também francês Chaval, os argentinos Lino Palacios e Divito, o norte-americano Saul Steinberg e o amigo brasileiro Ziraldo. São notáveis os motivos do humor mudo, as tendências ao desenho limpo e a busca por traços expressivos.

Ilustração de Sempé para “Le Petit Nicolas”

Ilustração de Sempé para “Le Petit Nicolas”

Do outro lado da linha do tempo, temos também a influência do seu trabalho na obra do argentino Liniers, fã declarado de Quino, que também tem uma obra muito popular, vasta e diversificada.

Enriqueta de Liniers lendo Mafalda de Quino

Enriqueta de Liniers lendo Mafalda de Quino

Oscilando entre o traço simples e o detalhe barroco, Quino tem um processo muito particular, e parece estar passando por uma pausa criativa. Desenha isolado, em silêncio, com muito cuidado e parece evitar  computadores e tecnologias do gênero. Em sua busca por um humor atemporal, silencioso e ácido, cada traço é essencial para transmitir sua mensagem.

Os olhos, repare nos olhos!

Os olhos, repare nos olhos!

¡No logro entender cómo es posible que a veces tengo que borrar 15 veces un puntito hasta que sale con la expresión que quiero darle!

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Opa, Copa?

Opa, Copa?

No Brasil, além das várias edições da Mafalda, ainda é possível encontrar volumes do trabalho mais adulto do argentino. Como sempre, todos os links citados estão abaixo e aconselho fortemente todas e cada uma das entrevistas mencionadas. Sem medir palavras, posso dizer que Quino é um gênio, uma inspiração que sempre me fez rir e sempre me faz pensar.

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Dario Jofilly

Dario Jofilly

Quase se formando em (quem diria?) Publicidade e Propaganda pelo curso de Comunicação Social da UnB, se pergunta como vai conseguir sobreviver e continuar estudando design, arte e imagem. Enquanto isso, aproveita a experiência única que é viver em Brasília.

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