designfail

De designer e louco…

Por Diego Silvério

A prática dos pitacos não é exclusividade do designer, isso é fato. Economistas, arquitetos, estilistas, políticos, técnicos de futebol (e dos demais esportes) entre outras profissões passam pelo mesmo problema. Sempre tem alguém que, naquela roda de bar ou naquela discussão acalorada de almoço no domingo, acha que entende da conjuntura econômica brasileira e acredita piamente que poderia substituir o Ministro da Fazenda. Não vamos entrar no mérito da atuação do atual ministro ou da performance da economia, porém não é na mesa do almoço que vai surgir a solução mágica para tudo.

Quando você, que estudou em uma faculdade por anos ou que atua no mercado também há alguns anos, diz que é designer para um grupo de pessoas, fatalmente abre espaço para que alguém possa dizer que também é “criativo” e já usou e abusou dessa “criatividade”. Não quero dizer aqui que é pra você esconder dos seus amigos, conhecidos e até desconhecidos a sua formação, porém isso acontece eventualmente. Com esse discurso leigo surge um alerta: design significa somente criatividade?

Ao buscar uma definição ou significado para design, encontramos um mar de referências, cada uma mostrando o seu parecer sobre essa função. Acredito que uma publicação da Fastcompany possa nos ajudar:

DESIGN: (noun) a specification of an object, manifested by some agent, intended to accomplish goals, in a particular environment, using a set of primitive components, satisfying a set of requirements, subject to some constraints.

Ao avaliarmos a definição proposta por Paul Ralph e Yair Wand, encontramos alguns termos interessantes, tais como objetivos, ambiente particular, requisitos e restrições, que podemos fazer uma relação direta com planejamento e projeto. Sem um planejamento prévio e um projeto bem estruturado, podemos atender a demanda de um cliente? Sem objetivos claros, com requisitos e restrições, podemos ter um bom resultado? Diante dessas perguntas, algumas respostas podem surgir tais como “sim, eu fiz um layout em uma noite para um cliente” ou “claro, já pensei em um produto durante o banho”. Não estou desafiando a criatividade de ninguém, muito menos a capacidade de uma pessoa ser criativa durante seu banho, mas vou mostrar aqui algumas pérolas para provar que as coisas podem sair do controle.

Da mesma forma que um projeto comum pode falhar por falta de planejamento, o designer pode cometer o mesmo erro em seus projetos. Se levarmos em consideração algumas etapas de projeto, podemos identificar algumas etapas importantes que podem evitar sérios problemas no resultado final.

Referências

Ao definir de forma clara e objetiva um escopo de projeto, por onde começar e onde se quer chegar, entramos numa etapa de busca de informações e referências para o projeto. Essas informações são dados de entrada para que o projeto possa ter uma base, um norte para onde ir e onde não ir, evitando assim referências equivocadas. Para quem lembra do seu projeto de conclusão de curso, ou já fez alguma pesquisa científica, sabe da importância de se fazer uma pesquisa de referências bem estruturada. Para ajudar a estruturar sua pesquisa de referências, selecionei algumas perguntas do universo científico:

  • Qual é o problema principal da sua pesquisa?
  • Quais são as palavras-chave?
  • Quais são as linhas de investigação e fontes que serão usadas?
  • Quais linhas não serão usadas ou serão descartadas?
  • Qual será a extensão da pesquisa?

Qual foi a fonte de referências desse brinquedo?

 

Método

Mesmo trabalhando com a criatividade como um dos fatores de projeto, precisamos de um bom método. Alguns designers torcem o nariz e evitam etapas rígidas dentro do projeto, com o argumento de que isso pode “matar” a criatividade. O fato é que, com um bom método, podemos evitar uma série de possíveis problemas e chegar a um resultado satisfatório de forma efetiva, com tempo otimizado e sem retrabalhos. Não vamos discutir aqui qual é o melhor método, normalmente eu indico o modelo do PMI, mas também existem vários nomes dentro do design como Bonsiepe, Löbach, Bürdek, Bomfim, Baxter, Munari, entre outros. Entenda esses modelos e escolha o que você se adapta melhor.

Designfail

Será que aqui teve método?

Multidisciplinaridade

Se na equipe de um projeto só tiver uma formação, você terá o resultado sob o ponto de vista desses profissionais. Se só tivermos arquitetos, teremos uma visão única de arquitetura. E se só tivermos designers? Normalmente ouvimos aquele discurso de que o designer é polivalente e consegue abordar diversos aspectos de um projeto, mas nada garante que um designer tem uma visão holística do problema e não podemos desconsiderar o poder de uma equipe multidisciplinar. Se eu tenho múltiplos pontos-de-vista sobre o mesmo problema, a minha chance de abordar o maior número de aspectos do projeto aumenta, diminuindo assim a chance de um problema passar despercebido.

Caso da formação das equipes na IDEO 

Análise de Riscos

Muitos profissionais desmerecem a análise de riscos, sendo essa uma etapa crucial. Ao iniciar um projeto, precisamos entender quais são os pontos mais críticos e criar planos de ação para resolver ou evitar que eles aconteçam. É aquele remédio que pode parecer ruim, mas vai evitar que sua dor de cabeça fique maior. Nesta hora, vale envolver qualquer tipo de falha: será que tenho todos os recursos para o meu projeto? Será que a transportadora vai entregar o que eu preciso? Será que o fornecedor atende os meus requisitos? Claro que você não vai abordar todos os aspectos do projeto, mas vale entender quais riscos impactam na atuação do designer. Para começar essa análise, vale algumas perguntas aqui também:

  • Qual o risco que pode afetar meu projeto?
  • Qual o contexto desse risco?
  • Qual a probabilidade dele acontecer?
  • Se acontecer, qual será o impacto no meu projeto?

Será que alguém percebeu esse risco no projeto?

Finalizando…

Os tópicos anteriores são alguns pontos do projeto que podemos dar mais foco e evitar possíveis erros ao longo do desenvolvimento. Mesmo em projetos complexos com grandes equipes existe a possibilidade de algum erro passar sem ser percebido. A ideia aqui é evitar ao máximo que algo possa prejudicar seu projeto, abordando ao máximo os fatores que envolvem o planejamento e a execução, e não limitar a criatividade da equipe.

Se você procurar por “designfail” no Google, vai encontrar muitos exemplos de projetos que tiveram resultados duvidosos. Faça o seguinte exercício: faça uma busca, pegue alguns exemplos e tente entender o que pode ter acontecido de errado. Você poderá se surpreender com algumas análise e ver que poderiam evitar. Mesmo em métodos mais estruturados e regrados, existem momentos certos para usar as ferramentas criativas e para analisar de forma crítica o resultado.

Diego Silvério

Diego Silvério

Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), vencedor de prêmios nacionais e internacionais e já desenvolveu projetos para a Intelbrás, Linde, Tigre, Nokia e HSBC. Hoje é designer da Whirlpool e se aventura dentro das áreas de negócios, estratégia e economia.

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