Another Earth e o espelho quebrado da identidade

Por Marcos Beccari

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Os biólogos têm investigado coisas cada vez menores. E os astrônomos, coisas cada vez mais distantes nas sombras do céu noturno, voltando no tempo e no espaço. Mas talvez o mais misterioso de tudo não é o menor nem o grande. Somos nós, bem aqui. Poderíamos nos reconhecer? O que realmente gostaríamos de ver se pudéssemos ficar diante de nós e olhar para nós mesmos?

Rhoda, estudante recém-ingressada no MIT, dirigia sozinha de noite quando olhou para o céu e avistou um planeta maior que a Lua e muito parecido com a própria Terra. Distraída, ela avança o sinal fechado e bate contra outro carro, matando uma criança e a mãe da criança; o pai sobrevive, após um longo período em coma. Por ser menor de idade, Rhoda é sentenciada a apenas quatro anos na prisão e, ao ser liberada, consegue um emprego de faxineira num colégio local.

Paralelamente, cientistas descobrem que realmente se trata de uma nova Terra, igual a nossa, que passou milênios “escondida” por trás do Sol, no mesmo circuito de translação da Terra. Mais do que isso, surgem provas de que tal planeta é habitado pelas mesmas pessoas daqui, como uma espécie de espelho perfeito que então se revela imperfeito (por ser reconhecido como espelho). Alguma corporação abre um concurso para levar uma pessoa da nossa Terra para a outra, sendo a única tarefa para concorrer escrever por que você deveria ir. Rhoda submete o seguinte texto:

Quando os navegadores europeus partiram do oeste para cruzarem o Atlântico, a maioria das pessoas pensava que o mundo era plano. A maioria pensava que se você navegasse para o oeste, cairia em um abismo sem fim. Estas embarcações à vela que navegaram rumo ao desconhecido não carregavam nobres ou aristocratas, artistas ou comerciantes. Eram tripuladas por pessoas vivendo no limite da vida. Loucos, órfãos, ex-presidiários, párias… como eu. Como uma criminosa, sou uma improvável candidata para a maioria das coisas. Mas talvez não para esta. Talvez eu seja a mais indicada.

Ao mesmo tempo, a protagonista procura pelo pai daquela criança que morreu no acidente. Descobre que ele era um célebre compositor que passou a viver em depressão profunda, recluso em sua própria casa. Apresenta-se a ele como funcionária de uma empresa de faxina doméstica e começa a limpar sua casa semanalmente, conseguindo melhorar aos poucos o humor do ermitão. A partir disso, oportunamente constatamos que a ficção científica serve apenas como pano de fundo para uma reflexão sobre a identidade que se instaura na dissolução do eu.

I. O que vejo acrescentado das palavras que estão por cima do que vejo

Another Earth (Mike Cahill, 2011) aparentemente não foi bem recebido pelos críticos brasileiros. Nas poucas resenhas elogiosas, insiste-se em reforçar o tema da redenção – uma “segunda chance” representada pelo planeta onde tudo poderia ser diferente etc. A crítica recorrente, por sua vez, reduz o mote fictício a uma metáfora mal resolvida sobre “destino”, como se todo o enredo se limitasse a um drama barato de uma garota que, sufocada pelo remorso, tenta colar os cacos quebrados de sua vida ao invés de aceitar seu passado e presente.

Fico atentado pela simplista impressão de que os críticos se detiveram no título, que de fato foi infeliz – a outra Terra é apenas um pretexto, nem de longe a questão principal. Se fosse, teríamos apenas uma versão sci-fi do mundo ideal de Platão, outro “reino” mais verdadeiro que a realidade em que vivemos. Felizmente a realidade é uma só, mesmo que apareça espelhada ali no céu. Quando descobrimos, ainda no começo do filme, que na outra Terra há uma versão alternativa de cada habitante da nossa Terra, um narrador até então onisciente logo nos alerta que:

A verdade é que fazemos isso todos os dias, o dia todo. As pessoas não pensam e nem admitem isso, mas fazem. Todos os dias falam com sua própria mente. O que você fez? Por que fez isso? O que ela pensou? Eu disse a coisa certa? Neste caso, existe um outro “você” por aí.

Não se trata de mundos paralelos. É que cada pessoa não é a mesma a cada circunstância. Uma mulher casada não precisa dizer “sim” a um padre todos os dias; uma vez feito isso, ela certamente pensará consigo mesma, uma hora ou outra, o que teria acontecido se ela não tivesse se casado. As pessoas conversam com “vozes” que só existem na cabeça delas, é uma expressão do pensamento. Muito diferente é acreditar que essas vozes vieram de algum lugar desconhecido, onde seríamos diferentes do que somos. O filme Another Earth não reforça este tipo de ilusão. Ao contrário, o narrador antecipa-nos que não faz diferença se a outra Terra é ilusão ou não.

Qual a importância de outros mundos, outras vidas ou outros níveis de existência se, nesta vida que temos, povoada de ambições, rotinas e preocupações, diariamente ignoramos e passamos despercebidos por diversas pessoas que nunca saberíamos que existem? Uma vida não se restringe àquele que a vive, uma vida é aquilo que circunda a existência daquele que a vive. É o que você olha quando, de dentro de sua existência, enxerga o que está fora dela. E o que está fora? Nada além outras vidas que se cruzam e desaparecem como um borrão de luz. Ao experimentarmos tal vertigem, essa dissolução de mundo torna-se potência para identidade.

Em nossas experiências cotidianas, a continuidade do “eu” pode chegar a ser tão espectral como a do “outro”, ou tão fantasmagórica como qualquer abstração capaz de controlar nossas condutas, desejos, pensamentos ou um suposto destino. Hoje você desvaloriza seu parceiro, amanhã ele vai embora e assim se torna a pessoa mais importante da sua vida – o eu e o outro já não são mais os mesmos.

Analogamente, estamos sempre à procura de outro alguém/mundo supostamente melhor que este, e de outro eu, supostamente mais íntegro e menos imperfeito que este. Mas sabemos que não se escapa de ser si mesmo, então acreditamos que podemos transformar quem somos, o outro e o mundo em que vivemos, construindo assim uma identidade sólida.

Só que tal identidade, definida como conjunto de características que se mantém relativamente estável e que constituiria uma suposta “unidade do eu”, existe somente na medida em que agimos como se ela existisse. Seu status é semelhante ao de uma causa ideológica como o comunismo ou o patriotismo: é a “substância” das pessoas que nisso se reconhecem, o fundamento de toda a sua existência, o ponto de referência para qualquer significado. No entanto, a única coisa que realmente existe são pessoas e suas vidas, de modo que o próprio eu apenas coincide consigo mesmo na medida em que acreditamos nisso e agimos de acordo com isso.

II. Parabéns, você não é o 999.999.999º leitor a parar de ler este texto!

No filme, tanto Rhoda quanto John (o compositor ermitão) passam por um processo de perda de identidade, só que de formas distintas. O que aconteceu no passado é inaceitável para John, pois lhe impediu de ser quem ele deveria ser, de modo que morrer não faria diferença mediante a impossibilidade de constatar que ao menos se viveu alguma coisa. Já o que angustia Rhoda não é quem ela deveria ser, mas antes de tudo sua não-identidade, sua não existência neste mundo e nesta vida. Quem busca por redenção, portanto, é John e não Rhoda. Redenção como se ele fosse injustamente sentenciado a carregar um fardo que não lhe pertence. Por sua vez, Rhoda procura apenas um reflexo, alguma imagem que coincida com ela mesma, confirmando sua existência.

Ocorre que o sentimento de identidade pauta-se justamente na não coincidência do eu consigo mesmo. Grosso modo, conseguimos ver somente os outros, nunca a nós mesmos. Nossa imagem no espelho é uma falsa evidência porque ela mostra não o eu, mas um inverso, um reflexo, “outro eu”. Narciso não se reconhece no espelho; apaixona-se por seu reflexo e não por si mesmo. Após fazer uma cirurgia plástica, a madame se sente mais “ela mesma” não por causa de sua nova imagem, mas por causa de algum ideal de beleza socialmente aceito. Ou seja, a identidade não coincide com quem ela identifica uma vez que não podemos ver quem somos, podemos apenas vivenciar isso que somos a partir do que os outros veem.

No conto “O Espelho” de Machado de Assis vemos a figura de um ex-alferes que, recluso em casa após ter sido privado do reconhecimento social e familiar, veste diariamente sua farda de alferes e contempla a si mesmo durante meia hora em frente ao espelho. O personagem então desenvolve uma teoria da alma humana com base na seguinte tese: “somos o papel que desempenhamos na sociedade”. Dito de outro modo, entre o eu que somos para nós mesmos e o que somos para os outros, o primeiro eu é apenas um reflexo projetado pelo segundo. Logo, o que vivenciamos como “eu”, de maneira singular e subjetiva, não passa de uma arbitrária e intercambiável ressonância que a imagem por nós refletida encontra na sociedade.

A imagem espelhada da outra Terra, no filme, representa a paradoxal ocasião em que cada um de nós é intimado a aprovar ou desaprovar, como resultado de nossa escolha, o que de todo modo nos foi imposto: cada nova ocasião em que nos encontramos, sempre diferente das anteriores, e nossa própria existência como um todo. Esse paradoxo de desejar (escolher livremente) o que não nos foi dado a escolher, de fingir (mantendo as aparências) perante os outros que há uma livre escolha embora efetivamente não haja, coaduna-se com a noção de um espelho cego destinado a refletir o que nele queremos ver. John e Rhoda, pois, enxergam coisas diferentes no mesmo céu.

Tal como o homem torna-se a imagem de um Deus que o próprio homem criou à sua imagem e semelhança, John relega a si próprio ao reflexo de uma identidade ideal que ele mesmo projetou e que, estando ausente, leva-o à reprovação e à indiferença para com a ocasião em que se encontra. Rhoda, entretanto, renuncia a seu próprio passado (de estudante) em benefício de uma ocasião desconhecida e totalmente nova. O trabalho de limpeza escolhido após sair da prisão não expressa uma vontade de consertar ou apagar o passado. Antes disso, trata-se de um labor manual que serve para “tatear” o que aparece no escuro. Aliás, quem quer se livrar de um passado traumático é, na verdade, o faxineiro idoso do colégio onde ela trabalha, que ensurdece e cega a si mesmo com produtos de limpeza – Rhoda o visita no hospital e escreve “forgive” na mão esquerda dele.

Perdoar o outro e a si mesmo, de modo incondicional, pressupõe aprovação do que não foi escolhido. Aos poucos, Rhoda percebe que não necessita a todo custo de um reflexo tangível e visível para reconciliar-se consigo mesma – no fim do filme, ela ganha aquele concurso para conhecer a outra Terra e doa sua passagem ao John. Quer dizer, mesmo restando a desconfiança de que, em outro mundo, Rhoda estaria mais feliz do que neste – o “mais gozar” lacaniano aqui armado contra o próprio eu –, ela se dá conta de que tal expectativa já lhe foi imposta de modo contingencial, como uma falsa redenção que sabota sua própria possibilidade. Por conseguinte, ela percebe que entre aquilo que ela poderia ser (em outro planeta) e o que aqui ela representa socialmente (uma faxineira ex-presidiária) não há dois mundos, mas um único.

III. Algum de vocês ouviu falar em lobotomia? Não tem nada a ver com chapeuzinho vermelho, já vou logo avisando.

Por isso não importa se a outra Terra é ilusão ou não. Importa o espelhamento simbólico que se acentua, naqueles que a observam, sob a forma de duas ilusões identitárias: a crença de que o eu independe de seu reflexo social, como se houvesse um self oculto por trás das aparências; e a necessidade de um eu ideal predestinado a ser o que deveria ser, e que acaba funcionando como fiador de uma existência injusta. Deste modo, ainda que por um caminho inverso, Another Earth retoma a ênfase que Nietzsche atribui à aparência. A aparência do que somos e do que é o outro não vale menos que uma suposta verdade, pois a verdade é uma invenção tanto quanto a aparência, tendo esta a vantagem de ser uma ficção que se sabe como tal.

Nietzche insistia em dizer que os deuses morreram, mas que morreram de rir ao escutarem um Deus dizendo que era o único. E morte deste Deus que se dizia único é ela própria plural, um acontecimento cujo sentido é múltiplo. Não existe um acontecimento, um fenômeno, uma palavra ou um pensamento cujo sentido não seja múltiplo. Qualquer coisa é tanto isto como aquilo, consoante às situações (ou deuses) que dela se apoderam. A interpretação adquire profundidade quando o intérprete percebe que um sentido só pode aparecer e apropriar-se de um objeto ao atuar, desde o início, como máscara dos significados que se arranjam a cada instante.

Por sua vez, Lacan utiliza o termo “significante” de modo muito preciso: não é simplesmente o aspecto material de um signo (em contraposição a seu significado), mas um traço, uma marca que reflete aqueles que o significam. Sou o que sou não somente pelos significantes que me representam, mas à medida que, através deles, sou interpretado. Seguindo o mesmo raciocínio, Another Earth ou qualquer outro filme não é apenas representação de um “modelo de mundo”; se existe alguém que se propõe a assistir, o próprio filme é um espelho. O reflexo me permite enxergar-me diante da compreensão de mundo ali arranjada, ampliando assim meu próprio reflexo no e através do mundo. Nos termos de Ricoeur, aquilo que um texto “diz” ou que seu autor queria dizer não importa tanto quanto o diálogo que se abre no espelhamento da leitura e que dela extrai sentidos que não estavam ali antes da mesma.

A questão a ser levantada, então, é como se encontra um eu no espelhamento interpretativo que se gera ao procurá-lo. Em primeiro lugar, não há como distinguir entre intenção e acidente em nós: somos a diferença de um mesmo eu. Creio que foi Rimbaud o primeiro a dizer, em Uma estação no inferno, que “o eu é um outro” – enunciado que, na superfície de sua retórica, sintetiza a paradoxal conformação da identidade a partir da dissolução do eu. Em Another Earth, esta questão me parece imbricada na “Teoria do espelho quebrado”, apresentada ao final pelo astrofísico fictício Richard Berendzen (cuja voz pertencia ao até então narrador onisciente).

Na imensa história do universo, que tem mais de 13 bilhões de anos, a nossa Terra tem uma réplica em outro lugar. Mas talvez haja outra maneira de ver este mundo. Se alguma pequena variação surge, se eles olham de uma forma e você olha de outra, talvez tudo mude subitamente e então você começa a se perguntar: o que mais é diferente? Ou pode-se dizer que se tem uma imagem perfeita de um espelho que de repente é quebrado, e há uma nova realidade. E lá se encontra a oportunidade e o mistério. O que mais? O que é novo? E agora?

A ideia é que, no momento em que vimos a outra Terra pela primeira vez, o paralelismo com o nosso mundo foi rompido (e o espelho foi quebrado). Tirando a parte do mistério e da oportunidade, trata-se da mesma lógica da “diferença pela repetição” de Deleuze: a repetição (ou paralelismo) somente faz advir a diferença (ruptura) no reconhecimento (do espelhamento) da repetição. Se não vemos a repetição, nada muda. Se a vemos, ela não cessa de repetir-se, mas nossa relação com ela muda. De forma análoga, a identidade aparece não na repetição de um mesmo eu, mas na diferença que advém do reconhecimento de um mesmo eu que se repete. Sutil é enxergar o novo que aparece no eterno retorno: o que muda é a intensidade, como se o eu continuasse igual e ao mesmo tempo nunca tivesse se reconhecido da mesma forma antes.

IV. O hipotálamo é a parte mais importante do sistema límbico.

Mas o que é que se repete afinal? A diferença de cada nova situação em relação às anteriores e na qual o eu sempre se encontra, quer eu as aprove ou não. Se eu aprovar, serei um, se não aprovar serei outro. O sentimento de identidade (diferença singular de um mesmo eu) se dá pela linha de fuga que traçamos quando reconhecemos o mesmo eu se repetindo a cada ocasião. A dissolução do eu é na verdade uma dissolução da repetição do eu, da ideia de algum “espírito verdadeiro” em mim. Semelhante dissolução é operada por Rhoda ao narrar a história do cosmonauta russo enquanto John sofria com mais uma de suas enxaquecas:

O cosmonauta russo é o primeiro homem que foi ao espaço. Certo? Os russos ganharam dos americanos. Ele sobe naquela enorme espaçonave, mas a única parte habitável é bem pequena. Então o cosmonauta lá dentro vai até a janela, olha para fora, e vê a curvatura da Terra pela primeira vez. O primeiro homem a ver o planeta de onde ele veio. E ele está encantado com este momento. E de repente um estranho barulho – toc… toc… toc… – começa a sair do painel. Ele remove o painel de controle, destrói seus instrumentos tentando encontrar o som, tentando parar o som. Mas não consegue encontrar. Não consegue parar o barulho, que continua. Em poucas horas, começa a sentir o barulho como uma tortura. Alguns dias se passam com este som, e ele sabe que este pequeno ruído irá acabar com ele. Ele irá enlouquecer. O que ele vai fazer? Está lá em cima no espaço, sozinho, em uma capsula espacial. Ainda lhe restam 25 dias para retornar ao solo, com este som. Então o cosmonauta decide que a única maneira para salvar sua sanidade é se apaixonar por aquele som. Então ele fecha os olhos, penetra em sua imaginação e depois os abre. Ele não escuta mais aquele barulho.

Ele ouve música.

Assim como a transformação em música do barulho irritante que acometia o cosmonauta, a dissolução do eu não é exatamente uma fuga, no sentido de renunciar a preocupações e responsabilidades. Trata-se de criar ativamente uma ruptura, fazer com que alguma coisa se dissolva e, com isso, seja outra coisa. Pois a identidade é um devir-outro, é ultrapassar fronteiras ainda dentro de seu próprio eu, é fugir traçando linhas sem necessariamente sair de seu lugar. Mesmo se repetindo sem cessar, o eu deve tornar-se outro para si mesmo, espelhando-se e apaixonando-se pelo reflexo que aparece sempre numa nova configuração, ressonância, interpretação.

Sou eu mesmo, sou realmente eu que vivo? Não há como saber – como se isso tivesse alguma importância mediante o próprio viver. Nossa singularidade não possui garantias de existência e só por isso mantém-se singular. O mesmo se dá em nossa relação com o outro: sabemos que por trás de cada rosto há somente carne grudada em ossos, mas é o rosto que importa, enxergamos apenas aparências e expressões que refletem o que queremos ver. Ao olharmos repetidamente para uma mesma pessoa, podemos enxergar outra. É a coincidência do outro com o eu que sempre se repete, só que por meio de circunstâncias e relações sempre diferentes.

V. Os famosos dois corpos que não ocupam um mesmo espaço encarregar-se-ão de erguer as paredes para que o labirinto fique mais acolhedor a que desejar manter-se lá dentro.

Em seu famoso texto “O estádio do espelho como formador da função do eu”, Lacan argumenta que, em nossos primeiros anos de vida, a função do eu surge da imitação imperfeita que fazemos do outro – imperfeita porque tal apropriação é feita sempre e inevitavelmente ao nosso modo. Tentamos repetir gestos alheios e, ao nos reconhecermos fazendo isso, nos reconhecemos diferentes do outro a quem imitamos. A questão é que não há um eu que precede seu próprio reflexo, há apenas um “em relação a”. Mesmo quando estamos a sós conosco mesmos, ainda resta algum outro relacional tomado como que por empréstimo.

Acredito que a “outra Terra” é apenas um reflexo de como olhamos para nós mesmos. Por mais que tentemos ser aquilo que imaginamos que somos, segundo nosso desejo de que fôssemos outro, criando um duplo imaginário que acreditamos que no fundo somos ou deveríamos ser e ao qual nos esforçamos para nos adequar, continuamos sob o rastro de um mesmo reflexo que se repete. Esta outra Terra, portanto, sempre existiu. Ela aparece, por exemplo, na utopia dos “relacionamentos abertos”: ao invés de amar a diferença que advém da repetição de um mesmo outro, procura-se a diferença literalmente num outro diferente, necessariamente refletido num eu que não reconhece a repetição contingencial de uma mesma solidão desaprovada de antemão.

A própria identidade é como um rótulo abstrato, uma voz fantasmática que pode ora nos cobrar ora nos impedir de aprovar o que somos. Mas é somente por meio dela que mantemos e podemos afirmar a diferença do que somos enquanto continuamos sendo. Acreditamos que somos uma imagem coerente que supostamente o outro fará de nós, ou que a imagem que ele fará de nós denunciará se ainda somos ou não quem um dia fomos. Acontece que, por um lado, se a identidade não esconde nada nem se funda sobre nada (ela atua por empréstimo, por imitação), a perda de identidade, por outro, nada mais é do que a repetição cega de um mesmo eu irreconhecível a si mesmo por não corresponder ao que esperava ser.

Logo, a obsessão por uma identidade plena inverte a própria lógica identitária: investe-se cegamente na repetição do eu (e do outro, por tabela), deixando de enxergá-la como potencial diferença. Exemplo disso é a noção “esclarecida” de que a Ideologia atua de maneira absoluta (pela religião, pela mídia, pelo poder etc.) no tecido cotidiano e que somente a “vanguarda” estaria imune à sua ação – assim, a identidade passaria a portar uma fantasiosa missão histórica de redenção do povo. Ora, não há como redimir alguém de algo de que ele não sabe, neste caso de uma identidade com a qual ele nunca se identificou (alienação é efeito, nunca causa). Mesmo a sensação de perda da identidade só ocorre porque se crê que ela existe, ou que deveria existir em algum lugar ou em alguém, e que deveríamos descobrir qual é a nossa, como é, o que ela é.

Em última análise, o sentimento de identidade nunca é propriamente convergente ao eu, uma vez que este eu nunca é visível, somente singular. Identidade é quase como efeito colateral da não visibilidade do eu para si mesmo, algo como dançar sem poder pensar no próximo passo, apenas continuar dançando para não cair no chão. Se estou escrevendo um texto e me pergunto em que consiste meu “estilo de escrita” ou quem estou tentando parecer escrevendo, não consigo mais escrever. Foi seguindo este princípio que John, no fim do filme, pega a passagem de Rhoda e viaja até a outra Terra: ele teve que deixar de pensar sobre si mesmo, despojando-se de uma identidade ideal como condição de ação para colocar-se à altura do encontro com seu outro eu.

Este encontro representa a dissolução do eu: o reconhecimento de que, mesmo se tudo que aconteceu comigo acontecesse de novo, da mesma forma como aconteceu, ainda assim seria diferente. Uma nova identidade então aparece na transição de um eu que é sempre novo e sempre outro para si mesmo, dissipando em mil pedaços as intensidades que o trouxeram até aqui, num eterno retornar indistinguível de um passo adiante: eterno retorno da diferença. Se não houver este “retornar-adiante”, o presente se torna mera repetição não percebida como tal, reafirmando as mesmas identidades e conservando velhos hábitos preestabelecidos.

VI. No exato momento em que a vida suspensa pelos fios do absurdo caiu das alturas e mergulhou no asfalto quente que a refletia no céu.

Em suma, a ideia de uma Terra que de repente aparece refletida no céu é tão pesada quando o mínimo ruído que não cessa de se repetir. O cotidiano geralmente é associado ao repetitivo, ao idêntico, previsível, conhecido, rotineiro, seguro, controlado, aborrecido, vivido. A identidade, por sua vez, é o sentimento de ser o único, o diferente, o imprevisível, o desconhecido, o excepcional, o ansiado, o pleno. De um lado, temos a repetição, de outro, a ruptura. Another Earth demonstra como essa dicotomia é falsa: o espelho somente funciona quando não se sabe o que é que espelha o quê. Um ruído repetitivo não é o contrário de silêncio ou música, pois a diferença não consiste em olhar a mudança, mas em mudar o próprio olhar em relação àquilo que se repete.

Claro que há outros elementos no filme que desconsiderei até aqui: o romance impossível entre Rhoda e John, os sentimentos de culpa e fatalidade, a entrega gratuita de Rhoda, o simbolismo do instrumento musical de John (este serrote não é um serrote) etc. Quanto a isso tudo, devo brevemente comentar que a ideia de uma identidade ideal, embora inútil à vida, é indispensável quando se procura justificar ações e escolhas com base em algum critério moral (verdade, honestidade, justiça etc.). Trata-se da crença do livre-arbítrio, isto é, o dogma de uma identidade coerente em si mesma responsável não somente por seus atos, mas também pelas intenções presumidas que deles seriam a origem. Mas se tal fundamento só existe porque agimos como se ele existisse, como argumentei antes, igualmente o remorso, o arrependimento e a possibilidade de uma “segunda chance” atêm-se ao nosso olhar – e o filme revela-se como espelho.

O filme que assistimos é um mesmo filme, assim como o mundo em que vivemos é um mesmo mundo; o que muda é a relação que temos com este filme e com este mundo. Podemos interpretá-los de diversas formas, mas antes disso escolhemos aprová-los ou desaprová-los tal como a nós se apresentam. O que se aprova ou não, em última instância, é a irredutível ambiguidade dos sentidos que retornam rearranjados em dado momento, que espelha todos os outros. Talvez a maior das ambiguidades seja a do próprio eu, este ponto cego destinado a apagar-se tão fortuitamente como um dia nos apareceu. Se somente conseguimos afirmar o que somos pagando o preço da dissolução do eu, na dissipação de sua ilusória coerência, permanência e coesão, o espelhamento das coisas que se repetem – sempre em novas intensidades e configurações – é o artifício que temos para fazer retornar o eu como outro.

Marcos Beccari

Marcos Beccari

Doutorando em Educação na USP, designer gráfico e mestre em Design pela UFPR. Professor substituto no curso de Bacharelado em Design Gráfico na UFPR. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional que organiza o real. Além de atuar como professor e pesquisador, coordena o blog Filosofia do Design, integra o podcast AntiCast, é membro do projeto "Cinema e Educação: tela, espelho e janela" (USP-Fapesp) e colabora com outros blogs/revistas de design e comunicação.

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