Tipografia É Coisa De Gente Grande - Entrevista com Eduilson Coan

Design Livre
Frederick van Amstel Entrevista com:

Eduilson Coan

Lettering: Aline Pimentel
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Q: Primeiramente vou pedir para você se apresentar para os ouvintes:

Me apresentando rapidamente. Eu sou formado pela PUC do Paraná em Design Gráfico, trabalhei uma média de 8 anos com Design Gráfico, tive escritório, trabalhei um pouco com freelancer, e fazem dois anos que estou trabalhando apenas com Type Design. Eu tenho um escritório chamado DooType e, basicamente, eu trabalho para dois públicos: o mercado de varejo, que são licenças de fontes e projetos customizados para clientes do Brasil, empresas maiores, projetos feitos sob medida.

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Vamos começar com uma pergunta básica, qual a diferença do desenvolvimento de uma tipografia e um lettering. Qual seria o termo correto?

"Eu entendo tipografia como um arquivo digital. O lettering pode ser apenas algumas letras, desenvolvidas para uma marca. Enquanto a caligrafia é feita num traço único."

Eu entendo tipografia como um arquivo digital, acabamos chamando mais de fonte, isso seria pra mim tipografia. São vários termos, acaba ficando um pouco confuso, mas acho que podemos entender assim: tipografia é uma fonte digital, e o lettering pode ser apenas algumas letras, desenvolvidas para uma marca. A gente pode colocar até caligrafia no meio disso tudo também, então são três vertentes, tipografia, lettering e caligrafia. O lettering pode beber, por exemplo, da caligrafia, pegar um pouco da questão gestual da caligrafia, mas pode sofrer refinamentos depois, e eu acho que isso torna ele um lettering. Enquanto a caligrafia é feita num traço único e já é aplicado, aquilo é caligrafia. E uma tipografia acaba sendo um fonte digital, onde tem muito mais caracteres para serem desenhados, então tem mais de 500 glifos, tem acento, tem alfabetos, você pode desenhar latim, cirílico, grego. Isso aí você tem numa fonte, tipografia. No lettering é uma coisa de uma frase, de uma marca. Basicamente é isso.

Lettering/Caligrafia e Tipografia
Diferenças de Lettering, Caligrafia e Tipografia
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Temos visto bastante, e a internet acaba ajudando nisso, que as empresas estão fazendo muitos trabalhos com lettering, com tipos. Existe um crescimento nesse ramo do design?

Acho que são duas vertentes: uma que a gente consegue ter profissionais qualificados nessa área. Nos últimos dez anos, o aumento pela procura de cursos de tipografia e pelo ensino de tipografia foi maior, então a gente tem profissionais oferecendo esse tipo de trabalho e a gente também tem a questão do cliente querer uma coisa que é pessoal, que é uma coisa única na comunicação, então você tem que se diferenciar de alguma maneira. Eu acho que essa questão de ter esse lettering pessoal, que só você vai ter, é o passo a mais que o cliente hoje está querendo.

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Nós designers, sabemos o que é uma fonte, quem nunca entrou na discussão: Helvetica, Comic Sans. O designer sabe entrar no DaFont e pegar um tipografia ou FontSquirel. Mas qual a dificuldade da produção de um fonte, quanto tempo leva, o que você leva em consideração para produzir um tipo para vender pro varejo?

"Tem outros projetos que, por exemplo um que eu posso citar, é a Família da Unimed, que é um sistema tipográfico que são três famílias de fontes que formam um sistema tipográfico da Unimed. Foram quatro meses e meio de trabalho, então é bem extenso."

Depende da extensão do projeto, antigamente era muito difícil. Como eu trabalhava com design e tipografia, criar um fonte demorava um ano. Agora, com fluxo de trabalho mais aplicado nisso, nos últimos dois anos eu consegui criar um. Cada typedesigner vai ter seu método de fazer, eu tenho um método e criei um fluxo de trabalho que eu consigo entregar alguns projetos, depende da extensão dele, mas às vezes é uma família de texto. Eu consegui fazer agora um projeto, o último projeto que eu fiz, em quarenta dias. Tem outros projetos que, por exemplo um que eu posso citar, é a Família da Unimed, que é um sistema tipográfico que são três famílias de fontes que formam um sistemas tipográfico da Unimed. Foram quatro meses e meio de trabalho, então é bem extenso. Isso são dois casos de tipografias customizadas, então o set de caracter, quando você passa o briefing com o cliente, a gente tem um acordo das línguas que a fonte vai atender. Então basicamente, para esses dois clientes, era o português e acaba, por consequência, o inglês e mais alguma língua caindo junto. Quando eu faço um projeto pra venda no mercado exterior, esse set de caracter tem que aumentar muito. Então aqui, às vezes, eu desenvolvo um set básico com 250 caracteres, e para o mercado exterior meu set básico tem mais de 500 caracteres. Tem fonte que eu criei com mais de 1.000 caracteres. Isso só considerando o latim, mas você pode crescer para o sirílico, para o grego, e você vai aumentando ainda mais isso. A complexidade é bem grande, e são várias áreas. Na hora de criar você tem que pensar no desenho, questão do espacejamento, são etapas do processo que demandam um tempo bem específico e um cuidado de revisão para cada.

Unimed Sistema Tipográfico
Unimed Sistema Tipográfico
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Aqui no mercado brasileiro - não sei dizer lá fora - é meio que desvalorizado o Type Design, não?

"Não, nem acho que é desvalorizado, ele é desconhecido apenas. Tanto que eu fiz dois projeto esse ano que foram bem valorizados pelo cliente."

Não, nem acho que é desvalorizado, ele é desconhecido apenas. Tanto que eu fiz dois projeto esse ano que foram bem valorizados pelo cliente. Só que o Brasil tem um atraso no ensino de tipografia muito grande, comparado até com países da América do Sul. O cresimento da tipografia no Brasil, nos últimos dez anos foi espetacular. A gente agora está começando a ter muitos type designers que se fomaram fora e estão voltando para o Brasil. Tem empresas, como a Dalton Mag, que se instalaram no Brasil e estão conseguindo fazer esse crescimento e conscientização do cliente da importância da tipografia. Mais nessa linha, se conscientizaram da importância daquilo. Acho que sempre foi muito naquela questão de conheço essa fonte, aquela tipografia ali, como a última coisa. Agências em São Paulo tem cargos específicos, do cara ser só um consultor tipográfico dos projetos. Então imagina, há cinco anos atrás não era sonhado isso. E outra coisa também que eu posso falar que há três, quatro anos a gente nunca sonharia em trabalhar exclusivamente com tipografia no Brasil. Agora, eu posso falar que eu só faço isso da vida, e uma coisa que era um sonho bem distante, tipo em dois ou três anos, já se tornou bem possível. Então, é muita conscientização, é com o tempo que o designer vai aprendendo que o que soma, é ele pagar um pouquinho numa licença de um fonte e comprar uma tipografia. Tipografia quase que exclusiva, porque se ela é usada aqui e usada no Japão, o cliente se torna exclusivo e pro designer que faz um trabalho quase que único. É bem mais pessoal que pegar um fonte no DaFont, que você encontra em qualquer panfleto de pizzaria e coisas assim. É mais educação, a gente melhorou bastante na questão de educação com cursos no Brasil inteiro. Tipocracia foi um que o Henrique Nardi, que fez cursos em diversas cidades no Brasil, foi ensinando o básico da tipografia, curso introdutório. Então isso foi muito bom para o mercado tipográfico. E do mesmo jeito que leva pessoas a criarem tipos, leva designers a acreditarem naquilo. Ou seja, faz os designers comprarem aquela ideia, comprarem tipografia, se preocuparem com essa questão. O mercado tem melhorado bastante, e a questão da preocupação do cliente com aquilo. Antigamente, era só com fotografia, só com ilustração. E, agora, a tipografia tem seu espaço.

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Quando eu fiz o seu workshop, você falou uma coisa interessante. Com relação, por exemplo, do fechamento de uma revista com uma tipografia sua, você não entrega o arquivo aberto porque, para você a tipografia tem um custo. E você não vai, simplesmente, dar o arquivo para o cara fazer o que quiser com a fonte.

"Porque quando você compra uma fonte, você não compra por projeto, você compra por escritório. Quem comprou a fonte pode usar para vários projetos."

Como funciona a questão de licenciar um fonte?! O escritório pode comprar uma licença, ou pessoa física ou freelancer, compra a licença da fonte. A licença serve para, depende do contrato de cada uma, basicamente, de uma a cinco máquinas com uma licença. Aí, com duas licenças vai para 25 máquinas e assim por diante. Pelo menos o meu contrato é parecido com isso. Eu instalo e entrego a parte gráfica que eu fiz. Se o cliente quer a fonte, ou outro escritório vai querer trabalhar no mesmo arquivo, eu indico o site para ele também comprar aquilo. Porque quando você compra uma fonte, você não compra por projeto, você compra por escritório. Quem comprou a fonte pode usar para vários projetos. E eu entendo, na verdade, a questão de comprar fonte como uma coisa, é um valor agregado ao trabalho. Quem vai gastar com tipografia não pode considerar aquilo um gasto excessivo. Ele não pode pensar "Ah, mas isso vai tomar 30% do orçamento ou 10% do orçamento do trabalho". Ele vai usar em vários trabalhos, então isso tem que ser quase um custo como um telefone no escritório, um custo do telefone, custo da luz. Você investir um pouco em tipografia por mês, é 1% do lucro do escritório. Se o escritório ganhou R$ 10.000,00 por mês, ele gastou R$ 100,00 em tipografia. Já é um valor que ele consegue a cada mês adquirir uma família nova, consegue criar uma biblioteca que o escritório vai ter uma identidade, também por causa disso. Acho que tudo se agrega, e penso que a parte de entregar o trabalho em .PDF, e não aberto, é mais por questão de evitar um pouco a pirataria. A fonte, arquivo digital, parece muito simples, mas ela dá quatro ou cinco meses de trabalho, às vezes até mais para quem fez. Então, tem um trabalho ali que tem que ser respeitado de alguma maneira. Acredito que é tudo conscientização , não adianta ficar se batendo muito em pirataria. Eu já vi muito site com fontes minhas piratas.

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Qual a sensação de ver um site usando sua fonte pirata?

"Tem um contrato que quando o cliente compra esse arquivo digital, ele tem que seguir aquele contrato."

Estava todo mundo pedindo fontes minhas e eu respondi que tinha todas. Aí a galera pediu para mandar, e eu disse que não. Você não tem como controlar uma licença mesmo. Tem a questão contratual, cada foundry que eu revendo. A DuoType lança fontes, mas eu vendo por várias outras foundrys, como MyFonts, HypeForType, FontSpring. Então esses, cada site meio que controla, tem um contrato que quando o cliente compra esse arquivo digital, ele tem que seguir aquele contrato. Mas tem casos e casos. Tem casos muito escancarados de uso de fontes piratas que renderam processos milionários, mas é bem raro. E no Brasil é bem difícil também.

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Se a pessoa está querendo entrar no mercado de TypeDesign, seja como lettering, como letrista, existe um caminho para se seguir?

Acho que questão básica de tudo, acho que eu acabei fazendo o processo inverso, é entender um pouco da questão caligráfica. Então, tentar entender um pouco da caligrafia, da história da caligrafia, depois vai cair um pouco pra tipografia. A caligrafia vai te dar um base muito grande na questão de contraste e você vai aprender vários estilos na caligrafia e ali verá todas as questões de contrastre, de peso, espaço de caracteres. Então, praticar caligrafia é muito interessante, e eu faço isso até hoje. Nunca vou querer me tornar um calígrafo, mas a questão de pegar aquela proporção que você usou no papel, que a pena fez, e depois na tela ver que aquilo bate. Quando se está desenhando, aquele ajuste ótico que você tem no papel, você também faz na tela. É o básico, facilita muito. Sofri muito porque eu não fiz isso. E depois é aprender a questão de programas vetoriais: Illustrator, que é o básico para o pessoal usar para questão de criação, mas tem programas específicos para questões de tipografias e letterings, que são bem melhores: FontLab e o Glyphs. Eles são bem melhores na ferramenta de desenho, então se tem uma consistência no desenho, é muito melhor. Daí questões técnicas, de como vetorizar cada coisa que acho que requer um pouco mais de treinamento mas é, e treinar, não tem segredo. O que você faz hoje e acha super bom, no mês que vem você já acha que aquilo está um pouco torto e mês que vem você está fazendo melhor. Então, em tudo é assim, não só na tipografia. É o treinamento que vai fazer você ficar bom naquilo que você faz.

"Tentar entender um pouco da caligrafia, da história da caligrafia, depois vai cair um pouco pra tipografia. A caligrafia vai te dar um base muito grande na questão de contraste e você vai aprender vários estilos na caligrafia e ali verá todas as questões de contrastre, de peso, espaço de caracteres."
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Uma das coisas que eu acho que a tipografia acaba tendo, é esse treinamento bem pesado porque ela é bem focada em detalhes, pequenos pontos, ajustes que fazem a diferença.

Gosto mais ainda da questão da fonte mais bem vetorizada. Não gosto muito daquelas fontes tipo grunge, gestual. Então é mais difícil ainda é quando você desenvolve projetos, você tem que combinar todas as letras perfeitamente em questão de contraste, de espacejamento. Isso é bem difícil de fazer, mas é questão de tempo mesmo, tem que ficar atento. A questão de tipografia é ficar atento em eventos de tipografia que eu posso citar para quem tem interesse: DiaTipo está acontecendo, e virá gente de fora, gente da Holanda, dos Estados Unidos, da Argentina, um grande evento com dois dias de palestras, dois dias de workshops. Então isto é bem interessante para quem gosta do tema. Até pra completar, tem o Vincent Connare, criador da Comic Sans - ele estará presente no evento, e quem gosta da Comic Sans pode ir lá.

13:40min

Queria agradecer

Para quem está querendo entrar nessa área, pesquise sobre caligrafia, tratamento de vetores e participe de alguns workshops que acontecem no Brasil. Acho interessante estar sempre antenado, no tempo que eu comecei na tipografia não tinha, não existiam cursos, então você acabava ficando muito limitado no conhecimento. Eram poucos livros em português, mas agora já existem vários livros traduzidos, livros muito bons. Então, ao conhecimento já se tem acesso mais fácil agora, é só sentar e trabalhar nessa linha. Queria agradecer também o convite e sucesso nessa semana.

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