Design Livre - Entrevista com Frederick van Amstel

Design Livre
Frederick van Amstel Entrevista com:

Frederick van Amstel

Lettering: Aline Pimentel
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01:15min

Q: Primeiramente vou pedir para você se apresentar para os ouvintes:

Eu sou estudante de Doutorado da Universidade de Twente na Holanda. Já estou aqui faz dois anos e meu tema de pesquisa é design participativo de hospitais. Antes de vir pra cá, no Brasil, eu participei de vários projetos com essa noção de participação, no instituto Faber Ludens - uma ONG de pesquisa na área de de design de interação - trabalhei como consultor para várias empresas. Sou uma pessoa curiosa, não sou formado em design, sou formado em comunicação, mas estudo design já faz bastante tempo. Acredito que o design é uma grande questão de comunicação cultural, mais ou menos na linha do meu trabalho. Desenvolver projetos de design que levam em consideração este aspecto de comunicação cultura, tecnologia. São assuntos que me interessam.

02:16min

A Cliche já falou muito de design livre em suas apresentações, sempre carrega essa bandeira. E nós conhecemos o design livre pelo trabalho do Fred e pelo Instituto Faber-Ludens quando ele estava lá. E eu queria saber onde surgiu o design livre, foi uma criação sua ou já existe um histórico?

O design livre não fui eu que criei não, já existe desde que o ser humano se enxerga como um agente desse mundo, transformando a realidade ao seu redor. Demos um nome de design livre para estudar e discutir sobre o assunto. Mas o design livre é o design basicamente que já existe muito tempo, adicionamos o termo livre para especificar não estamos falando do design institucionalizado, que vira uma profissão, que é uma atividade de muitos poucos. Quando falamos de design livre, queremos dizer que este design é possível de ser feito por qualquer pessoa.

“Quando falamos de design livre, queremos dizer que este design é possível de ser feito por qualquer pessoa.”

O contexto quando começa usar esse nome, data aí do final de 2009. No Instituto Faber-Ludens estávamos desenvolvendo projetos que chegavam nesse tema, fazíamos várias pesquisas com usuário, tentávamos melhor o design dos nossos alunos. E descobrimos que o usuário também faz design. Se o usuário também faz design, o que nós fazemos? Por que fazemos? Vimos vários projetos que desenvolviam em cima dos produtos que elas estavam usando que podiam ser considerados também design. Começamos chamar essa tentativa de integração de pensar o design depois do projeto, pensar o projeto como contínuo, que envolve o uso, com o termo do design livre. Não sou o criador do termo que deu o nome para esse processo foi o Rodrigo Gonzato, que era um dos nossos alunos.

04:15min

O Gonzato participou com uma entrevista da Cliche N2 sobre design crítico.

O design crítico e o design participativo são duas fontes super importantes para o design livre. O design participativo fala que os usuários podem fazer parte do processo de design. Eles tem uma metodologia bem prática. E o design crítico, ele vai por outro viés, ele tenta falar que o design pode ser uma questão cultural fazemos um comentário sobre nossa cultura no nosso projeto. O design livre é uma mistura destes dois, com uma terceira fonte que é o software livre.

Glossário


Design Participativo

Considera o usuário um participante importante no processo de criação. Encara as adaptações ou "gambiarras" produzidas por ele ao utilizar o objeto, ações criativas que podem ser absorvidas. O usuário não é um mero consumidor.

» Design Participativo e Software Livre

Design Crítico

Termo culhado por Anthony Dunne, nos anos 70, aborda artefatos de design como comentários sobre a sociedade. Provoca o descompasso e cruza os limites culturais com o intuito de questionar e apresentar um novo olhar.

» Projeto de Design Crítico: Tem Jeito

Software Livre

Filosofia no qual o código fonte está disponível ao público em geral para o uso e/ou modificação de seu design original. O código é normalmente criado colaborativamente, compartilhando cada mudança dentro da comunidade.

» Olhar digital Software Livre
04:56min

A ideia de poder compartilhar metodologias, formas e processos de design?

“Processos é a palavra, porque no design livre a gente focaliza muito abrir o processo de design para partipação.”

Processos é a palavra, porque no design livre a gente focaliza muito abrir o processo de design para partipação, e oferecer a abertura do código fonte é só uma parte da nossa proposta. Quando começamos a pensar design livre surgiu também a noção de open design que não é a mesma coisa. O design livre é mais amplo, o open design vai falar que o design tem que ser aberto, tem que usar software livre, tem que usar fabricação em 3D e compartilhar o código fonte. Mas isso para nós não é suficiente, por isso não traduzimos o open design como design aberto, traduzimos como design livre. Design livre no Brasil tem um escopo maior que o open design no exterior. Assim como o software livre, isto é interessante que falamos software livre, mas não falamos código aberto. E no exterior se fala open source mais do que free source. Tem uma questão etimológica, do free significar gratuito. No Brasil não tem esse problema, livre não é gratuito, ele tem a ver com liberdade e é esse o ponto principal que enfatizamos. Todo mundo pode projetar

16:18min

Uma das questões desta metodologia de abrir o design, quando você vai tentar levar o design livre para um lado mais prático, sempre gera o porquê de aplicar o design livre. Quais as vantagens para a comunidade de design se houvesse essa metodologia de ser aberto, abrir processo e ir atrás de mais escopos participativos?

“O design livre tem muito foco na prática, não é só um discurso bonito, temos vários projetos que tentam realmente mudar o mundo com essa proposta de relevância social no design.”

A principal vantagem é a relevância social. O design, hoje, está sofrendo um crise terrível, por ser um dos principais agentes da poluição, consumo de recursos naturais desnecessária. E também a frivolidade dos projetos que participamos como designer profissional. O que somos requisitados, o que a sociedade vê valor no nosso trabalho é para fazer coisas fúteis. O design entra como valor agregado, não é um valor. As pessoas que trabalham com design gostam de acreditar que são mais que isso. E o que entregamos é muito menos do que prometemos. Vejo muitos designers frustrados com isto, no começo da sua carreira você não sabe muito bem o quanto isto vai te apegar. De repente você se vê perguntando para que, cadê a mudança no mundo que eu acreditava, que o design me fez crer quando estava na faculdade lendo um texto bacana? O design livre tem muito foco na prática, não é só um discurso bonito, temos vários projetos que tentam realmente mudar o mundo com essa proposta de relevância social no design.

08:05min

Até o próprio livro “design livre” teve todo um projeto utilizando as ideias que ele defende.

Não dá pra falar que existe uma metodologia em design livre, a ideia em si é que existem várias metodologias de design e o design livre é sua liberdade de fazer sua própria. O que fizemos foi pegar um problema, uma situação que não sabíamos como trabalhar. Você quer condensar todas as discussões que estavam acontecendo no Faber-Ludens que não era de uma pessoa com uma outra, mas de muitas pessoas e queríamos sintetizar isto num livro. Aí sim vimos um método, o booksprint, onde praticamente você junta todo mundo numa sala, tranca por uma semana e escreve ao mesmo tempo um texto colaborativo, usando ferramentas como o Google Docs, no nosso caso usamos o EtherPad, que leva a questão do software livre. E as informações não ficam lá guardas e fechadas no Google. E inclusive ver palavra por palavra como o livro foi crescendo. Se você ver o histórico, vê com o texto foi surgindo, cada pessoa uma cor diferente. O texto vira um arco-íris. Foi um processo de descobrir, o design livre tem muito de experimentar novas abordagens, tentar desenvolver uma forma aberta, compartilhando suas descobertas.

Livro Design Livre
Design Livre Livro
09:45min

Você conhece o designer de web, Brad Frost, que defende muito a questão do design responsivo e ele está cada vez mais defendendo a ideia de abrir totalmente seu processo. Recentemente, eles começaram a fazer o redesign de um site de banco e abriu o cronograma, todas as etapas, como ele está fazendo cada coisa. Como é o processo de converter o layout do site para o HTML, sem a caixa a preta para no final dar aquela frivolidade em tudo que ele fez. Várias vezes o que acontece é que as pessoas estão comentando, por ser um pop star da internet, gerando discussão no meio do processo. Qual a relação disto com o design livre?

“E design livre pode ser muito mais do que isso, porque outras pessoas podem pensar diferentes, colocar outras perspectivas dentro deste termo.”

A comunidade web, de webdesign é uma das comunidades que mais trabalham com a abertura de processos. Você vê que a maioria do pessoal não é formado em design, eles iniciam como micreiros e esse pessoal compartilha informação à beça, eles não tem aquela visão corporativista do design: "Não vou entregar meu processo, se não vou perder meu emprego". O webdesign é uma comunidade bem aberta, onde teria um início de uma semente de um novo tipo de design, do exemplo que você deu, que é um exemplo de vanguarda que vai atingir outras áreas. O open design é essa onda de abertura de processo batendo nas costas do design de produto, que praticamente está parado no tempo. Ele não evolui que uns 20, 30 anos. Simplesmente reproduz uma mesma forma de desenvolvimento de produtos baseado em estilos de vida, só que o mundo hoje não está mais baseado em estilos de vida. É uma visão que não funciona mais no mercado de consumo. O open design é uma tentativa de dar uma vida nova, um fôlego ao design de produto.

12:12min

Fica aqui um espaço aberto a falar sobre o design livre e incentivar os ouvintes a explorar mais este universo, que é uma bandeira que a Cliche levanta e quanto mais pessoas tiverem essa noção, mais evoluções teremos nessa área.

O design livre não é o que eu estou falando, é o que agente está conversando. E design livre pode ser muito mais do que isso, porque outras pessoas podem pensar diferentes, colocar outras perspectivas dentro deste termo. E está aberto para esta proposta. Pensar design em uma forma mais ampla, abrangente, deixando um pouco de lado as questões disciplinares, corporativistas. Pensando como podemos desenvolver um design que tenha relevância social para resolver as questões maiores e grandiosas da nossa sociedade que há muito tempo tem sido negligenciadas pela comunidade do design. Hoje, as pessoas que são profissionais do design, aproveitem a oportunidade do design livre para vir e trocar ideias para pensarmos como fazer o design ser mais relevante para nossa sociedade, incluir mais pessoas que não são profissionais de design, e como tornar esses entusiasmo em projetos reais que fazem a diferença no nosso mundo do dia dia.

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