Design e Gênero - Entrevista com Marinês Ribeiro

Gênero no Design
Marines Ribeiro Entrevista com:

Marinês Ribeiro

Lettering: Aline Pimentel
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02:05min

Q: Primeiramente, vou pedir para você se apresentar:

Falar da gente é sempre complicado. Eu sou a Marinês, professora do curso de Bacharelado em Design e de Tecnologia em Design Gráfico da UTFPR, trabalho também no Programa de Pós-Graduação e Tecnologia da UTFPR, onde desenvolvo pesquisas nas relações entre cultura, material e gênero. E na graduação trabalho com a disciplina de Design e Cultura, tanto para o curso de Tecnologia em Design Gráfico tanto quanto para o curso de Bacharelado em Design.

03:30min

Dê uma introdução sobre o que seria esta questão de gênero, como você enxerga e aborda este tema nas suas pesquisas e no seu enfoque teórico.

Primeiro eu queria dizer que a abordagem teórica que eu adoto é afiliada à linha de pensamento construcionista, ou seja, eu entendo que as feminilidades ou as masculinidades não são atributos próprios do corpo, não é algo que nasce conosco, são noções construídas cultural e históricamente acerca destes corpos sexuados nos quais habitamos o mundo. Ou seja feminilidade e masculinidade não são entendidas como caracterísctas ontológicas, mas sim como investimentos que fazemos no dia dia, em práticas cotidianas. Investimento no sentido de identificação das pessoas na direção de determinados tipos de feminilidade e masculinidades. Por exemplo, se eu escolho usar um salto alto e uma blusa decotada eu estou investindo em um tipo de feminilidade específica diferente de eu usar uma calça jeans, um tênis e uma camiseta. Então são tipos de feminilidades e masculinidades, porque são múltiplas, são plurais no quais a gente investe dependendo da ocasião que estamos vivendo. Neste sentido não é uma feminilidade e masculinidade que podemos perder. Porque não é algo que eu tenho a priori, mas é algo que tenho que investir no coditiano, como uma pessoa que detêm um certo tipo de masculinidade ou feminilidade. Agora o que acontece com esses investimentos, é que eles também são regulados culturalmente, ou seja, existem sistemas de normas, de classificações que definem os contornos e estabelecem os limites para esses investimentos. Existem padrões considerados adequados ou como aceitáveis para mulheres e homens em termos de comportamento, interesses, atividades, gostos, usos do corpo, gestualidades ou mesmo nas questões de relacionamento afetivos e é nesse ponto que o gênero se encontra com as relações de poder.

"Gênero é um conjunto de discursos e práticas e também de artefatos que atuam na construção do que entendemos por masculino e feminino."

O que eu entendo como gênero é um conjunto de discursos e práticas e também de artefatos que atuam na construção do que entendemos por masculino e feminino, do que se entende por homens e mulheres que também são categorias que podemos pensar como não naturais. São significados sempre relacionais, pois a definição de um depende da definição do outro. E esses significados estão sempre em disputa do que é classificado normal na nossa sociedade e o que é classificado como desviante. Podemos dizer que o genêro, do ponto de vista do discurso hegemônico, atua na produção de sujeitos ajustados na norma heterossexual no meio de discursos, práticas e artefatos que acabam regulando e disciplinando os corpos. Mas também podemos pensar nas práticas de resistência, no ponto de vista contra-hegemônico podemos pensar no gênero como algo que pode atuar como instrumento de contestação das normas, de reivindicação de outras maneiras de ser e estar no mundo.

07:19min

Recentemente, tivemos um grande case, com grande repercussão na questão design e gênero. Foi o caso do Kinder Ovo que fez uma ação especial para a páscoa lançando o produto em duas versões. Eles tinham a versão padrão e mais duas versões: uma azul direcionado para meninos com brinquedos para meninos, e uma rosa para meninas contendo brinquedos para meninas. Gostaria que você comentasse este caso e se existe uma explicação cientifica ao associar azul para meninos e rosa para meninas ou isto é mais um estereótipo social?

A partir desta visão podemos pensar no Kinder Ovo e em outras práticas de design como tecnologias de gênero, dialogando com a teórica Teresa de Lauretis. Há imagens e artefatos e outras coisas que podem fazer parte da nossa cultura material, também podem ser entendidos como formas de marcar a feminilidade e masculinidade, como dispositivos que atuam na construção e no reforço destas noções, que atuam na construção das diferenças entre homens e mulheres. Neste sentido, o Kinder Ovo se encaixa perfeitamente na ideia de Lauretis, de uma tecnologia de gênero. Uma maneira muito comum de estabelecer estas noções do que entendemos do feminino e do masculino é por meio da naturalização de diferenças. Voltando para as questões comentadas anteriormente do que é entendido por aceitável ou não para mulheres e homens em termos de comportamento, interesses, atividades, gostos, usos do corpo, gestualizades e relacionamentos. Porque o universo dos brinquedos é marcado por essas divisões.

Embalagem Kinder Ovo Meninos e Meninas
Kinder Ovo para meninos e para meninas.

09:10min

O Kinder Ovo, em resposta a essa movimentação que teve, comentou que realizou uma pesquisa com seus consumidores e havia reclamações desta falta de separação de brinquedos nas embalagens-padrões. Esta própria crítica veio dos consumidores, reforçando que realmente existe essa marcação de este é um brinquedo feminino, este é um brinquedo masculino.

Existem essas marcações em função destas expectativas sociais em relação a comportamento, interesses e atividades. O que é uma atividade de menina? O que é uma atividade de menino? O que é o interesse visto como próprio das meninas? O que é o interesse visto como próprio dos meninos? Isto não está necessariamente nas crianças e não está necessariamente no brinquedo, a priori, porque percebemos as crianças atravessam estas fronteiras, mas isto está circulando na sociedade no sentido que, como esses brinquedos eles estabelecem determinadas fronteiras e quando existem atravessamentos destas fronteiras, incomoda de uma maneira geral as pessoas.

É preciso explicar heteronormatividade. Temos no universo dos brinquedos uma série de marcações e divisões, mas que não acontece apenas neste universo, mas também veremos isto em roupas e outras esferas da vida social, às vezes muito mais abstratas. Mas vamos pegar o brinquedo que é o nosso mote de exemplo, onde este universo é marcado por divisões do tipo: meninas gostam de rosa, meninos gostam de azul, meninas brincam de bonecas, meninos de carrinho, meninas são comportadas, meninos são agitados, as meninas se importam com a aparência e os meninos são desleixados, as meninas se interessam em questões do universo doméstico e os meninos preferem aventuras. Os brinquedos se estruturam a partir destas organizações binárias e isto de certa forma acaba por naturalizar que as meninas gostam de boneca e os meninos gostam de carrinho. As próprias lojas são setorizadas, divididas em partes. Você entra em uma loja e o vendedor ou a vendedora vem ao seu encontro e pergunta: "É para menino ou para menina?" porque a loja é dividida em duas partes. A própria organização arquitetônica da loja já é uma tecnologia de gênero, algo que está construindo e reforçando diferenças.

12:00min

E quem seria o responsável por esse reforço e por esta construção do gênero?! O design tem participação nisto?!

Pense quando projetamos um brinquedo, embalagem, ilustração ou a própria propaganda que vai veicular esse brinquedo. Se esse projeto, propaganda ou embalagem adere a essas clivagens, a essas divisões, o designer que está projetando não está apenas repetindo um fenômeno que existe no mundo social, o designer está reforçando estes valores e ajudando a construir essas noções de feminilidade e masculinidade também. Quando aderimos a um determinado discurso, ou uma determinada forma de representação ou uma determinada forma de materialidade estamos reforçando, produzindo veículos para que estes valores circulem na sociedade. Não existe possibilidade de neutralidade porque no momento que você projeta o produto que reforça algum tipo de estereótipo, divisão deste tipo, alguma noção de masculinidade ou feminilidade específica, estamos construindo conhecimento sobre gênero e sexualidade. Então os artefatos, as imagens constroem conhecimento, e estão falando de uma certa maneira de ver o mundo. Estão convocando as pessoas que vão ler ou se envolver com a prática do brincar a se posicionar de uma determinada forma frente a estes artefatos, brinquedos. Na vida cotidiana, nas práticas sociais, muitas vezes estes valores hegemônicos que são reforçados por práticas, como esta do Kinder Ovo de dividir brinquedos entre meninos e meninas, muitas vezes são burladas, são questionadas, as pessoas atravessam estas fronteiras. Os meninos podem se interessar pelas bonecas e as meninas podem se interessar pelos carrinhos. Mas aí temos um problema: quando eu falo de construção da diferença, não se trata de negar as diferenças, afinal elas existem e é muito bom que seja assim. O problema é quando as diferenças que existem na sociedade sejam elas construídas, ou não, servem de justificativa para o estabelecimento de relações de desigualdade, quando são usadas para justificar hierarquias, para estabelecerem limites de ação. Aí entramos novamente nas relações de poder.

Embalagem Kinder Ovo Meninos e Meninas
Catalógo da Loja Top Toy na Suécia.

Por exemplo, mulheres são assim e homens assim, meninos gostam de azul e meninas gostam de rosa, eu estou posicionando estas categorias: mulheres / homens, meninos / meninas em pares dicotômicos, em coisas que são antagônicas, como se só houvesse a possibilidade de diferenças, eu não estou considerando nem a possibilidade de igualdade entre elas (meninos e meninas gostarem de azul e rosa) e nem estou considerando as possibilidades das diferenças entre mulheres e homens, então como fica as mulheres que gostam de azul e os meninos que gostam de rosa? Porque existem diferenças de todos os níveis, estes pares, estas suposições binárias só funcionam no nível abstrato, mas são instrumento forte de naturalização destas categorias que a gente entende por masculino e feminino, homem e mulher. Então quando algumas crianças resolvem tensionar as fronteiras do que é presumido como apropriado para elas, elas podem ter problemas no que diz respeito ao julgamento dos outros acerca do seu status de normalidade. Então é neste sentido que podem ter acontecido alguns protestos contra o Kinder Ovo. Como meu filho vai brincar de boneca? Como é que a menina vai usar uma arminha de atirar flechas?

"Quando eu falo de construção da diferença, não se trata de negar as diferenças ... o problema é quando as diferenças servem de justificativa para o estabelecimento de relações de desigualdade, quando são usadas para justificar hierarquias, para estabelecerm limites de ação."

Aliás, quando as meninas atravessam as fronteiras é mais fácil de serem aceitas socialmente, do que o contrário. Quando falamos destas questões temos que pensar, problematizar pelo menos estas duas variáveis no que diz a respeito nestas hierarquia de gêneros, primeira as relações de desigualdades que podem se estabelecer entre mulheres e homens. Por exemplo, a desvalorização de algumas características que são tradicionalmente entendidas como femininas em contraste da positivação de atributos que são entendidos como próprio da masculinidade hegemônica, daquelas questões de emoção vs razão, privado vs público. Tem um exemplo bacana de brinquedos de uma empresa da Suécia, chamada Top Toy, que em função de reivindicação da sociedade, essas questões estão muito ligadas as questões culturas então não podemos deixar de lembrar de onde que esses casos se estabelecem. Então, por exemplo Kinder Ovo aconteceu no Brasil, temos que pensar nas características culturais brasileiras no que diz respeito a entender gênero. Na Suécia teve um movimento contrário a esse, no sentido que é um país que tem uma certa cultura de pensar equidade e igualdade de gênero, a sociedade de certa forma pressionou a empresa a reformular os catálogos de anúncios dos produtos. Então nos catálogos desta loja aparecem meninos brincando de boneca, passando aspirador de pó, meninos secando o cabelo de meninas e aparecem meninas brincando com arma, uma séria de meninas brincando com brinquedos de ação. É interessante de ver isso e perceber como quando colocamos este catálogos que fazem estes atravessamentos dessas expectativas sociais, do que se entende como próprio para meninas e meninos, quando colocamos isto em sala de aula no Brasil as pessoas estranham muito. Quando é um menino com a arma na mão é naturalizado, é assim mesmo e não tem problema.

18:30min

Para fechar o tema, queria que você fizesse seus comentários finais, alguma mensagem que você queira passar e comentasse mais um pouco sobre como, nós designers olhamos esta questão de gênero na academia / universidade.

O que eu acho que eu queria fechar, precisamos pensar nestas relações de desigualdades tanto no desrespeito das questões de gênero em relação a homens e mulheres, e nas relações de igualdade atravessadas pela categoria da sexualidade, não dá pra pensar gênero sem esta categoria também.

"Precisamos pensar nestas relações de desigualdades tanto no desrespeito das questões de gênero em relação a homens e mulheres, e nas relações de igualdade atravessadas pela categoria da sexualidade."

Porque estes atravessamentos de fronteira de gênero, como estamos dentro de uma sociedade que tem como base a heterosexualidade compulsória, quando acontece estes atravessamentos as questões da sexualidade entram em jogo e aí a questão pega, porque entramos em um conjunto de julgamentos e normas que estabelecem a partir de um contrato heteronormativo que os indivíduos que atravessam as fronteiras do que é entendido como normal, são estigmatizados, são vistas como desviantes, como pessoas que estão fora de um registro de normalidade, não são entendidas, não são percebidas como entendíveis, inteligíveis dentro desta matriz, chave de leitura. É preciso pensar. Em relação ao design, um pouco do ponto de vista de professora e pesquisadora, eu acho que precisamos trabalhar mais estes temas no mundo acadêmico e precisamos de mais pesquisas nesta área em design e gênero está muito carente de engajamentos. Seria interessante fomentar o interesse pelo desenvolvimento de pesquisa em nível de graduação, no nível de pós-graduação para podermos ter, aqui no Brasil, um fortalecimento desse enfoque.

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