AI,UI,UX, Design de interação WTF?- Entrevista com Érico Fileno

Ai, UX, UI Design de interação
Erico Fileno Entrevista com:

Érico Fileno

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Q: O convidado de hoje é o Érico Fileno para conversar conosco sobre UX e interfaces:

Olá pessoal! Sou designer formado pela UFPR, e atuo há bastante tempo, começando com o meio digital que foi início de eu decidir fazer design. Só que quando eu entrei no curso de design, em 1997, eu vi que não tinha nada a respeito de interface. Mas foi interessante ter feito o curso e fazer a ponte com o que eu trabalho atualmente. Me posiciono, hoje, no mercado como um designer estratégico fazendo a ponte entre negócios, design, tecnologias. Já atuei por muito tempo trabalhando puramente com design de interação. Mas de um tempo para cá, venho mesclando com outras áreas correlatas ao design, mas sempre pelo lado projetual, entendimento do contexto, experiência com o usuário. O design funciona dentro da minha carreira como um ímã, que me conecta a várias outras áreas. Por isso é complicado dizer o que eu faço, mas o início de tudo para mim foi a escola de design na UFPR, que abriu portas para eu saber qual caminho eu iria trilhar na minha carreira.

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Falando sobre o design de interação, existe ainda muita dúvida em relação aos termos. O que seria um UX Designer? User Experiencie? UI? O que seria o design de web ou de interação? E arquitetura de informação?

"Já vou começar com uma polêmica, porque eu, particularmente, acredito UX designer não existe."

Já vou começar com uma polêmica, porque eu, particularmente, acredito UX designer não existe. Isto é um termo utilizado de forma errada no mercado, porque UX significa experiência do usuário (user experience) e isto nós não desenhamos, não projetamos a experiência de alguém. A experiência quem vai ter é a própria pessoa. O que nós temos condição de pensar é o ambiente, as interfaces. Dentro do contexto de experiência do usuário podemos ter arquitetos, engenheiros, designers gráficos, designers de interação. E todos trabalham em prol de projetar um espaço, de projetar uma interface, de pensar um serviço, mas a experiência cada um vai ter a sua individual. Então, o papel de UX funciona como um grande guarda chuva que coloca todos os profissionais que tem esta preocupação em colocar o usuário no centro como principal resultado do projeto. Por exemplo, vou desenhar uma cadeira: onde ela vai ser utilizada, como ela vai ser guardada dentro de um espaço, como ela vai compor o espaço para proporcionar uma boa experiência?! Mas não significa que seu eu colocar a cadeira aqui, a pessoa vai sentir confortável neste momento. Pode ser que no dia seguinte ela, dependendo do contexto, naquela mesma cadeira não esteja confortável. Experiência cada um vai ter e é a sua. UX designer eu considero que não existe.

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E O design de interação?

Este vem aumentado cada vez mais sua atuação e ele é um híbrido. As escolas de design trabalham no modelo produto e gráfico, e assim o designer de interação é um pouco gráfico, um pouco produto. Eu já trabalhei com design de interação para empresas de tecnologia, onde eu projetava o celular, e não tinha diferença de quando eu estava desenhando um produto ou uma interface. As duas coisas caminhavam juntas. Ao mesmo tempo que eu pensava interface, eu pensava onde o botão iria ficar, eu pensava como seria a pega do celular, se o usuário vai digitar com um dedo, ou com as duas mãos, ou com três dedos. Tudo acaba influenciando na interface de um produto, então não tem um limite entre produto e gráfico. O papel do designer de interação é pensar a interação em si, das pessoas com os produtos e com artefatos. E também de pessoas com pessoas mediadas por alguma artefato. Ele tem essa preocupação, e não fica restrito ao meio digital. Às vezes as pessoas associam o designer interação sempre ao digital, mas não é só isso. Já trabalhei em projetos que não tinham nenhuma conexão na tomada e era um serviço de design de interação. Desde pensar em um contexto de um ambiente de uma loja até pensar como se dá o usuário dentro de um carro. Pensar na interação dele com o volante, painel, câmbio, pedal, retrovisor. Envolvia coisas digitais como o painel, mas coisas mecânicas como pedal e volante. O design de interação tem a preocupação de entender o ser, a pessoa dentro de um meio artificial nas suas interações com os artefatos.

"O papel do designer de interação é pensar a interação em si, das pessoas com os produtos e com artefatos. E também de pessoas com pessoas mediadas por alguma artefato. Ele tem essa preocupação, e não fica restrito ao meio digital."

Eu particularmente adoto o termo designer de interação, por uma evolução que vem olhando pelo lado puramente digital, para profissionais que tinham, anteriormente, e que aqui no Brasil ainda tem um certo peso, mas lá fora não se encontram mais dizendo que são designers de interação. Primeiro, que até é um termo esquisito, que é Engenheiro de Usabilidade, e eu digo esquisito porque já tive na minha carteira de trabalho assinado que eu era engenheiro. Até mostrei para meu pai - "Sou engenheiro" - e aí escondi minha carteira para o CREA não vir cobrar. E outro profissional é o arquiteto da informação. São duas áreas: tanto a usabilidade, quanto a arquitetura de informação. Hoje em dia, o profissional de design de interação que trabalha especificamente com foco no digital precisa ter este conhecimento de usabilidade, que é projetar coisas fáceis. Anote na caderneta, se você começar a pensar que as coisas tem que ser fáceis para as pessoas em qualquer coisa que for projetar, você já está trazendo usabilidade para seus projetos. E arquitetura de informação trabalha basicamente em construir fluxos informacionais de forma ordenada e bem pensados, e que torne o entendimento, a leitura simbólica das pessoas através dos artefatos construídos.

Se estou pensando em uma interface digital, tem uma arquitetura de informação. Mas também posso pensar na gestão da informação, biblioteconomia, trabalhar a arquitetura da informação em meios físicos e offlines. Falando, tudo parece uma grande confusão. Às vezes, tenho amigos que fazem exatamente o que eu faço, mas ele se intitula como arquiteto da informação, o outro como designer de interação, o outro como pesquisador, engenheiro de usabilidade. A descrição das tarefas são muito idênticas.

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A ideia de poder compartilhar metodologias, formas e processos de design?

Eu acredito que no mundo, a formação do design de interação mais ou menos ordenada como é, é algo de 20, 30 anos para cá. No Brasil, menos de 10 anos. Inclusive, eu participei da formação do primeiro instituto de design de interação do país, com essa preocupação de montar um pós, formar pessoas já trabalhando e pensando em design de interação. Eu diria que, primeiro, é falta de uma organização. O que acontece é que vem pessoas de várias áreas - não que eu seja contra - mas, às vezes, era jornalista e aprendeu ali alguma coisa ou outra sobre organizar informação e vai trabalhar com isto. Era programador, pois existe uma área com arquitetura de software, e trabalha de certa forma com arquitetura de informação, e vem trabalhar nesta área. E vem gente de várias áreas, com vários conhecimentos e cada um acaba puxando.

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Você vê vantagens de quem sai do design?! Sabemos que temos essa deficiência de aprender na universidade o design de interação. Mas para quem é formado em design, quais são as vantagens que ele tem em migrar para essa área de interação, de arquitetura da informação?!

Eu vejo que que vem de design está alguns passos além dos profissionais que vem de outras áreas, porque faz parte da nossa formação desde o início, esta questão de conectar pessoas e tecnologia, este momento de pensar projetualmente.

Eu vejo que que vem de design está alguns passos além dos profissionais que vem de outras áreas, porque faz parte da nossa formação desde o início, esta questão de conectar pessoas e tecnologia, este momento de pensar projetualmente. Quem vem do gráfico, por exemplo, tem toda essa questão de composição de ordenação, organização do visual e isso implica muito em desenhar interface. Por isso eu digo, quem vem do design, já vem muito na frente. Mas é engraçado, porque quando comecei a trabalhar com desenvolvimento de interface, no final dos anos 90, era um ou outro designer que estava ali trabalhando. A maioria era pessoal da programação, e aí no início dos anos 2000, quando começou essa preocupação com a interface, se encontrava muita gente vindo da comunicação: jornalista, publicitário. E somente agora, coisa de cinco anos, os designers começaram a acordar para isto. É bem engraçado porque sou professor, além de trabalhar com minha empresa, dou aula de design de interação e eu percebo o interesse cada vez maior dos alunos tanto de gráfico quanto de produto. Essa preocupação, busca em entender o que é design de interação, o que é trabalhar em interfaces. Pensar o usuário ao utilizar um celular um tablet.

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Como um designer pode buscar material, pode ir atrás por si mesmo?

Uma das coisas que eu também participo, desde 2006, é uma associação mundial chamada IxDA que começou nos EUA e desde 2007 temos atividades no Brasil. Ela é movida por cidade, cada cidade tem o seu capítulo do IXDA. De lá você consegue pesquisar as cidades que tem grupo de profissionais que se reúnem, basicamente, para trocar ideias, trocar informações. Além disso, temos um encontro de IxDA mundial, que acontece sempre entre janeiro e fevereiro e sempre em um país no hemisfério norte, e 2014 vai ser em Amsterdã. Por outro lado também, fazemos pelo quinto ano um encontro chamado Interaction South America que hoje é o principal evento de design no Brasil em termos de importância e quantidade de participantes. Ele vai acontecer semana que vem, em Recife, onde conseguimos trazer profissionais de grande porte para palestrar e dar workshops. Conseguimos trazer em torno de 700 profissionais, e vem gente do mundo todo. Ele ganha importância como um dos principais eventos de design porque, por exemplo, este ano temos 20 nacionalidades representadas no evento no Brasil. Eu participo de P&D, eventos de IHC, de tudo e nunca ouvi falar de um evento de design com esse porte. Por exemplo, no ano passado, em São Paulo, tínhamos designers vindo da China, do Japão, da Coréia, dos Estados Unidos vindo ao Brasil para participar do evento. Além disso, para o estudante que quiser conhecer mais, existem alguns cursos de formação, às vezes curtos. Eu ministro alguns aqui em Curitiba, na Aldeia Coworking, e coordeno uma pós graduação na Universidade Positivo chamada "design centrado no usuário" e ano que vem será nossa quarta turma, onde as aulas começam em março para um curso de 440 horas. É até engraçado o nome do curso - "design centrado no usuário". Já li e recebi algumas críticas, "poxa, designer precisa fazer uma pós para falar sobre o termo design centrado no usuário" e respondo "sim, precisa". Sou designer de formação e encontro muitos designers que não tem essa preocupação. É design centrado no designer, é design centrado na tecnologia, é design centrado no cliente. E é importante pararmos e pensarmos que o que estamos projetando não é para mim, ou para o dono da empresa - é para o cliente. Este cliente, usuário a partir do momento que ele sentir que este negócio, que aquele produto faz sentindo para vida dele, ele vai usar, vai comprar, vai divulgar e aí sim o dono da empresa vai começar a faturar. Parece pouco, mas é preciso fazer pesquisa de campo, desligar o computador e ir para a rua. São coisas que se discute e se trabalha na pós.

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Vamos falar um pouco de interface, com a ideia de cada vez mais a web estar presente na geladeira, o que chamamos de internet das coisas. Qual vai ser a importância do designer de interação de interface nesta questão e se o designer precisa ter noções de programação e como a tecnologia funciona?

"Sobre a importância de pensar o design de interação conectado em artefatos, ele trabalha sem esse limite. É interessante pensar ele sem barreiras, o projeto começa e eu não sei se vou desenhar uma interface ou um produto."

Sobre a importância de pensar o design de interação conectado em artefatos, ele trabalha sem esse limite. É interessante pensar ele sem barreiras, o projeto começa e eu não sei se vou desenhar uma interface ou um produto. Da mesma forma que encaramos a construção de artefatos, vou pensar uma geladeira onde vai ter uma interação, só que ela vai ser digital? A mecânica? É trabalhar sem barreiras sem limites. Uma outra coisa interessante de pensar, nesta linha é algo que eu já mudei algumas vezes de opinião, porque eu antes de fazer design tenho formação em informática e no início eu achava que era super importante designer saber programar, depois já mudei e vi que não ele não precisa. Hoje eu já tenho essa posição: ele não precisa, mas se souber é um diferencial. Da mesma forma que para trabalhar com design de interação o inglês, que até um tempo atrás seria um diferencial hoje é primordial. Toda a bibliografia, tudo está inglês, os principais eventos são em inglês. Por exemplo no IxDA os grandes palestrantes vêm de fora. Toda troca de informação é em inglês. Hoje mesmo no brasil estamos com algumas vagas em abertos em grandes empresas como Intel, Samsung com inglês fluente, não é nem inglês avançado. O saber programar eu coloco em segundo plano, quando eu seleciono profissionais o mais importante é ter o domínio da interface, pensar o usuário dentro do contexto, se ele souber programar é diferencial porque vai ajudar o diálogo com a equipe de desenvolvimento. Mas, é claro, eu encontro profissionais que é o superman, diz que faz pesquisa, que monta interface e programa. Ele está confinado a empresa menores, ou escritórios, agências menores que ele irá fazer tudo. Com o passar dos anos, ele vai perceber que irá precisa se especializar em alguma coisa. No inicio ele pode fazer tudo, eu mesmo quando comecei em 1995 montando e fazendo sites eu fazia tudo, layout, programava php java, hoje em dia não quero nem ver na minha frente. Mas eu entendo que até eu consigo dialogar e conversar com a galera da programação de igual para igual. Mas eu não quero sentar no computador e programar. Você acaba escolhendo, tenho mais habilidade nessa área, gosto mais desta ou as vezes o mercado demanda.

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Quero agradecer a presença do Érico Fileno:

Obrigado pelo convite. Eu gosto bastante de falar sobre o que eu trabalho, estudo e ensino. Como falei, nós temos o espaço IxDA, entre e procure pela sua cidade. As principais capitais tem grupos de profissionais que se reúnem uma vez por mês para trocar ideias. São diversas atividades que vão desde clube do livro até leitura de artigo e discussão, reuniões mensais de uma ou duas horas. Temos o nosso encontro, o Interection em Recife, e no ano que vem em fevereiro, em Amsterdã. Fora estes, temos outros encontros acontecendo. Tem um grupo no facebook que é o /designdeinteracao, onde reunimos o pessoal e é tudo divulgado. E algo importante que sempre digo, designer de interação deve manter a curiosidade que o designer já possui, e não ter medo de fazer conexões malucas, um designer trabalhando com psicólogo ou com um médico, e entender que o foco do designer de interação é conectar pessoas, se isto vai se dar por meio digital ou meio offline não importa.

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